Os Agentes do Destino é trabalho de estreia na direção do até então roteirista George Nolfi. Ele é mais conhecido pelos roteiros de Doze Homens e Outro Segredo e O Últimato Bourne, nos quais já havia trabalhado com Matt Damon. Não surpreende, então, que Damon seja o protagonista desse filme e que nele faça tantas coisas que nos relembram, principalmente, do último e mais movimentado dos três Bourne. A diferença está, basicamente, no desenvolvimento da história e, de certa forma, no desfecho.
Como consta do IMDb, o roteiro é uma adaptação de um conto de Philip K. Dick, mas, numa rápida pesquisa, descobri que não poderia haver distância maior entre o conto original e o roteiro desse filme. A história é a de um político proeminente e jovem, o candidato a Senador David Norris (Damon), que conhece, num belo dia, Elise (Emily Blunt) e fica simplesmente fascinado por ela. Aí é que entra o conto de Dick: não seria o destino dos dois jovens ficar juntos e, para impedir que isso aconteça, entram em ação os agentes do destino, que, segundo o filme, controlam tudo e todos, para que sigam "o que está escrito no livro". O "presidente" seria aquele quem escreve o livro e a vontade "dele" deve ser respeitada acima de todas as coisas. Soa familiar?
Então, se o conto de Dick tem um embasamento mais de ficção científica, o filme descamba, inevitável e sofrivelmente, para o lado sentimental/religioso. Mas esse nem é o principal problema da obra. Nolfi consegue aproveitar bem o que tem nas mãos e podemos dizer que, dos 106 minutos, pelo menos em 90 o enredo nos prende, o argumento é interessante e bem explorado. Mas aí, o que acontece? Algo que, infelizmente, rola em 99% dos filmes que passam tempo demais trabalhando no desenvolvimento da história: chega no final e tudo precisa se resolvido de repente! E não dá tempo de solucionar, em 20 minutos, algo que se desfiou, como um novelo de lã, em uma hora e meia! E então, como que faz? Simples! Se resolve tudo mal e porcamente! E o filme, que tinha um enorme potencial, vira uma... merda. Não tem jeito. É humanamente impossível que fique bom. Se o tempo é mal dividido, fica, realmente, muito complicado.
O desfecho é bastante aceitável e palatável do ponto de vista do público, mas, para aqueles um pouco mais críticos, não cola. Não convence. Há uma série de furos no enredo, que felizmente passam despercebidos aos mais empolgados. A história comete o erro de deixar as coisas chegarem num ponto em que não há outra saída a não ser desconstruir tudo de uma vez só, quase como se fosse uma paulada na cabeça ou um chute num castelo de peças de dominó que não deixa uma única de pé. E isso é muito triste. Porque a história tinha um potencial enorme para ser muito mais.
Damon passa uma parte considerável do filme correndo da mesma forma que em Ultimato, não por mera coincidência, claro. Já Blunt começa a atuação dela de uma forma bem simples e leve e à medida que o enredo vai se desenvolvendo e virando o drama que vira, tem de ficar mais séria e a personagem perde um pouco da graça. De qualquer forma, o desempenho dos dois é bastante bom.
No geral, Os Agentes do Destino é um bom filme, bastante divertido e emocionante, principalmente para aqueles dispostos a se desligar de tudo e em busca apenas de entretenimento. A "lição de moral" que tenta passar é muito furada, há alguns deslizes sérios, mas pequenos, na história e, por fim, o final deve ser desconsiderado. Foi azar de principiante, quero crer. E acredito num futuro trabalho de Nolfi que seja mais bem acabado. Potencial para isso ele já mostrou que tem.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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