
À convite do consultor da Varilux Rodrigo Tecchio fui na sessão de encerramento do Festival Varilux de Cinema, que teve Potiche - Esposa Troféu como último filme exibido em Belo Horizonte. O filme será tema desta crítica, mas, não falemos dele ainda. Ao final da sessão, encontrei algumas amigas, dentre elas Renata, que parecia revoltada. Não demorei a descobrir o porquê: Potiche é um filme de temática feminista, mas dirigido por François Ozon. E ela, não sem razão, dizia mais ou menos assim: "Ele deveria ter colocado uma roteirista e uma diretora para executar essa ideia. Porque ele dá visibilidade a uma luta que não é dele? Deveria ter dado o filme para uma mulher dirigir. Devolve essa luta, porque essa luta é nossa"! Para que vocês possam entender ao que ela se refere, vou falar sobre o filme.
Potiche é uma produção francesa-belga inspirada em peça teatral de mesmo nome de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy. Ozon assistiu a peça uns dez anos antes de fazer o filme. A princípio o que ele queria era fazer uma biografia a respeito de Nicolas Sarkozy e as eleições francesas de 2007. Mas optou por, no roteiro, fazer uma conexão entre as duas histórias, com o devido distanciamento do humor e do fato da história se passar na década de 70 lhe dando mais liberdade. Na peça, o enredo se encerra quando o marido retorna à fábrica, algo que vemos ocorrer mais ou menos no meio do filme. Tudo a partir daí foi adicionado por Ozon e este foi autorizado por Barillet a fazer as mudanças.
É um longa que produz discussões muito interessantes. Ao longo da projeção, percebemos que os estereótipos apresentados pelos personagens não são tão simples quanto pensávamos. Há um aprofundamento e importantes mudanças de caráter em praticamente todos. A trajetória da protagonista não deixa ninguém incólume: todos terminam em pontos bem diferentes de quando começaram. E, sim, é um filme bastante feminista e pesa bastante nessa direção, bem intencionalmente.
Potiche conta a história de Suzanne Pujol, interpretada magnificamente por Catherine Deneuve, que resplandece na tela. Suzanne é a típica esposa burguesa da década de 70, que aguenta o mau humor e traições do marido apenas para manter a família unida e o conforto proporcionado pela vida doméstica. Seu marido, Robert Pujol (Fabrice Luchini, também excelente) é o típico marido machista da década de 70, que acredita que lugar de mulher é em casa, sem dar opiniões, apenas existindo para cuidar dele e lhe dar prazer. Em certo ponto da narrativa, ele a chama de esposa-troféu (é como se traduz a expressão francesa potiche) e ela sequer se importa. A medida que vamos nos aprofundando na história, no entanto, muitas peças passam a se encaixar.
É um filme leve, divertido e bastante musical, mas nem por isso propõe questões menos sérias. Na minha percepção, uma das sequências mais estarrecedoras (e bastante verdadeira, infelizmente) é quando Babin (interpretado por Gérard Depardieu) leva Suzanne a uma estrada deserta e descobre algumas verdades sobre a personagem, julgando-a impiedosamente por seus atos passados, numa das mais escrachadas e óbvias reações machistas que eu já vi de um personagem na tela. E o pior: tenta induzir o público a fazer o mesmo! Esse é um teste bem interessante, na verdade. Perguntar aos homens, logo depois do filme ter acabado, o que acharam particularmente dessa parte do filme. Algo me diz que as respostas não vão variar muito.
De certa forma, para as mulheres, Potiche é um pouco deprimente, porque se passa na década de 70, mas ainda hoje muitas daquelas situações mostradas se reproduzem. Não tem nada ali estranho ou totalmente em desuso no que concerne comportamento masculino. Muitos homens ainda são neandertais no nível de Pujol. E muitas mulheres ainda acreditam serem obrigadas a lidar ou aguentar o que a protagonista aguenta. A reflexão maior que fica é (e acho que Ozon tenha colocado isso intencionalmente): porque nossa sociedade ainda não evoluiu como gostaríamos? Porque mulheres violentadas e estupradas ainda são vistas como culpadas por crimes que foram cometidos contra elas? Porque ainda não somos vistas com respeito e igualdade? Porque ainda há tantas mulheres machistas por aí, disseminando o ódio e a desigualdade?
Voltando agora ao que a Renata disse, acredito que ela tenha razão, mas em parte. Não é a primeira vez que Ozon usa a questão feminina e o humor para tentar estabelecer um ponto de vista. Mas ele é homem. E está falando como uma testemunha de fora. Ainda assim, vejo como positivo um homem fazer um filme feminista. Porque essa causa precisa ser de todos. Igualdade é bom para as mulheres, mas é bom para os homens da mesma forma. E eles precisam enxergar isso. Respeitar as mulheres. Entender que temos as mesmas capacidades que eles. Abrir a mente. E sou uma otimista. Acredito que esse filme pode ser uma produção que caminha nessa direção.
Por outro lado, o mundo da sétima arte é incrivelmente machista e o é fato que se não fosse Ozon, cineasta francês de renome, a estar a frente do projeto, o filme jamais seria feito. Se fosse uma mulher, independente, a querer que as distribuidoras bancassem essa ideia, ninguém lhe daria ouvidos. Apenas em 2010 tivemos o primeiro Oscar para uma diretora e lembremos o contexto: muitos a "aceitaram" no exclusivo círculo de Hollywood apenas porque ela era ex-mulher de James Cameron. O que é um absurdo. Mas essa é a grande indústria do Cinema. Pensando bem, quais outras grandes diretoras você conhece? E além da Ana Maria Bahiana, quais outras jornalistas críticas de cinema você conhece? Tod@s nós lidamos com o machismo todos os dias, em maior ou menor grau. E o que estamos fazendo a respeito disso é o que importa. O que você, leitor, leitora, fez para combater o preoconceito, a discriminação, o machismo e a misoginia hoje? Pense nisso.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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