
Boa parte das pessoas aqui no Brasil nunca ouviu falar do iraniano Abbas Kiarostami. Com carreira sólida (mais de 40 títulos dirigidos), o cineasta já foi indicado três vezes à Palma de Ouro em Cannes por diferentes produções nos anos 90 e 2000, tendo vencido em 1997, com a obra Ta'm e guilass, sobre um homem que queria se suicidar e precisava de alguém para ajudá-lo. Sua obra mais recente, Cópia Fiel, conquistou, no ano passado, as mentes e corações de todos os que a assistiram na mostra competitiva de Cannes. Ainda assim, o filme ficou apenas com o prêmio de Melhor Atriz, para Juliette Binoche. Culpa de Apichatpong Weerasethakul, que surpreendeu a todos com seu peculiar Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas.
Ainda assim, o barulho que Cópia Fiel fez no festival foi suficiente para que muitos aqui ficassem curiosos. Porém só agora o filme estreia no Brasil, em algumas cidades. A distribuidora não foi muito generosa no número de cópias, mas pelo menos elas estão em 35mm. O enredo é daquele tipo que, quanto menos eu comentar, melhor. James Miller (William Shimell) é um escritor que vai até a Toscana, na Itália, lançar seu novo livro. Elle (Juliette Binoche) é dona de uma galeria de arte e uma fã, que vai até sua palestra para pedir alguns autógrafos. O encontro entre os dois resultará em algo bastante inesperado. Em termos gerais, a obra é muito interessante e divertida de assistir. Uma jornada que cada um deve fazer por si mesmo.
Marcante o estilo de Kiarostami, que abusa do som ambiente e dos diálogos inteligentes para construir a narrativa. É um excelente roteiro, mas que dá, inevitavelmente, um nó na cabeça em certo ponto, o que vai incomodar aqueles mais acostumados aos enredos lineares. Logo no início do filme, um momento interessante: vemos a plateia do lançamento do livro e, em certo ponto, é inevitável pensar que temos uma plateia (do cinema) olhando a outra (do filme), o que não deixa de causar um leve estranhamento.
Também logo no princípio, vale a pena prestar atenção na fala do protagonista, sobre a questão do original e da cópia, uma discussão que tem muito mais importância do que parece. Está longe de ser apenas um detalhe e será essencial para o entendimento do desenrolar da trama e para conseguirmos captar a mensagem que o cineasta quis passar com o filme. É essencial. E se você se atrasou e perdeu o começo, melhor trocar o ingresso pela sessão de outro dia ou perderá seu tempo.
Outro ponto do filme no qual é preciso prestar muitíssima atenção: quando Elle conversa com uma senhora num restaurante. O diálogo é sensacional. E também será decisivo para o destino dos personagens.
A questão da cópia e do original é colocada fisicamente no filme também, com uma simplicidade que, definitivamente, não deve ter sido simples de conceber. Muitas cenas tem espelhos, portas, acontecimentos interessantes se desenvolvendo simultaneamente em primeiro e segundo plano, e o uso da luz e sombra de forma a sempre reforçar a ideia de mistério e, especialmente, duplicidade. Reparem que bonita a passagem da paisagem no vidro do carro. A própria câmera funciona muito como um espelho ou como uma busca pelo olhar do outro, já que, em muitos momentos, tanto ele quanto ela olham para câmera e conversam com ela, quando na verdade estão dialogando um com o outro, mas o enquadramento de ambos é menos enfatizado.
Cópia Fiel é uma obra cuja experiência é tão individual que fica difícil dizer se o público brasileiro gostará ou não. O mais importante, no entanto, é que as pessoas saiam do cinema pensando, intrigadas. Há muitos passeios por locais lindos, muitas brigas em francês, inglês e italiano; vários diálogos que falam especialmente para aqueles que sabem o que é uma união mais duradora, um amor inesquecível, uma frustração amorosa. De qualquer forma, é o tipo de obra que, para o bem ou para o mal, é impossível de nos deixar indiferentes a ela. Algo cada vez mais raro nos filmes contemporâneos que tem sido lançados.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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