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Um mergulho em Sexo, da Pierrot Lunar

Cia Pierrot Lunar – Baseado em romance homônimo de André Sant’anna, Sexo é o mais novo espetáculo da companhia

Nascido em BH, mas tendo vivido boa parte da vida no Rio e São Paulo, o escritor André Sant’anna, filho do também escritor Sérgio Sant’anna, carrega em seu texto uma linguagem ácida, semi-biográfica e acima de tudo imagética, característica talvez peculiar à sua profissão de publicitário.

É neste sentido que a companhia teatral belo-horizontina Cia Pierrot Lunar dá prosseguimento aos seus estudos de adaptação de textos literários para o palco com a encenação de Sexo, peça baseada em livro homônimo do escritor, calcado na construção de esteriótipos peculiares à sua profissão.

No palco, esboçam-se múltiplas passagens do texto, imersas em elementos cênicos harmônicos ao  frenesi polissilábico. Aqui, tipos comuns (jovem executivo, negro que fedia, gorda com cheiro de perfume Avon…) transitam pelo espaço envolvendo a audiência num paradoxo de recortes verossímeis e, ao mesmo tempo, oníricos.

Confira abaixo entrevista com o diretor da peça, Juarez Dias. 

A Cia. Pierrot Lunar tem em sua cerne um trabalho investigativo sobre a linguagem literária. Como se deu a escolha pelo romance Sexo, de André Sant’anna?

Estávamos já num processo de pesquisa e era necessário que escolhêssemos um romance para poder desenvolver o que já havia apontado pra nós de possibilidades da linguagem do teatro narrativo. Queríamos um escritor nacional e contemporâneo e um texto que tivesse uma comunicação mais direta com o público. Investigando, chegamos até o "Sexo" do André Sant’Anna que revelou-se profícuo para nossa pesquisa.
 
Ainda sobre os estudos literários. O processo de concepção adotado pela Cia é sempre o mesmo para diferentes espetáculos? No caso de Sexo, como foi?

É e não é. O SEXO é a minha segunda direção no grupo, que se deu de forma consecutiva, por vários motivos, principalmente porque iniciamos no "Atrás dos olhos…" uma possibilidade de trabalhar romances e o texto narrado e daí veio o interesse de ampliar e aprofundar a pesquisa. No "Atrás" éramos somente Neise, Léo e eu em sala de ensaio durante quase 80 por cento do processo. No "Sexo" já contávamos com mais quatro atores convidados e a Neise como minha assistente de direção. Só isso já muda muito. Mas o processo de assemelhou: começamos improvisando cenas e trabalhando as primeiras páginas do romance, depois passamos para uma primeira proposta de edição do texto e suas várias versões, até a estreia. Mas o processo não para. Em três semanas de temporada já fizemos alterações, cortes, inversões de cenas. É assim. Teatro é vivo.
 
O texto de André parece incorporar em sua estrutura particularidades da linguagem publicitária. Na temática então, o fato se torna ainda mais pungente. Em que medida o texto dramatúrgico dialoga com o publicitário no espetáculo?

O romance apresenta ainda essas características publicitárias. O André é publicitário e ele de alguma forma revela como a sociedade midiática enxerga a si mesma, por meio de rótulos, categorizações de público-alvo, estereótipos. O texto do espetáculo transporta o texto do romance, guardadas algumas pequenas distorções inerentes à atuação, uma troca ou outra de palavras. Mas preservamos praticamente tudo como estava escrito. A dramaturgia apenas fez uma edição e reorganizou o material selecionado para criar uma unidade cênica.
 
Aliás, Sexo parece ser uma obra de arquétipos bem definidos – e as vezes fechados em si mesmos –,  algo comum no dia-a-dia da comunicação. Os atores fizeram algum tipo de laboratório no universo dos personagens?

Os arquétipos são conceitos comuns ao inconsciente coletivo que podem se materializar, tornando-se estereótipos. Dessa forma, o romance e o espetáculo apresentam uma série de estereótipos, formalizados, concretos, dessas ideias coletivas. Além disso, os esterótipos são constantemente disseminados pelos meios de comunicação de massa. Não chegou a ser um laboratório, pois os estereótipos não permitem uma construção mais vertical dentro da ideia de personagem. Mas foram pesquisados personagens reais que pudessem se aproximar dessas "caricaturas" sociais.
 
Sobre elementos cênicos, de que forma revistas, bíblias, artigos de sexy shop e escadas, entre outros de um amplo universo, contribuíram para a construção do espetáculo?

As revistas dialogam totalmente com o livro, exatamente por essa aproximação entre realidade e esterótipos, além da linguagem midiática que o André imprime no romance. Os objetos constituem uma unidade dentro da diversidade. A escada pode metaforizar a distância social entre dois negros de origem pobre, mas sendo que um deles tornou-se um astro internacional da música e o outro segue como faxineiro de shopping. A Bíblia ali é tratada como um instrumento de dominação, de um personagem que utiliza-se da intolerância religiosa e da fé para promover-se e tornar-se um lider. Já os artigos de sexy shop… seria redundante falar deles num espetáculo que se chama SEXO, não?
 
Atualmente Sexo está em cartaz no espaço próprio da Cia Pierrot Lunar. Vocês pretendem encená-lo em outros locais e outras cidades? Qual o futuro da Peça?

Não só em outros espaços de BH, mas de outras cidades e capitais também. Ele já foi pensando para se adequar a cada espaço que o receber. Tudo pode ser transformado, de acordo com as necessidades. Isso é um grande barato, pois o espetáculo nunca se manterá congelado, precisando sempre de ajustes e reformulações. É um trabalho instigante.

detalhes

Sexo, uma adaptação da obra de André Sant'anna

Montagem da Cia. Pierrot Lunar.

sexta a domingo, às 20h. Espaço Aberto Pierrot Lunar (Rua Ipiranga, 137, Floresta)

Até 26 de maio. Conheça mais pelo site da Cia e do Espetáculo

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autor

Em Belo Horizonte, curte bares discretos, livrarias e feriados prolongados e vazios. É Jornalista, amante de literatura, música e tecnologia. Siga-o no Twitter ou no Facebook - Leia outros textos de

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