
127 Horas foi um jeito bem peculiar que Boyle escolheu pra dar sequência à sua carreira, depois que Quem Quer Ser Um Milionário? lhe deu o Oscar de Melhor Diretor em 2009. Até então nunca tinha ganho uma atenção maior, com filmes como Extermínio, Por uma Vida Menos Ordinária e Trainspotting - Sem Limites. Inventivo, quase independente, ao unir forças com Bollywood chamou bastante atenção da indústria e da Academia e era natural que houvesse bastante expectativa em torno desse seu novo filme. O drama é difícil e muito pessoal, bem desafiante de se retratar no Cinema.
O enredo e roteiro baseiam-se na experiência descrita no livro Between a Rock and a Hard Place, cujo protagonista é Aron Ralston, um alpinista amador que ficou com o braço preso numa rocha quando escalava um canyon em Utah. A história tem bastante semelhança com outras duas já retratadas anteriormente: O Náufrago, de 2000 e o mais recente Enterrado Vivo, lançado em 2010. Nos três, temos protagonistas que estão sozinhos e precisam contar com a própria inteligência e sorte para sobreviverem, em situações de dificuldade extrema.
A diferença é que, no caso de Aron, tudo aconteceu e Boyle e Franco tiveram bastante material no qual puderam se basear além do livro. Entrevistas, reportagens, documentários e gravações feitas pelo real protagonista, com uma câmera de vídeo, quando estava preso. Visivelmente percebe-se que foi feita uma reconstituição de qualidade impressionante, na medida em que os mínimos detalhes foram respeitados, como a roupa que usava, o material que carregava consigo e até mesmo a câmera de vídeo que ele usou, cuja marca e tipo de imagem eram os mesmos nos quais Aron registrou seu drama (A câmera de vídeo também resolve o problema do 'narrador': o personagem conta sua história pra nós através dela).
Essa qualidade prossegue na forma como o cineasta acompanha o seu solitário personagem: a câmera está muito perto boa parte do tempo, balançando quando ele bate na rocha ou molhando quando cai água nela, passa a ser um personagem à parte, agindo como um ser onisciente que registra e sente tudo que o alpinista faz. Está tão evidenciada que em alguns momentos acaba acidentalmente nos relembrando que estamos vendo um filme, o que é muito ruim, já que essa sensação nos "joga" pra fora da história e não conseguimos nos comover com o drama que se passa. Em outros momentos, os ângulos são bem abertos, evidenciando a paisagem desoladora. A fotografia prioriza a aridez do canyon, com muitos tons pastéis e cor de terra, enfatizando o quanto o local é desértico e aumentando ainda mais a sensação de desespero e claustrofobia nos espectadores.
Outra dificuldade que nos impede de ter um maior envolvimento com o drama é a tela dividida em 3 que começa e termina a narrativa; é muito incomum a vermos no Cinema e por isso sua presença causa um estranhamento e dificuldade de acompanhar tudo o que se passa, nos perdemos em meio ao sentido das imagens individualmente e falhamos em entender o conjunto. O nome do filme só aparecer aos 16 minutos de projeção, junto com a rocha que cai, também não ajuda muito e parece nos dizer "comecem a contar a partir de agora", também nos tirando do universo do filme justamente quando estávamos começando a entrar nele. Esse crédito 'inusitado' também acaba gerando uma expectativa desmedida em torno do clímax que não é, no final das contas, tudo aquilo pelo qual estamos esperando. É uma cena sofrível de se ver e são poucos os que conseguem, isso é fato. À título de curiosidade: foi feita num take só, algo muito raro de se acontecer num longa. Ainda mais essa em particular.
Esse tipo de trabalho é um desafio para o ator que o faz, visto que ele precisa manter o interesse e não divide com mais ninguém a atenção da audiência. James Franco está bem, encara de forma digna a hercúlea tarefa, conseguindo nos passar em pouco tempo a irreverência do jovem personagem, explicando, de certa forma, a sua irresponsabilidade. Não me espantaria se ele tiver ficado sem dormir de verdade, está crível e convincente e esse é, sem dúvidas, o melhor papel de sua carreira. Apesar disso, a impressão que temos é de que seu desempenho é fraco, não porque seja ruim, mas porque, bem, ele não tem a oportunidade de fazer muita coisa, não é mesmo? O roteiro e a história lhe restrigem demais, quase não há diálogos, é apenas a câmera e ele e são pouquíssimos os atores na atualidade que dariam conta de vencer um duelo assim tão difícil. Seria um papel perfeito para um Marlon Brando nos emocionar ou até mesmo um Robert De Niro. Acho injusto dizer que Franco é ruim, porque ele dá o máximo de si nas cenas e isso fica bastante evidente. Mas é óbvio que a história pedia alguém mais experiente, de mais peso dramático e que, ao mesmo tempo, fosse jovem como Aron, que tinha 28 anos quando tudo aconteceu. Complicado pensar num ator com esse perfil. A primeira escolha de Boyle havia sido Cillian Murphy, o espantalho de Batman Begins, o que na minha opinião seria muito pior.
Por ser muito conhecida, a história acaba sendo pouco contextualizada para aqueles que nunca ouviram falar de Aron ou de seu drama. Algumas coisas ficam mal explicitadas, especialmente quando vemos alguns de seus delírios relembrando a infância e adolescência, provavelmente um receio que o diretor teve de explicar demais e entediar o público. O filme mostra, muito claramente e sem hesitação, o esforço necessário para que o personagem tenha feito o que fez. Mas várias perguntas ficam no ar e talvez o diretor também tenha planejado instigar aqueles que ainda não conheciam o enredo a procurar saber mais, ler o livro, buscar em outras fontes. De qualquer forma, não é algo que prejudique seriamente o filme.
A trilha sonora de A.R. Rahman é muito boa, talvez uma das indicações ao Oscar mais merecida que a obra teve. Há muita música contemporânea, faixas que foram muito bem escolhidas e atenuam, em certos momentos, a seriedade do que está acontecendo, nos ajudando a "suportar" o que estamos presenciando, o cotidiano opressor vivido pelo personagem. Aliada à montagem, funciona muito bem em vários momentos. Destaque para a cena em que toca Lovely Day, de Bill Withers: o que vemos é desesperador e a música é alegre e nos remete à manhãs floridas de sol, totalmente fora daquilo que é mostrado. O contraste resulta numa antítese interessante mas, ao mesmo tempo, não deixa de prejudicar, mais uma vez, o envolvimento com a ação.
Resumindo, pode-se concluir que a forma como Boyle optou em narrar 127 Horas respeita a estrutura do livro e usa uma série de artifícios para tornar um enredo bem conhecido mais interessante, mas dilui um pouco a perspectiva do drama e nos faz ficar à superfície, numa obra em que o essencial é que você mergulhe junto com o personagem em seu drama. O desafio é cumprido de forma satisfatória, mas com uma carga dramática bem menor, nos dando a sensação de que ele quis, intencionalmente, atenuar a experiência, forte demais. Mas então porque optar por um climax que não esconde nada, com detalhes que nós inclusive não gostaríamos de ver? A pergunta fica no ar. O filme é bom, porém há aí algo que falta que possa justificar as seis indicações ao Oscar que teve, das quais não deve ganhar nenhuma.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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