
Nesta quarta-feira, 26/10, será liberado na íntegra para ser assistido pela internet o curta-metragem Pedaço de Papel, do realizador Cesar Raphael. O filme, que tem duração de 17 minutos, foi todo realizado em Belo Horizonte e chama a atenção por dois fatores inusitados: primeiro, o fato de ter sido realizado sem nenhum tipo de financiamento, e segundo, ter a qualidade de um longa condensada num curta.
Não é muita gente que sabe, mas Cinema custa caro e a profissão de realizador no Brasil é bastante ingrata. Como quase todo cineasta, Cesar começou por um curta, por ser financeiramente mais viável, mas sem nenhum apelo comercial. O resultado teria sido desanimador para qualquer um: a aprovação na Lei Rouanet veio, mas a captação do dinheiro não saiu. O rapaz então tomou uma decisão corajosa: reduzir os custos e bancar do próprio bolso. Aprendeu cedo, da mesma forma que Woody Allen.
Pedaço de Papel recebeu prêmios internacionais não foi à toa. Bem executado, montado, com uma história cativante e universal, além de uma trilha sonora impressionante, o curta levou dois anos para ser realizado, mas o trabalho final leva a crer na decisão acertada do diretor de persistir com o projeto. Alguns movimentos de câmera são bastante ousados para um iniciante: filmar de frente e bem de perto uma pessoa que corre, focalizar dentro do cano do revólver, dividir a tela numa manobra que teria feito Tarantino dar um sorriso. Cesar está no caminho certo e qualquer um que assistir o filme poderá ver por si mesmo.
O Mondo BHZ conversou com o realizador. Antes de assistir Pedaço de Papel, saiba um pouco mais sobre seus bastidores:
Mondo BHZ: Você nasceu em BH? Qual sua formação?
Cesar Raphael: Sim, nasci em BH. Eu fui parte da primeira turma do então novo curso de cinema do centro universitário UNA, estudei lá por cerca de 1 ano e por diversos motivos abandonei o curso. Estudei também na Escola Livre de Cinema do cineasta Cláudio Costa Val, ambos em Belo Horizonte. Porém o fator mais vital na minha formação profissional foi a prática. Trabalhei (muitas vezes sem remuneração) em diversos projetos cinematográficos nas mais variadas funções: de assistente de direção a continuísta, de figurante e fotógrafo still a assistente de produção e motorista. Eu estava faminto para desvendar como funcionava um set de cinema, absorver tudo como uma esponja e depois finalmente aplicar assumindo a direção, fundando a minha própria empresa e produzindo os meus próprios projetos.
Desde sempre você soube que Cinema seria o seu trabalho?
Desde sempre minha brincadeira favorita era pegar a câmera da minha mãe e contar histórias através da lente. Aos 7 anos eu e meu primo Thiago Bento (que hoje é meu sócio na Lumiart e produtor do longa) fizemos nosso "primeiro filme". Os outros primos, tios etc serviam como equipe e elenco e isso era constante nos encontros de familia. Porém foi na adolescência quando percebi que isso era muito mais do que uma brincadeira e que eu estava destinado a seguir o cinema como profissão.
O que te motivou a fazer esse filme? Quanto tempo se passou entre o planejamento e a execução?
É uma externalização da minha visão de mundo através da arte. Todo artista compartilha sua visão através da arte, seja pintura, escultura, música ou cinema. O Pedaço de Papel é a minha resposta e ponto de vista em relação aos absurdos cometidos pela humanidade contra ela mesma em nome de um simples pedaço de papel. O filme levou 2 anos para ser completado, um tempo grande para um curta metragem, mas eu acredito que você colhe o que planta.
Porque decidiu fazer a obra sem nenhum diálogo? Isso abre bastante portas para você no exterior. Pensou nisso ao tomar essa decisão?
Sim, eu queria criar algo que fosse universal, que pudesse ser apreciado por um estudante no Brasil ou um executivo no Japão. E o roteiro pediu isso, foi algo muito natural. Além do filme não ter diálogos ele também não tem nenhuma linguagem escrita. E a frota de veículos de polícia, os uniformes dos policiais, a nota de dinheiro e toda a direção de arte foi criada especificamente para o filme. Nada é regional, tudo é universal. Se você olhar bem de perto vai perceber que a única linguagem escrita do filme está na nota, que foi batizada de "nihil", que em latim significa "nada".
Ao escrever o roteiro você já havia imaginado que faria o papel que fez no filme ou decidiu interpretá-lo de última hora?
Desde o início me imaginei neste papel, contudo cheguei a fazer audições com outros atores e comigo mesmo para o meu "eu diretor" poder definir claramente o que seria melhor para o filme.
Prestando atenção na montagem, algumas influências ficam evidenciadas, como Quentin Tarantino, por exemplo. Quais os cineastas que te influenciaram enquanto você escrevia o roteiro?
Charles Chaplin. Eu sou constantemente inspirado pela forma como ele consegue transmitir emoções e te fazer e rir e chorar ao mesmo tempo sem dizer uma palavra. Ele foi um dos poucos a conseguir unir perfeitamente entretenimento de alta qualidade, conteúdo e mensagens sociais. Isso é algo que falta nos filmes mais atuais, que apostam somente em efeitos especiais e tecnologia. Efeitos e tecnologia se tornam ultrapassados enquanto boas histórias com entretenimento e conteúdo duram para sempre.
A trilha sonora, de Daniel Barros, é um capítulo à parte. Ela realmente movimenta e dá vida ao curta. Você conversou com o Daniel sobre o que você queria de música para o filme, trocaram ideias, ele chegou a ver algo filmado para se inspirar?
Sim, toda a trilha foi composta milimetricamente em cima das cenas já filmadas e editadas. O Daniel Barros é um gênio e o processo criativo da música foi extremamente colaborativo. A música foi baseada nos sentimentos presentes na cena. Como traduzir este sentimento para forma musical? Como o filme não tem diálogos, o conceito era de que a música seria a "fala do filme", tendo uma carga emocional muito grande e estando em sincronia com as ações assim como a voz é sincronizada com os movimentos labiais. E um dos maiores desafios foi fazer com que os temas fizessem sentido não somente para cada cena individual, mas também no filme como um todo. Aproveitando para dizer que estou feliz em anunciar que a parceria com o Daniel irá se repetir no longa metragem "The Traveler".
Para viabilizar o curta, você precisou reduzir dez vezes o orçamento original. Ainda assim, o trabalho final nada deve a algumas produções estrangeiras. Como você conseguiu esse resultado?
Dois fatores principais: tendo uma força de vontade de aço e não cedendo a problemas de produção ou verba que fossem comprometer a qualidade. Por isso, a produção se estendeu por tanto tempo, se eu tivesse que adiar uma cena 2 meses pois seria a única forma de termos o que era necessário para filmar da forma como eu havia envisionado, era assim que eu agia. E número dois, firmando parcerias com a equipe, elenco e empresas que foram apoiadores culturais. A produtora do filme Carla Onodera foi muito bem sucedida em firmar estas parcerias e o curta não poderia ter sido feito sem elas. Todas estão creditadas no filme e nos materiais de divulgação mas posso citar como exemplo a produtora "Hemisfério Criativo", responsável pela pós produção, o estúdio "Nas Montanhas" onde a trilha sonora foi gravada, a "Pizza Pezzi" e o "Eddie Fine Burgers" que contribuíram com a alimentação no set, e por aí vai.
Porque não tentou viabilizar a produção por meio das leis de incentivo, quando a maioria dos cineastas brasileiros procede dessa forma?
Na verdade eu tentei. O roteiro e projeto foram aprovados na lei Rouanet de incentivo a cultura, porém as burocracias e dificuldades do processo de captação dos recursos já aprovados inviabilizaram tudo. 90% dos projetos aprovados na lei Rouanet não recebem a verba que deveriam para produção e o meu filme virou parte desta estatística. Diante disso me recusei a cruzar os braços e decidi agir de forma independente.
No mundo todo, mas especialmente no Brasil, os curtas possuem um espaço extremamente restrito para exibição, então é muito provável que, financeiramente, você nunca recupere o dinheiro investido. Ainda assim acredita que essa experiência tenha valido a pena?
O meu objetivo nunca foi ganhar dinheiro com este filme e isso estava claro desde o início. Meu objetivo era criar arte, tocar o público e utilizar este material como um cartão de visita. Como uma pequena amostra do meu trabalho para abrir portas para algo maior. E foi exatamente isso que aconteceu.
Você está fazendo seu primeiro longa metragem. Como está sendo a experiência? Também será feito de forma independente?
Sim, eu sempre vou produzir de maneira independente pois é a forma de manter o controle criativo e não ser engolido pela indústria de Hollywood. A experiência está sendo extenuante e prazerosa. Estamos levando tudo para o próximo level, dando um grande passo a frente em todos os sentidos. Tudo é maior, mais empolgante, mais profundo e grandioso. Do roteiro à produção, do elenco à direção de arte e movimentos de câmera. Tudo está sendo multiplicado por 1000 incluindo a qualidade, as emoções e o coração do filme. No curta nós fechamos uma avenida no Belvedere em Belo Horizonte para as filmagens, agora estamos fechando a Hollywood Boulevard em Los Angeles.
Pedaço de Papel, de Cesar Rapahel. Duração: 17 minutos. Saiba mais sobre o filme.