Um grupo restrito de pessoas já haviam ouvido falar de Apichatpong Weerasethakul antes dele ganhar a Palma de Ouro em Cannes no ano passado. Todas elas ligadas de alguma forma ao festival. Digo isso sabendo que ele participou da Bienal de São Paulo em 2010, com o curta Fantasmas de Nabua. Mas não acho que isso tenha feito alguma diferença.
Digo isso sabendo também que ele não é nenhum iniciante. Ao todo, incluindo vários curtas-metragens, o cineasta tailandês tem em seu currículo 20 produções. Todas feitas de forma independente. Além disso, sua trajetória dentro do festival francês é invejável: foi premiado na mostra Un Certain Regard em 2002; vencedor do prêmio do juri em 2004 e em 2010 finalmente agraciado com o prêmio máximo. Apesar de tudo, comercialmente falando, apenas agora as portas começam a se abrir para ele. Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas é o seu primeiro filme a estrear em cinemas brasileiros. E o primeiro a concorrer a uma vaga para a seletiva de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011. Infelizmente não chegou nem a ficar entre os 9 escolhidos pras prévias.
Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas é o primeiro longa do diretor a basear-se num livro, A Man Who Can Recall His Past Lives. O livro foi escrito na década de 80 por um monge budista, Phra Sripariyattiweti, que morava em Bangkok, cidade natal do diretor. Na obra, ele relata a história de Boonmee, um homem que disse a ele que se recordava de suas vidas passadas durante a meditação. De posse do livro, o diretor decidiu fazer uma livre adaptação, mas na época o real Boonmee já havia morrido. A história se desdobrou no curta Uma Carta para Tio Boonmee e no longa-metragem.
Escrevendo o roteiro, Apichatpong também usou situações de sua vida pessoal, como costuma fazer em boa parte de suas produções. Além disso, mesclou elementos do projeto Kick The Machine, do qual é um dos fundadores e que consiste no incentivo à produção de filmes experimentais na Tailândia. Esses elementos ficam óbvios numa sequência de fotos que aparece quase no final do filme, que mostra um pouco a respeito do trabalho dessa companhia. Complicado é que quem não sabe disso fica meio que "boiando" a respeito do que consistem as tais fotografias. No final das contas, é preciso estar alerta: é um filme que exige que se tenha a mente aberta a experiências diferentes; que tem elementos culturais tailandeses fortíssimos e que não são tão acessíveis a nós do Ocidente; dificilmente será de fácil "digestão" a aqueles acostumados a ver o Cinema sob a perspectiva do entretenimento. É uma obra sobre a morte e sobre reencarnações, em última instância de que forma estas são encaradas dentro do Budismo.
Mas vamos ao enredo! Boonmee (Thanapat Saisaymar) sofre de insuficiência renal e sua morte é dada como certa. Ele decide deixar o hospital e viver seus últimos dias em meio à natureza, no seu sítio. É visitado pela cunhada Jen (Jenjira Pongpas) e o sobrinho Tong (Sakda Kaewbuadee), que lhe levam comida e algum conforto proveniente da companhia. Ele não para com o tratamento da doença, mas sente que sua hora está chegando. Interessante ressaltar que, em entrevista, o próprio cineasta admite que "mais uma vez, meu pai participa de um filme meu. Ele sucumbiu à insuficiência renal. Todos aqueles equipamentos no quarto de Boonmee são uma simulação dos que haviam no do meu pai".
Outra observação a ser feita é que Boonmee e Huay são atores amadores. O protagonista é soldador de telhado enquanto a esposa dele no filme é cantora na vida real. Algo totalmente intencional, claro, que o próprio cineasta justifica: "Para mim, Boonmee é anônimo. Então eu não podia usar atores profissionais, que já tem tantas identidades públicas". O resultado é muito 'orgânico', podemos dizer assim. Sua estrutura lembra um relato quase biográfico, não parece ficção, lembra o registro de fatos reais. A ação dos personagens é natural, tem rotina, cotidiano. É quase um registro do dia-a-dia daquelas vidas. Apenas em alguns momentos-chave da produção somos lembrados que estamos assistindo a uma obra de ficção.
Seguindo esse mesmo raciocínio, a iluminação é o mais próximo possível do natural, nem por isso menos bonita. Há momentos de genuína escuridão. Os ângulos são abertos. Não há closes nem uso de duas câmeras durante diálogos. Apenas uma registra tudo de longe, parada. Os atores são enquadrados no máximo da cintura pra cima, dificilmente em planos fechados. O som é o ambiente, com rara música instrumental, em volume quase imperceptível.
Apenas na caminhada e na caverna, a câmera segue ao protagonista e sua comitiva de perto. A câmera na mão treme. O que se ouve é unicamente o silêncio do som ambiente. A escuridão é assustadora. Extremamente cinematográfico mas, ao mesmo tempo, feito com grande naturalidade. O mesmo se pode dizer das cenas do jantar e da princesa, cujos conteúdos são surreais mas executados como se não houvesse ali acontecendo nada de mais. Muito bizarro, mas tão incomum que é impossível não achar interessante. Apichatpong tem um jeito só dele de contar suas histórias e se há algo realmente raro hoje em dia é isso.
Não há um final propriamente dito, é como se a câmera simplesmente tivesse sido desligada, deixando-nos com perguntas que o diretor não tem a mínima preocupação em esclarecer, pois provavelmente ele mesmo não tem as respostas. Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas é uma obra simples em sua complexidade, um filme em aberto, passível às interpretações que o público lhe quiser atribuir. Numa época em que o Cinema vivencia tantos problemas estruturais e culturais está ficando cada vez mais raro um cineasta ter a liberdade para realizar um trabalho assim.
Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas
Dirigido por Apichatpong Weerasethakul (1h 54min)
Assista ao filme em BH dentro da mostra Inéditos em BH

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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