Se tem um cara do qual o Cinema Nacional pode se orgulhar, esse é Carlos Saldanha, um dos nossos diretores mais promissores em Hollywood. Carioca, em 2002 enfrentou o desafio de co-dirigir um dos maiores sucessos da Fox na década passada: o primeiro A Era do Gelo. Logo em seguida, em 2004, chamou a atenção do mundo todo com uma indicação ao Oscar pela direção do curta-metragem Gone Nutty, de apenas 5 minutos. Não ganhou, mas impressionou o suficiente a distribuidora para voltar a co-dirigir, dessa vez Robôs, em 2005 e, finalmente, assumir sozinho o comando dos outros dois filmes da trilogia, em 2006 e 2009. Agora, com o sucesso de Rio, está dando um passo à frente na sua carreira. Devem vir algumas indicações ao Oscar 2012 por aí, o que com certeza lhe dará mais liberdade para projetos futuros. O que não deixa de ser excelente também para nós, brasileiros.
Sim, nosso país está na moda. Ante a eminência da realização da Copa do Mundo aqui e, dois anos depois, as Olímpiadas, os olhos do mundo se voltam para nós. É hora de arrumar a casa. Fazer propaganda "positiva". Motivar os "gringos" a nos verem com bons olhos e a virem conferir nossas belezas naturais. É hora de colocar a grande máquina turística pra girar. E se o Governo está aqui quebrando a cabeça com mil e uma ideias de campanha que possam funcionar, o Saldanha fez a parte dele nesse esforço, de uma forma espetacular. Rio é, acima de tudo, um filme lindo. Seja em 3D ou não, todas as nossas cores estão lá, com uma óbvia, e para alguns um pouco irritante, predominância do verde e amarelo. Nossa fauna e flora estão incrivelmente valorizadas, em todas as suas espécies. E assistindo o filme temos a oportunidade de conhecer, ou rever, a cidade inteira, desde o Cristo Redentor até as favelas, passando pelo bonde em Santa Tereza e seus ipês floridos. É um delicioso e musical passeio turístico. E deve ser assistido com essa perspectiva porque não foi outra a intenção do diretor. É uma obra pra "gringos". Prova disso é que eles estão adorando: depois de três semanas na liderança das bilheterias norte-americanas, apenas no último fim de semana o filme passou pro segundo lugar. E um detalhe interessante: Velozes e Furiosos 5 foi o filme que o ultrapassou e a história se passa onde? Rio de Janeiro! O interesse pela cidade está no ar e é preciso aproveitar.
Digo isso porque Rio tem um enredo no qual pululam os clichês e isso pode ser bastante irritante pra algumas pessoas. Mas como seria diferente? Como não mostrar o Samba? O Carnaval? A Bossa Nova? As pessoas na praia? Garota de Ipanema? O interessante é que a obra vai além e mostra também as favelas e o quanto elas são grandes e como vivem alguns de seus habitantes. Tudo com muita leveza, é claro, mas mostra, o que, convenhamos, precisa ser levado em consideração. Quantas de nossas novelas se passam no Rio e a impressão que temos é de que todo mundo lá vive no Leblon? Saldanha explora os clichês a favor do filme e não deixa de mostrar alguns preconceitos dos "gringos" também, uma perspectiva que ele deve ter tido várias vezes como um brasileiro entre norte-americanos. Quando Blu diz não gostar de samba porque "todas as músicas parecem iguais" parece um turista falando, não? Daqueles que não sabem sambar e morrem de inveja de quem sabe. Também considero uma crítica a um clichê "deles" o fato de que há "figurantes" no filme (porteiro, guarda, traficante, etc) todos feitos propositalmente com a mesma cara e biotipo gordinho simpático, com barba rala e bigodinho. É tipo quando eles dizem "é tudo igual, brasileiro, espanhol, argentino" e confundem Buenos Aires com nossa capital. Uma crítica tão bem feita e camuflada que a maior parte das pessoas nem percebe.
O enredo é bastante chato, na verdade. Blu (Jesse Eisenberg) é uma ararinha azul (não é uma arara azul porque as araras azuis são azuis e amarelas, o que não é o caso desta, como o desenho claramente mostra. Mas as duas aves pertencem à mesma família). Como na vida real, a espécie está ameaçada de extinção e deve ser preservada. Blu nasceu no Rio de Janeiro (na vida real, as ararinhas azuis são provenientes das região nordeste do país) e acabou indo parar nos Estados Unidos, devido ao tráfico. Túlio (Rodrigo Santoro), um ornitólogo brasileiro, convence a dona do pássaro, Linda (Leslie Mann), a levá-lo de volta ao Brasil para cruzar com Jewel (Anne Hathaway). E daí em diante temos verdadeiras pérolas toscas, que só a quem assistir legendado será dado acesso. De fato, são tantas piadas envolvendo o fato do filme ser em duas línguas que deve ter sido uma obra complicada de dublar.
Hathaway tentando falar um português mínimo e falhando miseravelmente é algo particularmente engraçado. E tosco. Traficantes que não falam português, mas sim um inglês fluente, também impressionam. E o garoto Fernando, que tem 8 anos e é órfão na favela do Rio e também fala a língua estrangeira maravilhosamente? É óbvio que ao fazer essas pontuações eu estou levando em consideração o contexto no qual os personagens são mostrados. Da mesma forma que Anne tinha de ter se esforçado mais ao falar português, afinal interpreta uma ararinha daqui, o garoto também devia estar falando apenas a sua língua nativa. E porquê os traficantes conversavam entre si apenas em inglês? Qual era a necessidade disso além, obviamente, do entendimento da plateia estrangeira? Para nós, brasileiros, fica pouco crível, porque conhecemos o nosso contexto. E o mais bizarro é que o encarregado do desfile, aquele que mais provavelmente teria um contato com estrangeiros e um inglês melhor, fala apenas português. Mas essas coisas são apenas detalhes. Que não passam despercebidos apenas pra nós, brasileiros. Que, reafirmo, não somos o público alvo desse filme. O que é bom, pelos motivos que já expus.
Jesse Eisenberg, depois de indicado ao Oscar por A Rede Social, parece condenado a interpretar nerds o resto da carreira. Nem mesmo como uma ararinha azul o rapaz consegue dar uma variada no esteriótipo. Já Anne Hathaway tem feito personagens um pouco mais diversificados e até consegue dar certa personalidade a Jewel, mesmo que acompanhada dos clichês quase obrigatórios desse tipo de trama. Mas o verdadeiro destaque do filme é, sem dúvida, Rodrigo Santoro, que dá um show num papel coadjuvante, mas bem importante, mostrando todo o seu talento numa interpretação comedida, porém interessante. Tá demorando pra protagonizar algum grande blockbuster! Até 2012 deve fazer pelo menos mais cinco filmes. Está trabalhando bem e, o mais importante, sendo valorizado. É mais um dos nossos sendo "exportado" para a grande indústria. E nos representando muito bem, diga-se de passagem.
Quanto à trilha sonora, de tudo do filme foi o que mais me irritou. Essa mistura de samba com rap numa clara tentativa de americanizar as nossas músicas é um saco (lembrando que o John Powell assina basicamente a trilha intrumental original enquanto o Sérgio Mendes é responsável por boa parte dos arranjos e adaptações, juntamente com Carlinhos Brown). No final do filme, eu já estava com vontade de dar um soco no Will i Am e no Jamie Foxx, apesar deles serem bons no que fazem. Mas eles mais cantam que interpretam! Haja paciência! É lógico que o que eles fazem no filme é totalmente condizente com a narrativa. Mas eu, particularmente, me irritei um bocado. Mas serão pelo menos duas indicações a Melhor Canção em 2012, escutem o que digo: "Let Me Take You to Rio", com certeza, e talvez também Real In Rio ou Hot Wings. De qualquer forma, acredito que essas canções compostas especialmente para o filme deverão figurar nas próximas indicações ao Oscar, tem tudo o que a Academia gosta. Agora, se vão ganhar, aí já é outra história.
No geral, Rio é um ótimo entretenimento para toda a família e acho quase obrigatório que todos os brasileiros o assistam. É a nossa mais recente e melhor representação no exterior. Temos de valorizar! E sem dúvida irá aumentar consideravelmente o turismo na cidade e no país. Obrigado por não se esquecer de sua terra natal, Saldanha. O Ministério do Turismo agradece. E, de quebra, os cinéfilos também.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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