
Woody Allen é, realmente, uma caixinha de surpresas. Com 76 anos, não dá sinais de que vai se aposentar tão cedo e seu mais recente trabalho, Meia Noite em Paris, justifica para nós o porquê. É um amante da Sétima Arte que percebe no Cinema um eficiente veículo para contar suas histórias. Com quase 50 trabalhos no currículo, não demonstra, de forma alguma, que a fonte esteja se esgotando. Pelo contrário, parece ser um dos poucos representantes do Cinema de Autor que ainda restam no mercado norte-americano.
Meia Noite em Paris é, já adianto a vocês, um candidato dos bons ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2012. Num ano que parece que vai ser tão fraco quanto o anterior, este filme é uma "luz no fim do túnel", com cenas muito bonitas, sequências geniais, diálogos inteligentes e engraçados e personagens que vão deixar a garotada usando o Google igual louca. É um filme atemporal, uma pequena pérola num oceano de mediocridade. E, pasmem, tem o ator Owen Wilson. Digo isso porque esse é um dos atores que eu mais detesto. De fato, esse foi o primeiro filme do qual ele foi protagonista e gostei.
Mas é fácil entender o porquê. Quem conhece bem o trabalho de Woody sabe que ele está na maior parte de seus filmes, seja de corpo presente, interpretando algum personagem, ou representado por algum outro ator, que é o que Owen Wilson faz nesse caso. Os trabalhos nos quais ele coloca alguma coisa de sua vida pessoal, suas opiniões ou alguma de suas facetas são os melhores. E fica bem evidente que muitas das falas de Owen no filme, são, na verdade, a velha ironia de um dos judeus mais famosos que Nova York já colocou no mundo.
Mas vamos a Meia Noite em Paris. O filme começa com variadas tomadas de Paris, seus pontos turísticos mais bonitos, imagens da cidade-luz de dia e de noite. Depois de pelo menos cinco minutos só mostrando a cidade, conhecemos Gil (Owen Wilson) e Inez (Rachel McAdams, chata demais), o casal protagonista, que está às vésperas de se casar e aproveita uma viagem de negócios do pai da noiva John (Kurt Fuller) para conhecer a cidade. Os dois divergem nos mínimos detalhes: enquanto ele é um roteirista hollywoodiano que quer desistir da vida de dinheiro fácil e glamour, ela é uma jovem mimada, que só quer saber de jóias e de aproveitar Paris para dançar e beber.
Enquanto ele caminha sozinho pelas ruas da cidade, numa noite na qual bebeu razoavelmente, se vê repentinamente na presença de grandes ídolos da Literatura mundial e é presenteado com a oportunidade de trocar ideias com eles a respeito do livro que está escrevendo. Tem encontros deliciosamente inusitados com grandes figuras que moraram ou passaram por Paris nos anos 20: Scott Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein e ainda Picasso, Cole Porter (este é um artista que Woody adora), Salvador Dalí, Buñuel e May Ray. Entre outros.
Wilson tem diálogos que são memoráveis. Quando ele diz, durante uma discussão, que "roteiros são mais fáceis" (de escrever), é impossível não rir. É a crítica de Woody à atual crise de Hollywood, de uma forma nada velada. Em outro momento do filme, a sogra do personagem dele diz: "Assisti a uma dessas comédias bem ruins, mas não conseguia parar de rir". Nova alfinetada no mainstream. Só porque é engraçado, tem bilheteria e faz as pessoas rirem não significa que tenha qualidade. E nem que seja de bom gosto.
Destaque para algumas cenas extremamente bem boladas, como quando ele vai numa exposição e deixa o pedante Paul (Michael Sheen) e suas duas acompanhantes boquiabertos com o seu "conhecimento" em arte. Quando ele conhece Adriana (Marion Cotillard) e Dalí (Adrien Brody) também são dois momentos inesquecíveis, de piadas extremamente bem boladas. E, devo dizer, os escritores foram extremamente bem caracterizados. Brody interpretou Dalí de uma forma tão debochada e, ao mesmo tempo, tão realista, que deve ter deixado até os tataranetos do artista de cabelo em pé. E quando Wilson dá a Buñuel uma "sugestão" de filme (faz referência a O Anjo Exterminador) é de rolar de rir a reação do cineasta. Principalmente para aqueles que conhecem esse filme. O "destino" do "detetive" também é hilário.
A famosa loja de jóias cuja vitrine aparece no início de Bonequinha de Luxo é mostrada de relance em Meia Noite em Paris, reparem. Seria uma pista para o desenvolvimento da personagem ou algum tipo de julgamento que o diretor faz? Independente de qualquer coisa, é uma cena pequena, mas bem interessante, quase uma pequena homenagem ao clássico.
Woody confia na inteligência do espectador para que ele saque, sem maiores explicações, a viagem no tempo do protagonista. Ele joga para nós e para o personagem todas as peças do quebra-cabeça e é fascinante como o público e ele o montam junto. Vamos raciocinando junto com Gil o tempo todo e chegamos às mesmas conclusões. É uma imagem emocionante e extremamente recompensadora quando se chega ao seu final. Numa entrevista dada à Reuters, Woody fez algumas colocações que dizem muito sobre o filme.
A trilha sonora é, como Woody faz praticamente desde sempre, uma musiquinha constante, que toca independentemente da cena ou da situação, como se fosse aquela trilha instrumental constante de consultório de dentista. Chato, mas nesse filme não chega a atrapalhar como acontece, por exemplo, em Vicky Cristina Barcelona.
Nostalgia é um sentimento muito humano e em Meia Noite em Paris Woody Allen soube explorar isso como ninguém. O filme é uma viagem através dos tempos, mas não deixa de ser a proposta para uma viagem maior, dentro de nós mesmos, de nossas lembranças e sonhos mais malucos. Afinal, quem nunca quis viver em outra época e conhecer os seus ídolos?

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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