Durante o Festival de Cannes desse ano, muitas pessoas que nunca sequer ouviram o nome de Lars Von Trier foram bombardeadas com inúmeras notícias de extremo sensacionalismo que colocavam o diretor como um fã de Hitler e do Nazismo. Claro que isso não é verdade. E a obra que estava participando do Festival, Melancolia, acabou sendo indiretamente castigada pelo escândalo. Apenas a atuação de Kirsten Dunst foi premiada. E o diretor, cujo trabalho sempre foi bastante apreciado pelos organizadores de Cannes, acabou sendo considerado uma persona non grata. Nada mais injusto. Afinal, ele sempre teve um "parafuso solto". E todo mundo sempre soube disso.
Von Trier é mais conhecido por seu histórico problemático do que por seus filmes. Novamente em Cannes, dessa vez em 2009, afirmou que era "o melhor diretor do mundo", após a exibição de uma de suas obras mais viscerais, Anticristo. Extremamente deprimido e questionador, usa os filmes que faz como uma espécie de terapia em grupo. Logo, nunca é demais avisar: se você quer entretenimento, diversão ou dar risadas, as obras dele não são as mais recomendáveis. A definição do autor para um bom filme é aquele que é como "uma pedra no sapato". Deu pra pegar o espírito?
Melancolia talvez seja um de seus filmes mais pessoais. A estrutura é a mesma de Anticristo, com uma diferença. Enquanto o filme de 2009 tinha um prólogo, dois atos e um epílogo, esse dispensa o ato final, colocando no prólogo muitas das ideias que estarão presentes ao longo do filme. Novamente o diretor coloca tudo em câmera lenta, criando uma sequência inicial esteticamente maravilhosa e intrigante. A junção das imagens com o prelúdio de Tristão e Isolda, de Wagner, torna tudo ainda mais bonito e torturante. Uma pequena obra-prima, que já faz a história começar bem menos difícil de entender para nós.
O restante do filme é dividido em duas partes, chamadas Justine (personagem de Kirsten Dunst) e Claire (personagem de Charlotte Gainsbourg). Em cada parte, o foco é sobre uma irmã e de que forma cada uma delas encara a possibilidade de um eminente fim do mundo. Justine acaba de se casar e tem de lidar com as próprias expectativas, do noivo (Alexander Skarsgård) e de seus convidados. Já Claire pensa na família, o marido e astrólogo John (Kiefer Sutherland) e o filho Leo (Cameron Spurr). Cada uma, a seu modo, não pode deixar de viver e, ao mesmo tempo, precisa lidar com o fenômeno astrológico provocado pela passagem do planeta Melancolia pela atmosfera da Terra.
A fotografia, de Manuel Alberto Claro, é lindíssima, e remete à melancolia do próprio filme. A única trilha sonora é o prelúdio de Tristão e Isolda, fora isso não há outros sons, a não ser aqueles captados no ambiente. O roteiro, escrito pelo próprio Von Trier, tem algumas frases perturbadoras, que sabemos serem seu criador falando, através de seus personagens. Um dos momentos em que isso fica evidenciado é quando Dunst diz que a vida humana é má e que se a raça humana desaparecer "ninguém sentirá falta". Quando Justine está em crise depressiva, também fica evidente que as próprias experiências do autor estão lá, como, por exemplo, na cena do banho. Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de ver alguém com depressão, mal conseguindo comer ou se levantar da cama. Fato é que é bastante provável, senão óbvio, que ele tenha usado muito de sua vivência como uma pessoa que já enfrentou esse tipo de problema. Não fica claro se a personagem é portadora de sofrimento mental. Algo que o diretor, propositalmente, deixou em aberto, como um convite à reflexão. Afinal, o comportamento dela acaba surpreendendo.
Da mesma forma que em Anticristo e em filme anteriores, Von Trier aposta na força das mulheres (que por sinal estão em atuações excelentes) para "ir até o fim", sendo que John, o personagem masculino da história, perde o controle da situação. Também recorrente é a perspectiva interessante que isso oferece, especialmente numa sociedade cujo ponto de vista é sempre tão masculinizado. Em Melancolia, isso é reforçado pelo fato de serem duas mulheres, uma delas em estado de histeria e outra considerada incapaz. Nesse sentido, é importante perceber que a obra discute também a questão dos "rótulos sociais" e como eles, no final das contas, acabam não valendo nada. "Fazer aquilo que os outros esperam de você não necessariamente te fará feliz", parece ser uma das mensagens.
Apocalíptico e, ao mesmo tempo, demasiado humano, Melancolia é um convite para quem quer pensar. Sobre a vida, sobre si mesmo, para se emocionar e até mesmo, porque não?, se chocar. Se o bom filme é aquele que te incomoda como uma pedra no sapato, o pedregulho de Von Trier é do tamanho de um planeta. O mistério está em como cada um lida com essa pedra que carrega diariamente. Seremos capazes de escapar aos nossos próprios apocalipses?

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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