

Estranhamento. Está é a primeira sensação no momento pré-espetáculo de A Mudança, da Companhia do Chá, em cartaz no palco do Galpão Cine Horto. Uma fumaça perfumada domina o ambiente. O palco, em estilo italiano está vazio, exceto pelos objetos cênicos. As luzes estão acesas. Para subir até o meu lugar, passo pelas coxias e nada vejo. Me acomodo no lugar e não demora tudo fica escuro.
Quando a luz se acende, é de maneira precária. Logo vemos um homem gritando, se contorcendo de dor, com a luz em foco em cima de si. É Gregor Samsa, o personagem de Kafka. A luz se apaga e quando reacende vemos um homem velho com um abajur na mão, em busca de algo. Ele busca, com a luz em mãos, por toda a casa. Não encontra e volta a dormir. Mas não por muito tempo.
E esse é apenas o início de uma peça que se apropria livremente do conto A Metamorfose, do escritor alemão, para construir um universo próprio. Misturando elementos pop e temática clássica o espetáculo usa inúmeros recursos cênicos para contar a história dos quatro personagens: Gregor, o filho mais velho; a mãe, o pai e a filha mais nova, uma criança. Nesta adaptação não há insetos gigantes para o público ver, apenas um homem atormentado que acorda diferente numa certa manhã. Sua família o teme, pois ele não é mais o mesmo.
A apropriação do espaço do palco foi cuidadosamente planejada para servir à história. Durante toda a peça, os atores utilizam cada cantinho e sempre de acordo com o que é necessário a cada momento. A mobília também serve muito bem à narrativa, sendo quase um quinto personagem da família. O uso frequente das gavetas, em particular, é curioso. Não se sabe se foi uma saída criativa encontrada para a falta de outros objetos em cena ou se tudo foi feito dessa forma apenas para que os objetos também "participassem". Fato é que funciona.
A trilha sonora (ou a ausência dela) também precisa ser destacada porque é magnífica. Seja a música instrumental, extremamente cinematográfica, ou os barulhos e o trabalho de voz dos personagens; tudo foi muito bem pensado para dar o clima certo à história em cada um dos seus momentos. Há passagens em que é fundamental a música, para nos contar o que se passa nos corações dos personagens. E em outros, é essencial o barulho de passos, dos móveis caindo, o silêncio tenso, entre outros.
A iluminação é resultado de um trabalho impecável. Ela "fala" com o público de forma inteligente, sendo um reflexo das emoções dos personagens. É imprescindível. Seja em momentos de fúria, de medo, de confusão, conseguimos captar bem o sentimento dos personagens no palco através dela também. Em determinado momento, abajures se movimentam presumindo fuga à figura de Gregor.
Essa é uma peça de teatro recheada de elementos cinematográficos e da cultura pop mas, ao mesmo tempo, apresenta um aspecto que respeita bastante a ambientação de Kafka. Tim Burton está bastante presente no espetáculo. A mãe, inclusive, se parece muito com Helena Bonham Carter, esposa do cineasta. Trejeitos, gestos, maquiagem, vestuário, tudo lembra o estilo soturno de Burton. Mas, ao mesmo tempo, percebe-se que houve intensa pesquisa sobre como era a sociedade, as atitudes e os aspectos mais significativos do início do século XX, data original da obra. Como conciliar tantas influências? A Companhia do Chá conseguiu. Fez um espetáculo interessante, criativo e extremamente bem executado.
Espetáculo A Mudança
Até 14/03 no Galpão Cine Horto
De quinta a sábado, às 21h e domingo às 19h.
Mais informações no site do Galpão Cine Horto.