

Confesso minha pouca familiaridade com a obra de Nancy Meyers como um todo. Observando sua filmografia, descubro que já assisti a apenas um de seus trabalhos como diretora: Alguém Tem de Ceder, que foi indicado ao Oscar pela atuação de Diane Keaton. De seu trabalho como roteirista, já vi a O Pai da Noiva (apenas o primeiro, de 1991). Tendo isso em vista, faltam-me elementos para uma análise mais substancial de Simplesmente Complicado, novo trabalho da cineasta que reúne um trio de peso: Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin. Ainda assim, me permitam fazer algumas observações a respeito desse filme, que acredito ser um bom entretenimento, especialmente para as mulheres.
Nancy mostra, em seu novo trabalho, uma retomada da temática dos relacionamentos numa idade mais madura. Meryl Streep é Jane Adler, uma mulher divorciada há 10 anos do marido, Jake (Alec Baldwin), que a traiu e se casou com sua amante Agness (Lake Bell), muito mais jovem e mais bonita. O novo casamento de Jake não vai bem, apesar de, fisicamente, a mulher ser um sonho. Ele procura novamente a ex-esposa, causando-lhe uma série de inconveniências. Enquanto isso, ela conhece Alan (Steve Martin), um arquiteto gentil e interessante.
O filme todo se baseia em duas pedras fundamentais: os atores e os diálogos. A diretora não é nada boba e sabe que seu filme é Meryl Streep. Sua presença na tela é, como sempre, estimulante. Ela ri, chora e compartilha seus sentimentos com o público de maneira magistral. Sua desenvoltura como atriz é fascinante. Não a toa foi indicada 16 vezes ao Oscar, já tendo ganho duas e sendo forte candidata esse ano por seu papel em Julie e Julia. Como Jane Adler ela gera uma imediata identificação com o público feminino e, assim como Diane fez em Alguém Tem de Ceder, homenageia a beleza da mulher madura, mostrando que não é preciso cirurgias ou as formas perfeitas das modelos magrelas para se ser sedutora. Numa cena, inclusive, a prática da plástica é criticada de maneira leve.
Baldwin também está muito bem e engraçado, contrastando com a interessante sobriedade de Martin. Este sempre foi um ator cujas comédias eram muito escrachadas e é de se estranhar vê-lo tão comedido e, ainda assim, levemente engraçado. Nisso, ele é bastante ajudado por suas falas que, contrastando com sua expressão séria, geram o riso do público. Mas nada de gargalhadas. Apenas um humor leve e que serve bem à trama. Destaque positivo para John Krasinski, como o genro Harley, cujas expressões faciais combinam bem com o seu papel. Um pouco clichês, mas que encaixam bem no contexto do filme.
Quanto aos diálogos, são todos bem ligados entre os atores. A fala de um sempre depende de como vai reagir o outro, fazendo com que a obra seja um constante "bate-bola". Nisso se percebe o porque da escolha dos experientes protagonistas: a sincronia entre os atores é essencial para que o filme funcione. Isso já se percebia em Alguém Tem de Ceder.
O filme possui algumas sequências interessantes e a diretora usa bastante a câmera em movimento vertical, de cima para baixo, do amplo para o restrito, do geral para o particular, numa clara referência ao jeito de filmar de certas séries americanas. Cito como exemplo disso quando Meryl Streep e a família chegam a Nova York e a câmera mostra primeiro os prédios da cidade, do alto, e vai descendo e descendo, verticalmente, até dar um close nos quatro saindo do taxi e entrando no hotel. Essa imagem é feita sem cortes, num plano sequência interessante e se repete em vários momentos do filme, normalmente para introduzir uma nova cena da história. Nancy parece gostar muito de colocar a câmera no alto e descer com ela. Não é difícil observar esse tipo de sequência durante a projeção.
Simplesmente Complicado não abandona todos os clichês de comédias românticas e apesar de ser de qualidade superior a outros filmes do estilo, não surpreende. Mas nem por isso deixa de ser divertido e apresenta algumas reflexões sobre a vida, sobre como é amadurecer, sobre reconstruir a vida e continuar sonhando. Sendo uma obra de fácil apelo para o público feminino, especialmente por causa de Streep, deixará muitos acompanhantes, namorados e maridos entediados. Vão ao cinema com as amigas, garotas! Fica a dica.
Simplesmente Complicado
Dirigido por Nancy Meyers (2h)
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