

Os fãs das animações do vencedor do Oscar Hayao Miyazaki não se decepcionarão com o seu novo trabalho, Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar.
O realizador, premiado pela Academia em 2001 pelo excepcional A Viagem de Chihiro, se inspirou no conto escrito pelo escritor dinamarquês Hans Christian Andersen para criar sua protagonista, uma peixinho dourada que deseja se tornar humana. A diferença deste filme para o clássico de 1989 da Disney A Pequena Sereia, inspirado no mesmo conto, está no foco do cineasta e na sua execução, sendo a obra contemporânea incrivelmente superior.
No enredo, uma peixinha dourada (Yuria Nara) é mantida prisioneira por seu pai Fujimoto (Jôji Tokoro), um feiticeiro que já foi humano e agora despreza a raça que enche os mares de lixo. Ela consegue escapar e encontra Sosuke (Hiroki Doi), por quem fica imediatamente cativada. O garoto também se afeiçoa à peixinha. Para manterem a amizade, os dois enfrentarão uma série de desafios que envolvem, inclusive, o futuro da raça humana na Terra. Esse último tema em específico sempre aparece em filmes japoneses. E o engraçado é que na maior parte das vezes funciona.
Um visual bonito e surreal permeia toda a fotografia da obra, que traz várias palhetas de cores, priorizando o azul do mar e suas cores derivadas. Há momentos de sombra e de luz, muito claramente relacionados ao que acontece no enredo. Com a naturalidade de uma criança, Miyazaki, de uma hora para a outra, perverte a ordem reinante e nos deixa confusos, quase apavorados, ante a eminência de catástrofes desproporcionais. E, quando menos esperamos, tudo muda de novo.
Similar ao que acontece em A Viagem de Chihiro, o filme nos emociona e, ao mesmo tempo, nos dá medo em vários momentos. São nuances interessantes as usadas pelo diretor, nas quais o horror e o ato de maravilhar-se são tão próximos. É de uma delicadeza e sutileza que realmente só encontramos nos desenhos japoneses, particularmente os desse realizador, nos quais são feitos retratos fiéis da alma humana. Suas histórias sempre ressaltam a importância de termos fé na humanidade, apesar de tudo.
O lixo mostrado no fundo do mar logo no início do filme é uma denúncia feita de forma singela e, ao mesmo tempo, insere o conto na realidade de hoje. Mais uma vez, o desenho foge dos encantos de A Pequena Sereia, cujo mares eram límpidos e tudo era perfeito e belo. Outro aspecto no qual o filme japonês se difere de seu antecessor é o fato de que o relacionamento que se estabelece entre Ponyo e Sosuke é bem diferente daquele entre Ariel e seu príncipe encantado. Até porque os protagonistas são crianças! Inclusive esse fato cativa o público, conquista tanto crianças quanto adultos, e foi uma escolha de abordagem extremamente feliz do diretor.
A trilha sonora do filme é muito boa, composta por coral e orquestra, com vozes líricas e violinos que deixam as coisas mais emocionantes, cada música no seu momento certo.
Surpreendentemente maduro para um conto infantil mas, ao mesmo tempo, com uma história encantadora, Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar é para crianças de oito a oitenta anos. Não é de tirar o fôlego como A Viagem de Chihiro mas é uma obra com seus próprios encantos, que tem tudo para reforçar a importância do trabalho de Miyazaki. Este já começa a ser valorizado a partir do momento em que a própria Disney distribui o filme para fora do Japão e coloca atores como Matt Damon e Cate Blanchett para dublar a versão norte-americana. Como diria o próprio mote da obra: "Bem Vindo a Um Mundo Onde Tudo é Possível". Quem diria que Hollywood se renderia ao surrealismo insano e inocente de um senhor de 69 anos?
Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar
Dirigido por Hayao Miyazaki (1h 41min)
Em cartaz no Cineclube Savassi, às 14h50