Nos Estados Unidos, o humor sempre foi feito de forma bastante peculiar. Por um lado, programas como Jackass e filmes como Borat. Por outro, Saturday Night Life, Seinfeld e a febre do Stand Up Comedy, que mais recentemente se espalhou pelo Brasil. Esses tipos de humor influenciaram e influenciam muito o gosto das pessoas ao redor do mundo, que tem contato com a cultura norte-americana. No Brasil, temos, em nosso passado, um humor mais panfletário, como o feito por Mazzaropi e Oscarito: engraçado, mas com a denúncia social como pano de fundo. Recentemente, programas como CQC e Pânico tem dividido a audiência: o que preferir, piadas "inteligentes" ou o puro nonsense? Os programas tem convivido pacificamente, mostrando que há espaço pra tudo. O mesmo acontece na TV e Cinema norte-americanos, com os exemplos que já citei.
Fato é que não faltarão aqueles que vão fazer xixi nas calças de tanto rir de Passe Livre, o novo filme dos irmãos Bobby e Peter Farelly. Mas já aviso que esse não foi o meu caso. A dupla é responsável por grandes clássicos do humor nonsense como Debi & Lóide, Quem Vai Ficar com Mary, O Amor é Cego, Antes só do que Mal Casado e serão os diretores que, muito provavelmente, destruirão os Três Patetas para as novas gerações em 2012. Digo isso porque o tipo de humor que o trio fazia não se parece em absolutamente nada com o que a dupla realiza, apelando para nudez e escatologia para conseguir risadas.
Não, não achei graça em Passe Livre, principalmente por não ser fã do estilo, e acredito que, se você passa horas rindo de Jackass, nem precisa perder seu tempo lendo o resto desse texto. Pode ir no cinema tranquilo. Passe Livre será diversão garantida. Sob o ponto de vista dos fãs do gênero, é brilhante. Ficará entretido e sairá de lá muito satisfeito. Te garanto.
Mas, se você busca piadas um pouco mais trabalhadas, gosta de ironia e não tolera estupidez, não tem a mínima chance de gostar do filme. Comecemos pela obviedade do enredo: Rick (Owen Wilson) está sexualmente entediado em seu casamento e acredita ter tirado a sorte grande quando a esposa Maggie (Jenna Fischer) decide lhe dar um 'passe livre'. Sim, isso mesmo, aquilo que se popularizou chamar no Brasil de 'vale night' depois do sucesso do famigerado funk. Em outras palavras, o cara está liberado para ter a mulher que quiser. Mais um filme que presta um desserviço por supervalorizar o sexo dentro de um relacionamento.
Quem for cinéfilo mais frequente dessa coisa horrorosa que se convencionou chamar 'comédia romântica' não demorará a adivinhar no que isso vai dar. É um filme que peca, acima de tudo, por sua falta de surpresas. Não há nada que você não consiga prever que vai acontecer. É um desenrolar de trama mais escancarado que novela das oito. A escolha de Owen Wilson como protagonista já diz muito sobre o filme. Só dar uma olhadinha nos outros trabalhos dele.
É uma obra que tem por objetivo agradar homens e mulheres jovens, namorando ou em relacionamento estável, sem filhos. Os homens adoram as piadas e o enredo, extremamente sexistas e chulos, regados a palavrões de todo o tipo. As mulheres, que forem ingênuas ou tiverem a boa vontade de acreditar, se deixam levar pelo aparente bom-mocismo do filme, o que talvez seja a maior piada que a história apresenta. É preciso filtrar a mensagem apresentada à primeira vista. Na verdade, o buraco é bem mais embaixo.
Depois de passar toda a primeira parte construindo uma ideia em torno do que é um casamento (quase 30 minutos de filme), o protagonista recebe seu 'passe livre'. E, ao final, toda a ideia arduamente colocada antes com bastante ênfase é, pura e simplesmente, demolida, sem coerência alguma! De repente tudo o que foi citado como ruim fica bom! Não faz sentido! Além disso, a mulher é colocada sob uma perspectiva muito desfavorável, com comportamentos considerados 'inadequados' sob a ótica dos diretores enquanto os homens podem fazer o que quiserem que são levados a serem vistos com benevolência pelo público. A velha história da mulher devassa que leva o homem ao erro. Ladainha de sempre. Numa cena em particular, mais pro final, Jenna Fischer chega a uma conclusão que a surpreende e solta uma pequena frase, em estilo mea culpa, que sintetiza bem essa perspectiva.
Passe Livre tem sexo, nudez, drogas, palavrões, escatologia e um elenco recheado por atores das antigas, que passaram um bom tempo em produções menores, como Christina Applegate (fez muita coisa em TV) e Zen Gesner (faz um policial, mais conhecido pelos seriados As Aventuras de Sinbad e All My Children). Recheado de cenas pretensamente hilárias, é totalmente direcionado a aqueles que tem um senso de humor mais 'acessível', sem muita elaboração. E não é um filme para se ir com a família, definitivamente. Com orçamento de US$ 36 milhões, ainda não havia conseguido sequer se pagar antes de estrear no Brasil, três semanas depois de nos EUA, o que talvez seja um indício de que o formato já tão repetido possa estar começando a cansar. De qualquer forma, saber o que esperar do filme antes de ir assistí-lo é essencial.
Passe Livre
Dirigido pelos irmãos Bobby e Peter Farelly (1h 45 min)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.