
Assisti VIPs, cheguei em casa e twittei algumas coisas a respeito do filme. Qual não foi o meu espanto quando o diretor Toniko Melo começou a conversar comigo através da rede social, argumentando pontos a respeito da obra? Meu papo com ele foi bem interessante e pretendo voltar a isso no final da crítica. Mas, para preservar o meu direito de opinião, vou colocar aqui as minhas impressões iniciais sobre o filme, desconsiderando tudo o que ele me repassou.
Toniko Melo começou a carreira na produtora Olhar Eletrônico. Depois de dirigir videoclipes de artistas como Legião Urbana, Blitz e Caetano Veloso, passou a fazer filmes publicitários. Já recebeu prêmios importantes, alguns deles em premiações internacionais como o festival Ojo de America, em Buenos Aires, e o Festival de Cannes de Publicidade. Em 2008 dirigiu episódios da série Som & Fúria para a TV Globo. VIPs é seu primeiro longa e mesmo antes de entrar em circuito comercial já venceu quatro troféus no Festival do Rio de 2010, entre eles o de melhor filme do festival.
O filme conta a história de Marcelo Nascimento da Rocha, um golpista que ficou nacionalmente famoso por enganar uma série de celebridades e participar de um camarote vip no carnaval de 2001 em Recife alegando ser o filho do dono da Gol Linhas Aéreas, Henrique Constantino. O apresentador de TV Amaury Jr. (que por sinal faz uma participação especial no filme) chegou a entrevistá-lo e, apesar de não ter nenhuma semelhança física com o personagem real, Marcelo conseguiu enganar a todos.
A obra, que, vale lembrar, é ficcional, é livremente inspirada no livro VIPs - Histórias Reais de Um Mentiroso, escrito por Mariana Caltabiano. A autora também fez um documentário com o personagem real, que pode ser assistido gratuitamente aqui. No filme, o enfoque é direcionado para a história pessoal de Marcelo, sua infância, adolescência, envolvimento no tráfico de drogas, culminando no golpe do camarote. Seria fácil aqui fazer um paralelo com Prenda-me Se For Capaz, mas o filme estrelado por Di Caprio tem uma trajetória bem peculiar e um protagonista bem diferente, de modo que não irei fazê-lo.
A história começa mostrando o carnaval de Recife e volta seis anos antes, com um Wagner Moura adolescente que não convence muito a nós, público acostumado a vê-lo fazendo Hamlet e outros papéis do importantes. Ainda assim, é de embasbacar a versatilidade do ator durante todo o filme e o convite que Hollywood lhe fez recentemente para participar da produção Elysium, na qual contracenará com Matt Damon, não foi à toa. Que eu consegui contar foram cinco mudanças na aparência, acompanhadas de leves modificações comportamentais. Não é de hoje que falo que Moura tem chances substanciais de nos trazer um Oscar.
Sua habilidade camaleônica se sobressai de tal forma que fica claro que o Marcelo ao qual ele dá vida não existe: vira um outro personagem, apenas inspirado no golpista, mas com uma trajetória própria. E desde o princípio somos cativados por essa persona que ele cria, um rapaz fanático por aviação mas sem dinheiro para fazer aulas ou tirar a licença. A simpatia que sentimos por ele é tanta que chega a incomodar, afinal estamos lidando com um criminoso. Talvez aí esteja a única semelhança desta produção com o filme de Spilberg: ambos protagonistas são apaixonantes.
A obra tem momentos geniais, seja em alguns diálogos ou com relação à forma como algumas cenas foram registradas. Particulamente gostei bastante da cena em que Moura levanta voo (com certeza teve algumas aulas) e um carro filma de traz a cena, enquanto ela também é mostrada por uma câmera na asa e dentro da cabine. Pode parecer comum, mas não é. São todos os ângulos de um momento-chave pro personagem e isso é muito bonito. Outro momento que considerei de grande delicadeza e, ao mesmo tempo, tristeza, é quando, chegando ao desfecho, o ator escova os dentes em frente a um espelho e ouvimos uma trilha sonora super sugestiva, que indica no que tudo aquilo vivido por ele até então irá dar. É interessante porque é apenas um momento. E quantos de nós já não conversamos conosco mesmos frente a um espelho? Perturbador. E sobre a cena dele contando a história de si mesmo aos policiais federais nem comento. Simplesmente sensacional.
O único problema que percebi no filme, e isso antes de saber sobre a história de Marcelo na sua integralidade e antes de conversar com Toniko, é que aquilo que vemos o personagem fazer não justifica a realização de uma obra cinematográfica. Bem, imaginem quantos caras por aí participam do tráfico. E quantos invadem festas VIPs? O programa de humor Pânico até criou um personagem que é especialista nisso. E quantas pessoas não passam a vida inteira em busca da própria identidade sem nunca encontrarem? Todos que se encaixarem em uma ou mais dessas categorias são interessantes o suficiente para merecerem um filme? Aí chegamos à questão principal: não acho. E por mais que Moura seja sensacional e seu Marcelo seja encantador, a persona que ele cria não é, nem de longe, tão intrigante quanto o Marcelo Nascimento da Rocha de verdade, aquele que nos deixa boquiabertos enquanto vemos o documentário. De fato, um exercício extremamente interessante é assistir primeiro a ficção e depois o trabalho de Mariana Caltabiano. Os dois trabalhos se complementam de uma forma fantástica. E muitas peças passam a se encaixar.
Tentei, em vários bloquinhos de 140 caracteres, dizer isso ao Toniko, mas não sei se ele entendeu minha opinião ou se consegui me explicar bem. Acho que não. No site Salada de Cinema, uma das muitas entrevistas que deu sobre o filme, ele esclarece: “VIPs nasceu da vontade de contar a história de um farsante sob o olhar humano, diferente de como geralmente este tipo de personagem é retratado no cinema”. Ele prossegue: “na maioria das vezes os farsantes são interpretados de forma 'fanfarrônica'. Pesquisei muito esse tipo de perfil para não tratar o personagem de forma superficial”. Ele disse também: “apesar de dezenas de registros de fatos que realmente aconteceram com Marcelo, o filme não é uma biografia dele. VIPs (o filme) é na verdade a história de um rapaz em busca de sua identidade”. O link para o texto completo está aqui.
De qualquer forma, entramos em terrenos muito polêmicos ao ficar imaginando outras formas de transpor a história do personagem para as telas. Como evitar a apologia ao crime? Algumas pessoas poderiam se sentir incentivadas a serem golpistas como ele se houvesse uma "glamourização" da trajetória do protagonista. É uma questão que vai além de escolher qual dos dois Marcelos você prefere. De modo que, levando em consideração todas as informações que consegui (a conversa com o diretor, trechos do livro e o documentário), percebo que Toniko tomou a decisão mais acertada. VIPs é bem divertido. A trilha sonora é excelente. O elenco todo é ótimo. Resumindo, é muito melhor que boa parte dos outros filmes em cartaz.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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