John Cameron Mitchell tem creditados 27 trabalhos como ator de TV e Cinema enquanto que como diretor são apenas quatro, dentre eles Reencontrando a Felicidade, longa cuja atuação de Nicole Kidman lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz esse ano. Antes desse filme, tinha feito apenas Hedwig - Rock, Amor e Traição e Shortbus, dois trabalhos pouco expressivos. É de espantar então que tenha conseguido captar com tanta sensibilidade o espírito da peça de David Lindsay-Abaire, vencedora na categoria Drama do Prêmio Pulitzer além de ter ganho inúmeros Prêmios Tony. O fato do roteiro pro filme também ter sido pelo escrito pelo autor da peça com certeza foi a chave do sucesso da adaptação e não encontro outra explicação pro filme ter sido tão bem sucedido.
O trabalho foi considerado o grande retorno de Kidman aos bons papéis visto que desde o início dos anos 2000 passou a fazer apenas filmes medianos e/ou fracassos de bilheteria. Isso coincidiu com o fim de seu casamento com o ator Tom Cruise e com as duras críticas que sofreu por causa da perda de sua expressividade, consequência das inúmeras aplicações do botox, que, infelizmente, ainda deixaram vestígios. No filme, ela é Becca, uma mãe que sofre para superar a perda do filho. A dor é compartilhada com o marido, Howie, bem interpretado por Aaron Eckhart. Como quase toda obra saída do Teatro para o Cinema, são muitos e bem elaborados os diálogos, normalmente em locações, com pouca ação mais "física" ou visual. É um filme mais falado. E nisso residem suas qualidades e fraquezas.
Raros são os filmes que nos mostram o dia a dia depois de um trauma. Para quem tem a sensibilidade para "entrar" na história, é uma obra sensacional, super sensível, incomum mesmo. Mas se você não se sente tocado pelo drama da protagonista, vai achar um saco o falatório e as lágrimas sem fim. Nos dois casos, não é um filme fácil de digerir. Muito triste, melancólico, comovente. É uma obra que retrata perfeitamente a dor constante que é a perda de um filho. Nesse sentido, merecem destaque duas cenas em particular: a discussão do "anjo" na terapia em grupo e a conversa do "tijolo" entre a protagonista e sua mãe, no porão. São dois momentos de dor particularmente aguda. Sobre a do supermercado, então, nem falo. O botox ainda prejudica um pouco Nicole, mas não muito. Uma cena marcante dela, que com certeza contribuiu para sua indicação, é quando chora no carro, no dia da formatura de Jason. As conversas da personagem com o rapaz também são muito inteligentemente construídas, de forma a irmos ficando inteirados, aos poucos, de tudo o que aconteceu.
No geral, Reencontrando a Felicidade é um bom filme, mas que não funciona com todo mundo. É eficiente principalmente com aqueles dispostos a compartilhar com a protagonista a dor dela, um fardo pouco atraente de se carregar mas que, ao final da jornada, nos traz uma mensagem muito bonita, de que vale a pena seguir em frente, apesar de tudo.
Reencontrando a Felicidade
Dirigido por John Cameron Mitchell (1h 31min)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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