

Em sua nova obra, As Ervas Daninhas, Alain Resnais permanece fiel à Nouvelle Vague, movimento contestador de cineastas que foi especialmente forte nos anos 60 e cuja principal característica permanece sendo a busca por filmes que fujam da corriqueira linearidade narrativa. O diretor ainda é o mesmo de Hiroshima, Meu Amor e O Ano passado em Marienbad (este último sendo completamente ininteligível). Seu objetivo é a poesia visual, a forma em detrimento do conteúdo, a exploração de possibilidades de imagem. Com este filme, ele nos relembra que uma poesia precisa ser sentida, não entendida.
E assim é este longa, sem princípio meio ou fim bem definidos. Nos primeiros minutos de filme, há a expetativa de um enredo comum, quando somos apresentados à história de Marguerite Muir (Sabine Azéma), uma mulher que vai comprar sapatos e é assaltada na saída da loja. Depois, ele nos mostra Georges Palet (André Dussollier) encontrando a carteira com os documentos dela. Coloca um pouco de suspense, uma trilha dramática e constrói para o público duas percepções de personagens bem definidas. Não demora muito mais do que 30 minutos para destruir tudo.
Merece destaque o papel que a repetição merece no filme. O diretor coloca várias vezes, sistematicamente, de tempos em tempos, uma série de imagens, especialmente a de ervas daninhas. Elas nascem no asfalto, no solo, chega a haver um campo cheio delas! E também temos flashes da bolsa flutuando no ar, sendo levada pelo assaltante; da carteira sendo encontrada, os fluxos de pensamentos em tela dividida e a imagem de Palet andando para trás, de costas, em direção a um cinema onde assistiu a um filme, como se ele estivesse voltando no tempo. Essas cenas funcionam de forma "curinga": em certos momentos "empurram" a trama pra frente, em outros mostram as passagens do tempo.
Outro elemento importante é o narrador, cuja fala se mistura frequentemente ao fluxo de pensamento dos personagens. No caso de Palet, por exemplo, a voz dele chega a se misturar com a do personagem, especialmente no início, quando ainda desconhecemos qual voz tem o ator. Daria para pensar que o filme todo está sendo narrado pelo protagonista, apenas tendo como base essas primeiras cenas. A narração é bastante excessiva em algumas partes, chegando a incomodar. Felizmente, mais pro final da história, ela diminui gradualmente. Sua função é de nos informar sobre certas peculiaridades do enredo. Mas ela também serve como mais uma ferramenta do diretor para nos enganar.
Resnais também usa a forma de apresentação dos personagens para criar expectativa. Ele nos apresenta Marguerite mostrando apenas seu pés e depois a mostrando de costas. Só muito depois de já estarmos familiarizados com ela, vemos seu rosto, brevemente, enquanto toma banho. O mesmo acontece com Palet, mas demoramos menos a ver seu rosto. Peculiar observar que, quando ele vê as fotos de Marguerite nos documentos, nós também somos privados da visão dos retratos. Ou seja, também não temos acesso à primeira imagem que o protagonista tem da personagem.
O diretor de fotografia usa bastante o movimento de câmera para ajudar Resnais a construir seu poema visual: plongéé, contra plongéé, travelling e o primeiríssimo plano marcam presença em diversos momentos. Também percebe-se que, em algumas ocasiões, o cenário foi composto de uma forma que evidencia o cuidado da obra com a beleza do que se está na tela. Muitos objetos preenchem o quadro, especialmente sapatos, relógios e pianos, criando um efeito muito peculiar. A casa de Marguerite também é uma obra prima visual, com mobília e quadros que mostram a afeição da personagem pelas cores e formas imprecisas. Quase no final do filme, somos surpreendidos com belas imagens de paisagens, cuja função é mais estética que narrativa.
A trilha sonora também é um destaque a parte, mas negativo porque em muitos momentos é excessivamente alta e se sobressai nas cenas, sendo muito mais chamativa do que a ação que se está passando. A ideia, ao que parece, é sermos chamados a perceber essa música, como que um lembrete de que estamos assistindo a uma obra de ficção. Essa ideia fica ainda mais evidenciada nos momentos em que toca o conhecido tema da 20th Century Fox, uma música curta, mas que nos é tão conhecida que é impossível levar qualquer tentativa da narrativa de ser levada a sério depois que ela toca várias vezes. Há uma parte em que, inclusive, toca essa trilha e a palavra Fim pisca na tela ostensivamente. Uma brincadeira com o espectador.
Sim, o objetivo de Resnais é nos chamar para brincar com ele, mas mesmo assim não deixamos de encontrar seriedade em partes de sua mensagem. É um poema que explora aquilo que é incompreensivo, mas também deixa um leve entendimento, uma pequena luz, especialmente quanto ao romance que acontece na obra. É um amor louco, semelhante a uma erva daninha, que nasceu em local e momento indesejado pelos dois personagens. Talvez mais indesejado por Marguerite, claro, o que torna as coisas ainda mais confusas. Tudo são apenas hipóteses. Quando se trata desse diretor, nunca se sabe.
As Ervas Daninhas
Dirigido por Alain Resnais (1h44min)
Estreia no dia 25 de dezembro em todo o país