Contracorrente é um filme que se destaca em meio ao monte de produções fúteis que estão sendo realizadas nos últimos dois anos. Não à toa arrebanhou o Prêmio da Audiência no Festival de Sundance em 2010 e, de quebra, foi o representante do Peru nas prévias do Oscar desse ano. Não ficou entre os cinco concorrentes finais, mas que tinha qualidade pra isso tinha.
O diretor peruano Javier Fuentes-León dirigiu apenas dois curtas-metragens antes dessa obra. Apesar da inexperiência, conseguiu montar um enredo bastante peculiar e interessante. Miguel (Cristian Mercado, ator que teve destaque em Che 2) é um pescador que vive numa vila isolada, marcada pela religiosidade e tradição. Casado com Mariela (Tatiana Astengo), espera o primeiro filho e fica dividido entre a família e o amor por Santiago, (Manolo Cardona) fotógrafo e pintor, com quem já tem um caso há algum tempo. Uma série de acontecimentos acabam precipitando as coisas. E a narrativa toma rumos inesperados.
Logo nos primeiros segundos de filme, a pequena referência a Dona Flor já deixa clara a influência de Jorge Amado na narrativa. A semelhança entre as duas histórias é inegável. Sem contar o local onde o enredo se passa: uma comunidade de pescadores cercada pelo mar, praias e cavernas na areia. Há elementos de Mar Morto, Capitães da Areia e, como já disse, Dona Flor e seus Dois Maridos. Ainda assim, a história é cativante e original.
Como não podia deixar de ser, a fotografia é muito bonita, com a luminosidade natural e as paisagens contribuindo bastante para o trabalho de Mauricio Vidal. A câmera anda e treme um pouco, faz alguns travellings e filmagens do alto, mas nada realmente de especial ou diferente. A trilha sonora tem de tudo um pouco: música local, instrumental (com violão, violino e piano, numa mistura muito bonita) e até mesmo cânticos religiosos tradicionais. Não é um filme muito ousado em sua forma ou proposta estética, mas seu vanguardismo se encontra no posicionamento dos personagens ante a vida. Algo que faz com que assistir o filme seja uma experiência de grande beleza e sensibilidade.
Temas como a homofobia e o medo de assumir a própria sexualidade são discutidos de uma forma bastante incisiva e inteligente. A obra não hesita em ir direto aos pontos problemáticos, o que faz com que o filme dialogue diretamente com outras boas narrativas, dentre as quais O Segredo de Brokeback Mountain é apenas um representante mais conhecido. Nessa perspectiva, a cena na qual Santiago e Miguel dão as mãos no meio da rua é bastante simbólica, triste e chega a ser comovente. Especialmente pelo contexto na qual se dá.
Mas o filme de Fuentes-Léon vai além. E aqui vai um pequeno spoiler: digamos que o personagem de Heath Ledger não teve hombridade suficiente para fazer o que o de Cristian Mercado faz. Porque, como diz o personagem de Manolo Cardona, "é preciso ser muito homem para ser gay". E é bom avisar que o filme vai incomodar aqueles que tenham restrições quanto à discussão da sexualidade humana e que enchem a boca para dizer pérolas do tipo "eu não tenho problemas com gays desde que eles não fiquem perto de mim" ou usam expressões como "viado" e etc. Se você acredita ter um perfil parecido com esse, não tem a mínima chance de gostar do longa e entender a mensagem que ele quer passar. É preciso ter o coração aberto para se deixar atingir em cheio.
Contracorrente faz uma discussão muito profunda e séria com refinamento que é coisa rara de se ver numa época em que os fracassos de blockbusters são cada vez mais desesperadores para os estúdios e tudo em que eles investem são sequências, produções 3D e tudo quanto é bobagem que possa atingir os jovens. O espaço para longas modestos e que geram reflexão está diminuindo cada vez mais. Mas felizmente sempre haverá aqueles que irão perseverar, apesar de todas as dificuldades. E é por isso que a sétima arte é tão fascinante.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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