
Acho que sou a última das críticas a escrever sobre A Árvore da Vida, este filme tão polêmico, tão comentado, tão admirado e detestado, tão cheio de pompa e circunstância. Quis tirar um tempo maior para digerí-lo antes de escrever. A má notícia é que não adiantou muito. Mas vejamos como me saio e o que vocês acham.
Com o aval positivo recebido pela Palma de Ouro em Cannes desse ano, muitas pessoas tem ido ao cinema para assistir a uma obra que, sinceramente, precisava ter entrado num circuito comercial mais restrito ou pelo menos ter algum tipo de "aviso" que alertasse as pessoas a respeito do filme. Algo do tipo: "não recomendado para aqueles em busca de entretenimento". Nos Estados Unidos, isso aconteceu, mas de forma diferente: os cinemas começaram a afixar avisos explicando que o filme era "de arte", que "o dinheiro não seria devolvido" e que aquele cinema "apoiava esse tipo de obra", entre outras coisas. Sim, os norte-americanos estavam pedindo o dinheiro de volta depois de assistir o filme. Aqui no Brasil ainda não ouvi falar que alguém tenha reagido dessa forma. Ainda bem, né?
Mas na sala em que assisti observei o público atentamente e vi reações de todo o tipo. Um grupo de alunos saiu rindo. Um senhor de idade chorou quase o filme todo. Cinco pessoas foram ao banheiro (mas até eu fiquei com vontade, as cenas com água e cachoeira de todo o tipo são incontáveis). Um grupo de amigas parecia em estado de choque ao fim da projeção, até que uma delas se atreveu a perguntar: 'de quem foi a ideia de ver este filme mesmo?' E o cinema do Boulevard Shopping acendeu as luzes antes de subirem os créditos! Confesso que quase gritei de susto, tão concentrada que eu estava em tentar entender. Em vão. Não é um filme para ser entendido.
É essencial ter isso em mente ao ir assistir A Árvore da Vida. Não é, de forma alguma, um filme para ser compreendido. É mais uma experiência sensorial. Nesse sentido, lembra, e muito, alguns vídeos feitos por artistas plásticos. É mais estética que enredo. Mais música que diálogo. Mais uma charada visual do que um longa-metragem de formato padrão ao qual estamos acostumados. É uma obra em aberto. Passível de inúmeros significados. O que o torna fascinante e, ao mesmo tempo, um tédio.
Sim, o filme tem seus pontos positivos e negativos e caberá a cada um decidir para qual lado a balança pende mais. Para quem não sabe, Terrence Malick, o diretor, é formado em Filosofia por Harvard, além de já ter dado aula nessa mesma área no MIT. Escorel disse brilhantemente em seu texto sobre o filme que acreditava que talvez o cineasta sofresse por ter "excesso de inteligência". Acho realmente que o fato dele ser filósofo é decisivo para a realização desta obra na qual ele trabalha, pasmem, desde a década de 80. Logo depois de Days of Heaven, ele começou a escrever um roteiro, chamado à época de Q, que tinha como objetivo mostrar as origens da vida na Terra. Esse trabalho foi aproveitado em A Árvore da Vida naquela parte que vai do Big Bang até os Dinossauros e que é o que boa parte das pessoas consegue apreender do filme todo (até porque são os únicos fatos mostrados em certa ordem).
Malick dirigiu apenas 8 filmes em toda a sua carreira, que teve um hiato de 20 anos, mas suas obras possuem algumas características peculiares, que estão presentes no seu mais recente filme. A presença ostensiva da natureza, o predomínio da narração em off, são aspectos presentes não só em Árvore da Vida, mas também em Além da Linha Vermelha, que foi indicado a dois Oscar. A diferença entre essa obra e as outras sete é óbvia: Malick não quis, dessa vez, facilitar em nada as coisas para o espectador. É preciso colocar os neurônios para dançar enquanto se assiste ao filme.
As cenas são extremamente bem filmadas, lindas, mas, tenho que dar o braço a torcer, realmente lembram muitos descansos de tela do Windows. A música é sacra, por motivos óbvios: esta é uma obra que trata de fé, de Deus, e do questionamento que as dores da vida provocam nessa fé, dos muitos testes pelos quais sempre passam aqueles que acreditam numa vontade superior e tem de enfrentar a dureza que é a perda de um ente querido. As atuações não ocupam tempo suficiente do filme para que possamos julgá-las com justiça. Sean Penn interpreta um homem atormentado pelo seu passado e relembra detalhes da vida em família e da morte do irmão mais novo, aos 19 anos. O filme foca particularmente a relação do personagem dele com o de Brad Pitt, um típico pai da década de 50, autoritário, violento e, ao mesmo tempo, dedicado à família. O papel é clichê e já o vimos inúmeras vezes antes. Mas seria injusto dizer que Pitt não se esforça. O mesmo vale para Jessica Chastain. Agora, se esse esforço resulta ou não em algo memorável ou efetivo, aí já é outra coisa.
A obra é bem executada e, se há alguma categoria na qual teria a mínima chance para Oscar, seria em Fotografia. Mas acho que não deve ser indicado a nada. Não imagino os velhinhos gagás da Academia sequer se dando ao trabalho de assistí-lo. É uma obra construída em camadas, como uma cebola: para se chegar ao fundo é preciso passar por muitas outras cascas antes. Acredito que nem sequer Malick tenha, em sua cabeça, um significado fechado para o filme. Quem fica tentando buscar algo nesse sentido está perdendo tempo.
No final das contas, A Árvore da Vida agradou a maior parte dos críticos por ser desafiador, estruturado de uma forma que foge totalmente do tradicional. Mas também desagradou muitos daqueles dispostos a encará-lo como um longa dentro do universo do mainstream e inserido no contexto dos blockbusters. Aqueles que não tem muita paciência para empreender essa "viagem" também dificilmente terão uma experiência agradável assistindo. É para refletir, para sentir e, acima de tudo, para abrir a cabeça. Se ainda não viu, considere-se avisado.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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