J.J. Abrams é o diretor de Super 8. Mas acho que, antes de falar dele, é essencial, para falar do filme, que recapitulemos a carreira do produtor executivo da obra, Steven Spilberg. Porquê? Porque Spilberg é a grande mente por detrás do projeto. E Abrams já admitiu que a obra faz uma homenagem a dois grandes filmes dele.
Não é exagero dizer que Spilberg possui Know How em filmes cuja temática sejam os extraterrestres. Em 1964, com apenas 16 anos, realizou seu primeiro longa, Firelight, que se tratava de uma cidadezinha sendo invadida por alienígenas ameaçadores. Logo em seguida fez alguns curtas-metragens e trabalhou em séries de televisão, antes de retornar, em 1974, com Louca Escapada, um fracasso comercial. Mas logo em seguida veio Tubarão, que o lançaria ao estrelato internacional. E ele retomaria a temática alienígena com Contatos Imediatos de Terceiro Grau em 1977 (que trabalhava melhor a ideia de Firelight) e E.T. - O Extraterrestre em 1982, ambos sucessos estrondosos de crítica e bilheteria. Essas duas obras influenciaram toda uma geração de realizadores que tratariam do tema. Em 2005, Spilberg realizaria Guerra dos Mundos, que seria um grande sucesso comercial, mas daria um enfoque diferente a essa questão.
Não só alienígenas, mas o realizador também tratou de temas futurísticos e de ficção científica, como em Minority Report e A.I. - Inteligência Artificial. E não nos esqueçamos do seu trabalho profícuo como produtor, como na trilogia Homens de Preto e a série de TV da década de 90 Star Trek - A Nova Geração. Segundo o IMDb, são 129 trabalhos como produtor e 50 como diretor.
Já o jovem J.J. Abrams dirigiu apenas 11 produções, incluindo aí seis séries e um telefilme. Sem contar Cloverfield, que produziu. Seu primeiro longa foi Missão Impossível III, seguido de Star Trek. Parece inacreditável que Super 8 seja o seu terceiro filme. A forma como foi filmado, a qualidade do roteiro, os atores, tudo aponta para um trabalho feito a quatro mãos. Cuidadoso, bonito e delicado. E nem por isso menos emocionante ou intrigante.
Mas vamos ao filme. Estamos no final da década de 70. Joe é um adolescente (Joel Courtney) que tem de lidar com a dor de perder a mãe e aprender a conviver mais com o pai ausente. Ele tem um grupo de amigos, que decide passar o verão fazendo um filme em Super-8 para um festival. Esclarecendo para os mais jovens: Super-8 é um formato cinematográfico desenvolvido nos anos 1960 e lançado no mercado em 1965 pela Kodak, como um aperfeiçoamento do antigo formato 8 mm. É um tipo antigo de película. O que acaba acontecendo é que, durante uma filmagem, eles presenciam algo que não gostariam. E o mistério em torno do incidente é base para todos os estranhos fenômenos que se seguem.
Super 8 é uma obra extremamente saudosista. Para muitos adolescentes, causará um estranhamento ver pessoas falando em walkman como sendo a última revolução do momento e garotas lutando com os pais para serem autorizadas a usar shorts curtos em festas. Além disso, é um daqueles filmes, que infelizmente estão se tornando cada vez mais raros, que falam de amizade, de perdão, de valorizar a humanidade naquilo que ela tem de mais valioso: compreender o próximo e aceitar o diferente. Infelizmente vivemos numa época de inolerância, em que atiradores malucos andam pelas ruas ou entram em escolas assassinando pessoas e crianças inocentes pura e simplesmente por preconceito, seja ele étnico, religioso, racial ou de gênero. É a falta de diálogo, de paciência, de entendimento. Nunca os Direitos Humanos estiveram de forma tão evidente na pauta do dia. E quem achar que o filme não aborda isso estará sendo ingênuo ou desatento.
O posicionamento da câmera, bastante ágil e filmando de baixo para cima; o fato de serem crianças as protagonistas do filme; o relacionamento complicado de Joe com seu pai; todas essas são características marcantes de filmes de Spilberg. A referência mais imediata é, claro, E.T. Os efeitos visuais são sofisticados, bem utilizados, sempre a serviço da narrativa. Particularmente gostei muito do fato de não conseguirmos ver a criatura durante a maior parte do filme. E a ideia dos cubos foi, diga-se de passagem, genial.
Algumas coisas são interessantes de se reparar para compreender melhor o filme. Por exemplo, quando Joe diz a Alice (Elle Fanning) que sua mãe lhe olhava de um jeito que o fazia sentir que, de fato, existia. Notem que o pai dele, Jackson (Kyle Chandler), mal olha pro garoto durante boa parte do filme. Há aí uma importância no simples ato de olhar, que acaba se tornando extremamente simbólico, particularmente no desfecho. Da mesma forma, o colar que o protagonista carrega tem um destino extremamente nobre e pode ser compreendido, de certa forma, como aquele célebre e luminoso dedo que o E.T. estendeu para o pequeno Elliott há quase 30 anos. Só que dessa vez o que Abrams e Spilberg parecem dizer é que somos nós quem devemos estender os nossos dedos dessa vez.
Achei bacana também duas pequenas homenagens que o filme faz a dois grandes nomes da história do cinema. Uma ao diretor George Romero, cineasta responsável por clássicos filmes de zumbis como A Noite dos Mortos Vivos e Zombie - O Despertar dos Mortos, sendo citado no curta que os garotos fazem (a fábrica de produtos químicos se chama Romero e há um pôster de um filme dele na parede do quarto de Joe). A segunda é ao maquiador Dick Smith, que Joe cita ser a fonte de onde tirou a maquiagem de zumbi que faz em Alice. Dick é um verdadeiro 'Papa' da maquiagem, tendo sido responsável pelo visual de Dom Corleone em O Poderoso Chefão e pela marcante maquiagem da protagonista de O Exorcista.
A trilha sonora instrumental de Michael Giacchino é bastante impactante, "casando" bem com a maior parte das cenas, conseguindo ser leve quando preciso, mas sem deixar de nos pegar pelos estômagos nas horas decisivas, como na cena do acidente do trem e da captura do ônibus.
No geral, Super-8 é uma obra muito interessante e bonita, um clássico contemporâneo, que bebe nas melhores fontes para nos apresentar algo que temos visto pouco: um enredo simples e muito humano, com nuances com as quais nos identificamos facilmente, costurado numa aventura emocionante, com muitos e bem usados efeitos visuais. E sem ser em 3D! Bem que podíamos ver mais disso em outras produções esse ano. Mas, ao que tudo indica, é mais uma temporada recheada de super-heróis.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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