
"Belo Horizonte é uma cidade planejada". Com essa frase, o cineasta e produtor audiovisual Marcelo Reis começa seu primeiro longa-metragem, Aterro, filmado em 2009 com sete moradoras do Morro das Pedras, sobre o segundo lixão que a capital mineira teve em sua história, na década de 70.
O filme teve uma única sessão de estreia na última quinta-feira, 31 de março, no Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes. Com sala cheia, o diretor apresentou-se, falou de seu trabalho como educador audiovisual na comunidade do Morro, como descobriu a história do lixão, que já havia sido esquecida, e decidiu resgatá-la através dos depoimentos e memórias das moradoras, que durante anos tiraram seu sustento quase que exclusivamente como catadoras.
Por enquanto, o cineasta independente, que viabilizou as filmagens através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, ainda não sabe como fará o filme circular nos cinemas, além de dentro do circuito de festivais. Mas prometeu aos presentes vendê-lo em DVD através do site do filme em breve. Então fiquem atentos! Eventualmente, quando isso estiver acontecendo, eu atualizo este post.
Mas vamos ao filme. A obra foi realizada em 2009, em Full HD 1080, e é um documentário que foge do modelo "Eduardo Coutinho" e, ao mesmo tempo, tem uma linguagem própria e original. Logo no começo, somos apresentados às senhoras, e de uma forma extremamente interessante. Cada uma delas está parada, olhando para a câmera, sem fazer nenhum movimento com os lábios. E ouvimos suas vozes, em off, junto com as imagens, falando, cada uma dizendo seu nome, de onde vem, porque trabalhou como catadora. Um pequeno toque criativo que faz toda a diferença na forma como vamos encarar o filme daquele momento em diante.
O close é nos rostos o tempo todo, com a câmera bem fechada, provavelmente para que o microfone de lapela das entrevistadas não apareça, o que, inevitavelmente, acontece uma vez ou outra, mas nada de mais. O público poderia se sentir um pouco "sufocado" ou "cansado" por essa perspectiva, mas o filme dá algumas "pausas", mostrando fábricas de garrafas e sacolas plásticas, o trabalho da coleta de lixo (com os caminhões despejando e espremendo as sacolas e o chorume descendo, uma imagem muito marcante), catadores trabalhando, entre outras imagens importantes que fazem parte do processo do descarte de resíduos descrito pelas senhoras e pelo filme que é, nesse sentido, ainda mais educativo e didático que o clássico do "gênero", Ilha das Flores, de Jorge Furtado. Para os belo horizontinos é um filme essencial, na medida em que percebemos, ao longo da obra, como o caos populacional fez com que a frase citada no primeiro parágrafo caísse por terra e, quando todas as capacidades de armazenamento do lixo foram excedidas, o desespero levou o poder público a tomar medidas extremas e nada ecologicamente corretas. Esse quadro só tem se agravado ao longo dos anos, o que custa bilhões anuais aos cofres públicos e gera um ônus ambiental que dificilmente será revertido.
Os offs são bastante valorizados em vários momentos do filme, outro recurso para quebrar o excesso de closes. Como quando a câmera gira pelo espaço atualmente chamado de Parque Ecológico enquanto apenas as falas das senhoras contam mais sobre o local. A medida que a projeção vai avançado, começamos a identificar cada personagem por sua voz, o que faz com que nossa identificação com o drama delas seja cada vez maior. Enquanto em Lixo Extraordinário há um certo afastamento dos catadores, pelos quais o público sente simpatia mas não a ponto de mudar de atitude e passar a separar os reciclaveis dos orgânicos em casa, em Aterro as senhoras falam muito claramente da importância da reciclagem, de como a atitude precisa ser de cada um e das dificuldades de se mudar a mentalidade das pessoas. O primeiro filme foca na intervenção artística de Vik e no quanto ele quer ajudar a aquelas pessoas enquanto no segundo a perspectiva é daquelas que já tiveram a oportunidade de refletir como foi a vida de catador, pesar os prós e contras e compartilhar com quem assiste uma preciosa sabedoria.
Nesse sentido, a qualidade dos depoimentos recolhidos impressiona. Elas detalham suas vidas sem nenhum pudor, o que faz com que as respeitemos e consigamos criar laços com elas através do filme. Uma das senhoras mostra a casa, feita literalmente do lixo, com restos de material de construção que era encontrado no aterro. E afirma categoricamente: "o lixo dava mais do que o trabalho como empregada, com a vantagem de não haver patrão". Todas concordam em dizer que foi uma época difícil mas, ao mesmo tempo, boa. As diversas frases pronunciadas comprovam isso: "a gente era mais feliz"; "o lixo me deu muita coisa"; "nunca faltou nada"; "o nosso país é um lugar rico"; e ainda "eu não tenho vergonha de nada". E desdenham da forma como o lixo é coletado atualmente, o que muitas vezes dificulta o trabalho do catador, afirmando que "hoje é cada um por si", cada uma à sua forma.
Destaque para o desfecho do filme, genial em sua simplicidade e estética, interessante pela reflexão que inevitavelmente provoca.
Aterro consegue ser, ao mesmo tempo, um registro verídico e atual da situação do gerenciamento de resíduos em BH e um documentário cativante, inteligente, conscientizador, transformador. Deveria ser assistido por pessoas de 8 a 80, que teimam em acreditar que suas atitudes individuais não fazem a diferença. É uma obra de potencial enorme, que mostra que o velho lema "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" ainda funciona muito bem para quem sabe pensar e busca modificar a realidade. É preciso aprender com o passado para não repetir os erros no futuro.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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