
O cineasta Michel Gondry não tem uma carreira das mais longas do cinema. É mais conhecido por seus trabalhos junto ao Chemical Brothers e com Björk. Ainda assim, tem um número considerável de trabalhos no currículo. E um Oscar, ainda que seja como roteirista. O prêmio é pelo trabalho que, ainda hoje, é uma referência na sua carreira: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de 2004. De lá pra cá fez mais documentários, vídeos e curtas, além de Sonhando Acordado, de 2006, e Rebobine, por favor, de 2008. Seu novo trabalho é levar mais um herói dos quadrinhos pro cinema, O Besouro Verde.
Poucas pessoas sabem, a não ser os fãs, mas a saga do Besouro começou, na verdade, no rádio e só depois ele foi pros quadrinhos. Seu programa foi ao ar nas décadas de 30 e 50. Nas décadas de 40 e 60 foi adaptado para a televisão em forma de série e telefilme e também começou a ser publicado nas revistas, primeiro pela Helnit Comics e depois pela Harvey Comics. Depois de muitas idas e vindas a Dynamite Entertainment recomeçou a publicar as histórias em 2009 e a Moonstone Books está lançando desde esse mesmo ano livros com a história do super-herói.
No enredo do filme, Britt Reid (Seth Rogen) é o herdeiro de um grande império e decide se tornar um super-herói para combater a criminalidade da cidade e desbancar o crimimoso Chudnofsky (Christoph Waltz, consagrado pelo Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Bastardos Inglórios) de seu posto de "rei do crime". O que o difere de outros heróis é que ele não tenta parecer bonzinho, mas sim o pior possível: se coloca como um concorrente ao posto do bandido e tem tanto a polícia quanto o chefão em busca de sua cabeça. Tem ao seu lado Kato (Jay Chou) e a jornalista Lenore Case (Cameron Diaz) para ajudá-lo.
Eu não tenho conhecimento a respeito da forma como o enredo do Besouro foi concebido originalmente. Mas me arriscaria a dizer que não é da forma como Seth Rogen o interpreta no filme. Isso porque ele chega a nos irritar, de tão idiota, desajeitado e chato que é. O ator é muito ruim e se foi propositalmente que ele interpretou o Besouro Verde como um filhinho de papai mimado sem nenhum talento, funcionou. Se é dessa forma que o personagem é originalmente, ficou caracterizado com perfeição. Mas me arriscaria a dizer que esse é mais um super-herói vítima da idiotização a que Hollywood tem submetido os personagens de histórias em quadrinhos, semelhante ao que aconteceu com Batman na década de 90 (resgatado nos anos 2000 por Nolan) e com o Homem Aranha vivido por Tobey Maguire, que irritou muita gente.
Outra escolha infeliz pro elenco foi Cameron Diaz, que piora a olhos vistos a cada dia que passa. Seus diálogos são péssimos, sua interação com os dois personagens é muito ruim. Sua atuação é canastrona e, se foi de propósito também, perfeitamente caracterizada. Foge do baixo padrão o ator taiwanês Jay Chou, o ajudante Kato, que também é um famoso cantor pop em Taiwan e na China, mas pouco conhecido por aqui. Sua interpretação é sensacional e é a única coisa que faz valer a pena perder tempo assistindo O Besouro Verde. A impressão que se tem inicialmente é que ele é o herói enquanto o patético besouro é que poderia ser o seu ajudante. Eventualmente essa questão é colocada dentro do filme, mas explorada de uma forma que termina, inevitavelmente, em clichê.
A trilha sonora é boa e varia de White Stripes a Coolio, passando por Johnny Cash (o momento escolhido pra música dele tocar é um pequenino toque de mestre em meio à mediocridade do filme) e bastante rock 'n' roll. Também ajudam a salvar o filme as boas cenas de ação, recheadas de efeitos visuais, luta corporal e perseguições de carro. Em alguns momentos, o público mal consegue acompanhá-las. Destaque para a cena de briga dos dois e a luta/baderna coletiva dentro do jornal. Uma pena que o desenrolar do enredo seja previsível, mas graças a esses elementos o filme acaba ficando interessante. Alguns elementos de cor usados pelo diretor também são legais de serem observados como, por exemplo, a rosa vermelha que aparece num relance, antecedendo o que vai acontecer em seguida, e o uso do protagonista de um roupão verde quando grita pelo seu café, prenúncio de que a pessoa que irá encontrar em seguida irá modificar a sua trajetória daquele momento em diante. São sinais visuais, que usam a simbologia das cores, e são bacanas quando mais e melhor explorados. Ainda assim, através deles Gondry nos dá algumas dicas. É preciso estar atento pra perceber.
O Besouro Verde tem um roteiro que segue por caminhos óbvios e é, no geral, fraco. Mas para quem gosta de ação, é um prato cheio. Nesse sentido, o 3D lhe cai bem. Apesar disso, a fórmula de idiotização dos super-heróis usada por Hollywood não parece estar funcionando com a mesma eficiência de antes. Com praticamente nenhuma repercussão, o filme não faturou nos Estados Unidos bilheteria suficiente para se pagar, com lucros aquém do orçamento estimado de US$ 120 milhões. Talvez tenha melhor sorte nas praças internacionais. Mas é mais uma das obras que nos leva a refletir a respeito de vários fatores, dentre eles a qualidade das produções, que estão afastando as pessoas dos cinemas.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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