Gore Verbinski começou sua carreira em longa-metragem no final da década de 90 com o filme chamado Um Ratinho Encrenqueiro, uma comédia simples na qual um rato faz dois homens de bobo, uma espécie de "Esqueceram de Mim" com um roedor, como no próprio IMDb se descreve. Nada de muito expressivo. Por sorte, seu trabalho seguinte seria A Mexicana, com Brad Pitt e Julia Roberts, o que lhe daria razoável projeção. O caminho estava aberto rumo a seus dois maiores blockbusters: O Chamado e a trilogia Piratas do Caribe. Com Rango, parece querer ir além dos gêneros. Já fez aventura, terror e ação, mas sua nova animação tem um pouco de cada, com bastante humor e uma simpática homenagem ao gênero Spaghetti Western.
Uma pena que as novas gerações irão assistir ao filme sem conseguir reconhecer as inúmeras referências que ele faz a vários importantes momentos da história do Cinema. Não é muita gente que, hoje em dia, se interessa por Chinatown, Apocalypse Now, Três Homens em Conflito, Por Um Punhado de Dólares a Mais e Era Uma Vez no Oeste. E isso só pra falar de alguns a que Rango faz referência. As pessoas não procuram os clássicos e isso as impede de vivenciar a experiência fílmica em sua plenitude.
Esse é o primeiro longa animado da empresa de Efeitos Especiais Industrial Light & Magic, fundada por George Lucas na década de 70 e responsável pelos efeitos de filmes como Transformers, Homem de Ferro e, naturalmente, Star Wars. A princípio pode parecer apenas mais uma comédia simpática, protagonizada por animais, mas há muita inteligência por detrás do roteiro, dos diálogos, da temática apresentada. E, de quebra, ainda é bem divertido. Comecemos pelo nome da obra: Rango, em óbvia homenagem a Django, clássico western de 1966 que, de tão violento, foi banido de vários países. Na Inglaterra, por exemplo, as pessoas só começaram a ter acesso ao filme em 1993. E nos Estados Unidos, ele nunca esteve em cartaz. Também pudera, em 93 minutos são 138 mortos. E o protagonista, de mesmo nome, passa o filme todo arrastando um caixão atrás de si, por motivos que ninguém sabe.
Apesar do nome ser em homenagem ao violento western, Rango é bem leve. No enredo, um simpático lagarto sai da sua rotina doméstica e se vê obrigado a seguir para uma cidade, Poeira, na qual vai conhecer novos amigos e um destino bem diferente. Interpretado com muito talento por Johnny Depp, o lagarto foi modelado de acordo com o personagem da década de 60 Barney Fife, interpretado pelo ator Don Knotts no programa de TV norte-americano The Andy Griffith Show. Não só na aparência, mas algumas das "qualidades" de Barney são emprestadas a Rango: um xerife que gosta de se gabar apenas para esconder a própria insegurança.
Muito interessante observar a "evolução" das cores no filme. A princípio tudo é muito colorido, Rango usa roupas havaianas, há muito azul e verde. Não demora para a aridez tomar conta e, já mais pro meio da narrativa, a cor de terra impera em todos os cenários. É marrom pra todo lado, o que nos dá a ideia da dificuldade na qual vivem os personagem. O escritório do prefeito e outros lugares relacionados a ele são de cores mais vívidas, dando a noção de fartura, riqueza. O mesmo acontece quando vemos Los Angeles: primeiro branca, num reflexo de uma transição emocional peculiar do personagem, depois cheia de cores e luzes, passando a percepção de um oasis de cores e ideias. É lá que Rango vai "abastecer", se é que podemos dizer assim.
Sua trajetória dentro do filme não é exatamente a mais inexperada, mas cumpre conforme o figurino tudo aquilo que o público espera dela. Se fosse de outra forma, imagino que não teria tanta graça. Observamos o protagonista crescer dentro da narrativa e nos divertimos com a bandinha de corujas, bem ao estilo velho oeste; com as sensacionais sequências de perseguição (com direito a Cavalgada das Valquírias e tudo !); e com o sensacional trabalho de Hans Zimmer, numa trilha sonora muito boa mesmo, que nos remete a um autêntico western e ao trabalho inesquecível de Morricone (indicado cinco vezes, premiado em 2007 com um Oscar honorário, fez a trilha de quase 500 filmes até hoje e ainda está na ativa!), que fez vários Spaghetti Western em profícua parceria com Sérgio Leone.
Depp dá uma vida própria a Rango, que vai muito além de sua voz e é bastante ajudado por Isla Fisher (Os Delírios de Consumo de Becky Bloom), que está surpreendentemente bem. Ned Beatty como o prefeito e Bill Nighy como Rattlesnake Jake também são antagonistas interessantes, que contribuem para criar a atmosfera western do filme. Quase no final, ainda há uma participação especialíssima, o "espírito do oeste", que não poderia faltar em nenhum filme em homenagem ao gênero e é muito legal.
Rango é extremamente simples em sua fórmula e, ao mesmo tempo, genial. Sua singela homenagem ao Spaghetti Western há de ser recompensada no ano que vem com pelo menos duas indicações ao Oscar. É o que penso. Seria uma ótima forma da Academia corrigir um dos maiores equívocos de sua história: nenhum dos principais filmes representantes do Spaghetti sequer foi indicado. O próprio Leone jamais ganhou uma estatueta. É é um dos capítulos mais profícuos da história do Cinema mundial, que rendeu grandes e inesquecíveis obras-primas. Um engano que talvez tenha chegado a hora de, simbolicamente, corrigir.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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