Doug Liman pode não ter uma carreira das mais extensas, mas seu currículo é bem interessante. É o responsável por dois dos filmes de ação mais bem sucedidos da última década: A Identidade Bourne e Sr. e Sra. Smith. Atuou ainda como produtor executivo dos dois filmes da trilogia Bourne e trabalhou nas séries de TV O.C. - Um Estranho no Paraíso e Heist. Em 2008 dirigiu o fraco Jumper, sobre um rapaz que tinha o poder de se transportar para onde quisesse, e que foi bem nas bilheterias. Com Jogo de Poder, volta ao tema da espionagem, que parece ser onde realmente se sente mais à vontade.
A obra é inspirada em dois livros: The Politics of Truth: Inside the Lies that Led to War and Betrayed My Wife's CIA Identity: A Diplomat's Memoir, de Joseph Wilson e Fair Game: My Life as a Spy, My Betrayal by the White House, de Valerie Plame. Os dois personagens, ainda vivos, contribuíram bastante na filmagem, dando a Sean Penn e Naomi Watts a chance de conviverem com aqueles a quem retratariam.
Isso somado ao fato de que a obra tem todos os ingredientes necessários a um bom filme fez com que o longa, orçado em modestos US$ 22 milhões, entrasse na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano passado. Perdeu, mas foi um bom competidor. Jogo de Poder é mais um filme da safra pós Bush que, assim como Zona Verde, desmistifica as artimanhas por detrás da guerra do Iraque e não hesita em citar nomes e acusar pessoas, já comprovadamente culpadas pela justiça norte-americana, claro. Ainda assim chama a atenção como eles lavam a roupa suja em público, dando os mínimos detalhes, fazendo um mea culpa extraordinário.
No caso desse filme, há um enredo micro que se expande pro macro. Joe (Sean Penn) e Valerie (Naomi Watts) são casados, ele um Diplomata aposentado, ela uma Agente da CIA de primeira linha, que trabalha com equipes em áreas de conflito. Quando, em 2001, Bush decide declarar guerra ao terrorismo e ele precisa de um alvo, convenientemente com várias reservas de petróleo, o Iraque é o escolhido e ele coloca a CIA para comprovar a existência de supostas armas nucleares nesse país. Nem preciso contar o resto, porque vocês já sabem como essa história termina. O fato é que, no meio do caminho, o casal acaba sendo atingido em cheio. E toda uma nação é deliberadamente feita de idiota (nesse sentido não dá pra deixar de comentar o quão genial foi colocar a música do Gorillaz logo no começo do filme, coincidindo com o discurso de Bush. Um toque de mestre).
Sean Penn está sensacional nesse filme. Cinco vezes indicado ao Oscar, vencedor de duas estatuetas (por Milk e Sobre Meninos e Lobos, duas maravilhas do Cinema), ele é extremamente expressivo e desde o começo a identificação do público com seu personagem é imediata. Sua interação com Naomi Watts funciona super bem, a química dos dois é muito comovente, particularmente em cenas mais difíceis como quando os dois estão discutindo na cozinha ou ele acorda no meio da noite e a vê saindo e acaba se sentando na escada. Os diálogos que trocam entre si são geniais. Dão vida muito bem ao papel de profissionais comprometidos e que, ao mesmo tempo, se amam e precisam perservar a família que construíram juntos.
Particulamente Naomi (indicada ao Oscar uma vez por 21 Gramas, um de seus papéis mais marcantes é em Cidade dos Sonhos, de Lynch) tem uma grande responsabilidade, a de dar veracidade ao drama de uma mulher que, subitamente, vê toda sua vida profissional desabar, mas nem por isso perde as estribeiras. A atriz se sai extremamente bem e não fica nada a dever a Nicole Kidman, primeira que havia sido cogitada para este papel. Também não fica dependendo de Sean para que sua personagem funcione, o que é muito bom e raro em filmes nos quais duas pessoas praticamente dividem o papel principal, como no caso deste. A cena dela caindo em lágrimas enquanto escova os dentes é muito poética. Mais pro final da obra, sua cena do juramento é algo muito interessante, tendo em vista tudo o que foi mostrado anteriormente. Chega a ser irônico. Reparem e contextualizem.
Falando agora um pouco da parte técnica, os cortes secos e rápidos dão dinâmica e ritmo a Jogo de Poder. Além disso, as câmeras andam bastante, seguem os personagens, balançam, o que dá uma ideia de agitação, movimento. Mas às vezes fica chato esse sacolejo todo. Acho que isso foi tipo uma "mania" que o diretor pegou com a trilogia Bourne, na qual todas as cenas de ação, especialmente no terceiro filme, tinham câmeras que sacudiam pra tudo quanto é lado. Tem hora que cansa, confesso.
Também há câmeras aéreas e em carros, que mostram momentos dramáticos, como quando o cientista e seu filho ficam encurralados. Achei particularmente bem feito o 360º feito em volta de Penn quando ele desce do taxi, que termina mostrando a Casa Branca. Detalhes como esse revelam um cuidado, um olhar diferenciado, o que, no final das contas, se soma à montagem, ao roteiro, ao elenco e fazem uma obra se destacar das demais.
Jogo de Poder é um ótimo filme, com excelentes protagonistas (de fácil identificação), um enredo envolvente e bem aproveitado, além de um retrato carregado de emoção de um casamento que sofreu as consequências da guerra particular de Bush. No final das contas, esse sofrimento acabou se estendendo a todos nós, enganados por esse idiota. Mas Liman não perdeu a oportunidade de espremer azedos limões, dos quais ninguém queria lembrar mais, e fazer uma limonada deliciosa de assistir. E agitar bem o copo.