
Jaume Collet-Serra tem poucos, mas conhecidos, trabalhos no currículo. A Casa de Cera, de 2005, foi o primeiro, e A Órfã, de 2009, o penúltimo. Ambos do gênero terror, fizeram bastante "barulho" entre os cinéfilos. Com Desconhecido, o diretor ganhou a oportunidade de mostrar um pouco mais de refinamento. E essa chance ele não deixou passar em branco.
O filme é uma adaptação do livro Out Of My Head, do escritor francês Didier Van Cauwelaer. O autor é prestigiadíssimo no seu país, tendo ganho o Prix Goncourt, uma das maiores honras concedidas a autores da França. O enredo do filme é, pelo que consegui apurar, bastante semelhante ao do livro. Martin Harris (Liam Neeson) sofre um grave acidente e, quando acorda do coma, está só. Sua esposa Elizabeth (January Jones) desapareceu. Suas lembranças voltam bem devagar. O espanto é grande quando descobre que alguém tomou o seu lugar. Ninguém parece reconhecê-lo. É como se tivesse deixado de existir.
Não é, de forma alguma, um enredo dos mais originais. Na verdade, é uma espécie de reformulação do já batido argumento "homem perde a memória e luta pra recuperá-la", tão clichê que inumerar aqui os filmes com a temática seria um trabalho sem fim. A diferença está, obviamente, em dois pequeninos detalhes que salvam o filme: a forma como o enredo é executado e o ator que o executa. Liam Neeson como protagonista faz toda a diferença.
É um roteiro trabalhado de forma a nos "segurar" o tempo todo. A expectativa pelo desfecho é constante e, embora este não seja o mais surpreendente, convence bem. Algumas cenas são de bastante impacto como, por exemplo, a da tesoura e a de Neeson enfrentando seu adversário em frente a um espelho. As situações criadas são bem interessantes, trabalhadas para criar tensão no público. Todas as cenas de luta tem uma qualidade quase incompatível como o fato desse ser um lançamento médio (nem blockbuster que domina as bilheterias nem filme lançado direto em DVD). Não fica tão atrás de um A Identidade Bourne, sinceramente. Com um protagonista mais maduro e menos explosões.
Liam Neeson carrega a história nas costas com maestria e desenvoltura de um ator experiente. O ator trabalha na TV e no Cinema desde a década de 80 e seu rosto é muito marcante, sendo lembrado especialmente pelos seus papéis em A Lista de Schindler, pelo qual foi indicado ao Oscar, e no episódio I de Star Wars. Chegou a ser a voz de Adolf Hitler num seriado na década de 90. Participou de produções de diversos tipos, indo de Simplesmente Amor a Crônicas de Nárnia. O IMDb lhe credita 84 trabalhos, incluindo cinco ainda nem lançados. Com seus 58 anos, é um ator que tem sobrevivido bem ao famigerado costume hollywoodiano de aposentar suas estrelas relativamente cedo. Trabalha com regularidade e bem.
Nesse filme é particularmente ajudado pelas câmeras, que dão ênfase ao que sente o tempo todo (destaque para a cena em que ele está frágil, cambaleante, e a câmera o filma de lado, torto, para enfatizar a fragilidade dele), e pela edição e mixagem de som, que às vezes distorce o barulho ambiente para que ele fique compatível com o que se passa na mente do protagonista. A trilha sonora é bastante pontual, servindo para auxiliar nos momentos de grande tensão do personagem.
Destaque para a atuação de Bruno Ganz, o ator que é, para mim, aquele que deu a Hitler sua interpretação definitiva no filme A Queda. Curiosidade interessante: recusou o papel de protagonista de A Lista de Schindler e imagino que, por causa disso, Neeson deva lhe ser bastante grato. Aparece apenas em uma ponta, mas está, como sempre, excelente. Servindo de apoio ao personagem principal, ajudando na busca da identidade dele, age com perfeição para que possamos embarcar junto com o protagonista em sua viagem. Diane Kruger tem a mesma função, mas nem de longe a mesma carga dramática. Ainda assim, a jovem também cumpre bem seu papel.
Desconhecido surpreende porque a "peteca" não cai hora nenhuma e, mesmo quando tudo parece estar esclarecido, ainda há mais o que desvendar, o que torna o filme interessante e peculiar do início ao fim. Uma aventura que emociona, prende e consegue fugir do lugar comum em muitos momentos, algo realmente admirável usando um enredo tão batido. Cercando-se de bons atores e profissionais, Jaume Collet-Serra conseguiu se precaver contra um fracasso. O filme custou US$ 30 milhões e só nos Estados Unidos já faturou mais de US$ 53 milhões. Nada mal para uma parceria novato-veterano.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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