
Não vejo muito mais a acrescentar a respeito de Thor depois do maior critico de cinema do mundo, Roger Ebert, ter colocado seu ponto de vista em dois textos brilhantes. No primeiro, ele fala o que achou do filme, e no segundo refuta com elegância as acusações de leitores de que não teria visto o filme (sim, um cara como ele, com mais de 40 anos de carreira como crítico, ainda é obrigado a lidar com gente ignorante). São duas impressionantes marretadas sobre Thor, sem trocadilhos. Recomendo demais a leitura, já que ler Ebert é sempre uma aula. O segundo texto tem spoilers.
Vou ponturar algumas coisas que considero interessantes e sobre as quais ele não falou, porque também não são tão importantes assim. São detalhes. O texto abaixo contém spoilers, estejam avisados.
Os efeitos especiais do filme são incrivelmente medíocres em comparação com toda a propaganda que foi feita. Assistí-lo em 2D, sem deixar o 3D te ludibriar, é a melhor forma de perceber isso. A artificialidade do castelo de Asgard me deixou boquiaberta. A primeira vez que o vi, sem brincadeira nenhuma, me remeteu ao castelo de esmeraldas de O Mágico de Oz, filme que é de 1939, lembremos. Estamos em 2011 e aparentemente a equipe de efeitos visuais do filme não avançou muita coisa no estudo do tão falado CGI. Me desculpem, mas chega a ser ridículo.
Os Gigantes de Gelo me lembraram os zumbis computadorizados de "Eu Sou a Lenda" e, obviamente, o Gollum e os Orcs de "Senhor dos Anéis", talvez o filme ao qual Thor mais faça referências, especialmente no que diz respeito à trilha sonora de Patrick Doyle, indicado a dois Oscar por Razão e Sensibilidade e Hamlet e já tendo trabalhado com o diretor Kenneth Branagh tamém em Muito Barulho por Nada e Frankenstein, de Mary Shelley. É uma das trilhas mais chatas e sem personalidade que eu já escutei. Isso porque ela toda te lembra alguma coisa que você já tenha escutado antes. Thor e os amigos cavalgam e é o "pananam" de batalha. Aí eles lutam e é o "pananam" de guerra. O casal protagonista se ama e é o "pananam" de amor. Muitíssimo chato e previsível. Eu fechava o olho e via os hobbits andando tudo aquilo de novo. Haja saco.
Anthony Hopkins não convence como Odin de jeito nenhum, levando-se em consideração que não tem nenhuma pinta de deus guerreiro. Sobre Chris Hemsworth nem falo, porque, convenhamos, o papel de Thor nem exige tanto assim de um ator, né? Que que ele faz no filme? Come, exibe músculos, fala umas frases de impacto, urra e age como um brutamontes. Perfeito! É isso mesmo que o personagem pede dele! Natalie Portman nem lembra a atriz que acabou de ganhar um Oscar, numa interpretação muito sem sal e personalidade. O papel não era para ela então foi mais um erro de casting que qualquer coisa. A personagem dela, a cientista Jane Foster, pedia alguém com perfil mais nerd. Ela e Hemsworth formam um casal palatável e só.
Ao contrário de Ebert gostei de Tom Hiddleston (britânico, trabalhou em TV) e sua interpretação de Lóki, mas o que o roteiro faz com o personagem é tão absurdo que me deu vontade de levantar e ir embora do cinema. Fiquei pasma! Não faz sentido nenhum o desenrolar da trama dele. Quer dizer que ele é um gigante de gelo (baixinho, coitado), que decide matar o pai adotivo primeiro e depois, do nada, se volta contra a raça que descobriu ser sua e decide destruir o planeta que descobriu ser sua terra natal? Tipo, que? Ele não odiou Odin por ter mentido? Aí depois, para ter o amor desse mesmo pai que ele passou metade do filme odiando, ele vai e destrói o planeta de onde veio para conseguir o amor dele? Não colou. Tenho certeza que no quadrinho isso é diferente, porque, né? Ele não deveria querer conhecer melhor as origens e o país que deixou para trás? Isso não seria natural? Se alguém conseguir me explicar, fico feliz.
Outra coisa: não riam, mas senti muita simpatia pelos gigantes de gelo. Sério. Torci pra eles boa parte do filme, mesmo sabendo ser inútil. Porque? Te digo o porquê. Então um cara vai no seu planeta, mata todo mundo, rouba a força vital do seu povo, tranca tudo no palácio dele e quer ser amado? Quer falar que "mantém a paz"? Isso não lembra, sei lá, a colonização espanhola? Os índios dizimados na América do Norte? Hitler? Pode parecer exagero, mas Mussolini era chamado de Dulce! Quando o Rei Gigante chama Odin de "pai dos homens", foi essa a primeira coisa que me veio à cabeça. Não, esse Odin não é nada justo nem bacana. É só mais um ditador. Que, aparentemente, pode sê-lo graças a poderes divinos. Conveniente, não? Já ouviu isso antes?
O roteiro é muito preguiçoso e sem criatividade, com direito a martelo-excalibur (tem até os cavaleiros da Távola, repararam?), diálogos toscos e conversão em 3D vagabunda tentando disfarçar todos os demais defeitos. No geral é um filme divertido, mas muito retardado e a cena que aparece depois dos créditos finais não tem nada de mais, perda de tempo. Thor é um filme para adolescentes, não pode e nem deve ser levado a sério, e aos fãs dos quadrinhos só resta duas opções: sentar e chorar ou se conformar com o fato de que Hollywood vai adaptar, e mal, tudo quanto é gibi, em busca de uns trocados a mais. Me admira ainda não terem proposto um filme da Turma da Mônica.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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