
Em 1968, Charles Portis escreveu seu segundo romance, Bravura Indômita. Publicado primeiramente num jornal, a história foi adaptada para livro e posteriormente publicada. Contava a respeito de uma garotinha de 14 anos, Mattie Ross, que queria vingar a morte do pai. Já no ano seguinte, o diretor Henry Hathaway se interessou por adaptá-la para o cinema. Era um expert em westerns, indicado ao Oscar apenas uma vez, mas realizador de clássicos inesquecíveis do gênero como A Conquista do Oeste (em parceria com John Ford e George Marshall). A história era perfeita para ele e pedia a presença de um ator que é, até os dias de hoje, a maior referência em western: John Wayne. Não havia velho oeste sem ele. Sua interpretação do personagem Rooster Cogburn foi tão bem sucedida que chegou até a lhe render uma sequência em 1975 chamada Justiceiro Implacável, que gira em torno do mesmo protagonista. Foi o personagem que lhe deu o único Oscar de Melhor Ator de toda a sua carreira, o que chega até a ser cômico. Mais de 170 títulos, apenas 3 indicações e um único prêmio. Isso na época em que a Academia era conhecida por sua seletividade. Outros tempos.
Hathaway e Wayne eram uma grande dupla e juntos fizeram muitos filmes. Algo semelhante parece se passar com os Coen e Jeff Bridges, que fizeram o grande sucesso cult O Grande Lebowski e agora voltam a trabalhar juntos na nova versão de Bravura Indômita, indicada a 10 Oscar esse ano, incluindo Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro e Melhor Filme do ano. Essa versão não é, ao contrário do que se pensa, uma refilmagem do anterior, mas sim um retorno ao livro de Portis, buscando uma maior fidelidade ao enredo original. Não vi a primeira versão então não tenho como atestar se um ou o outro é melhor. O que constatei é que no geral a forma como as duas produções abordam o enredo é bem parecida, apenas sendo os dois desfechos ligeiramente diferentes. A abordagem do Coen me parece ser menos humanista, pouco simpática. Talvez a principal diferença seja quanto ao destino do personagem LaBoeuf. Mas, em termos amplos, são bem parecidos. O novo filme também tem como diferencial o fato de "devolver" a narrativa à garota, como acontece no livro é ela que narra a história. Em 1969, naturalmente, John Wayne era o protagonista e os fatos se desenrolavam sob sua perspectiva.
Mas expliquemos melhor Bravura Indômita. A garota (Hailee Steinfeld em seu primeiro longa-metragem, já indicada ao Oscar pelo papel) quer vingar a morte do pai. Decide contratar Rooster (Bridges, vencedor do Oscar por Coração Louco ano passado e novamente indicado esse ano), um agente federal, para caçar Chaney (Josh Brolin), o assassino. Nesse meio tempo, um Texas Ranger, LaBoeuf (Matt Damon), aparece à caça dele, cuja cabeça vale uma boa recompensa no Texas. Depois de muito bate boca e situações de todo tipo, os três entram em acordo e saem em busca do fugitivo.
Produzido por Spilberg, o filme não lembra em nada outras obras dos Coen. O velho oeste retratado é desolador, seco, sem cor, com paisagens na quais predominam o amarelo, cinza, marrom e branco. As próprias pessoas retratadas não são realmente amigáveis ou de muita conversa. O destaque todo vai para a protagonista e estreante Hailee e ela não foi indicada à toa. Já nos primeiros minutos demonstra ser mais madura que a idade que tem e fica realmente difícil acreditar que ela seja tão jovem, tanto na vida real quanto no filme (tem a mesma idade da personagem. Kim Darby, a primeira Mattie, tinha 22). Esperta e carismática, apesar de seu comportamento atrevido, é, do grupo, a que mais demonstra ter a citada bravura indômita. Seu desempenho é impressionante e deve lhe dar o Oscar agora que a antes favorita Melissa Leo pisou na bola feio com seus anúncios pagos na Variety que ecoaram como desespero por toda a Beverly Hills e a deixaram em maus lençóis. Amy Adams, que também estava em O Vencedor, naturalmente acabou sendo prejudicada 'de tabela' também. O que abre caminho pro bom desempenho da estreante. Esse pode ser o único prêmio com reais chances do filme vencer, diga-se de passagem. Nesse sentido, a manobra de colocá-la na categoria coadjuvante foi muito inteligente e é comum. Como Melhor Atriz ela não teria chance contra Portman e seu Cisne Negro. Mesmo a garota sendo a protagonista do filme, isso pode ser feito. Coisas de Oscar.
Bridges não é, obviamente, John Wayne, mas está hilário, apesar de fazer uma variação dos seus personagens beberrões de sempre. Os diálogos do filme são ótimos, mas os dele são os melhores. De sua atuação, duas sequências merecem destaque: a cena do tribunal, que é muito boa e na qual a câmera começa com um ângulo bem aberto e vai fechando em seu rosto a medida que ele é encurralado pelo advogado de acusação; e a sequência do enforcado, que é bem engraçada, pelo menos no começo. A impressão que tive é de que seu Rooster é mais caricato, anti-herói, tosco, enquanto Wayne sempre passava aquela seriedade e comedimentos já naturais de seu semblante. Era o tipo de herói que sempre se saía bem em qualquer situação. Bridges sabe se virar, experiente como é, mas a sua interpretação muda a perspectiva da coisa e se em 1969 fica bastante dúbio quem é que tem a bravura indômita, na atual fica bem óbvio que é a menina, como eu já disse, mais do que todos os outros. Quanto a Josh Brolin, está desperdiçado e não faz muita coisa que justifique o cachê. Podiam ter chamado outro cara que não faria diferença alguma. O que é uma pena. Mas o personagem também não o favorece muito.
A sequência final é 'da pesada' e muito ágil, é aquilo pelo qual pagamos pra ver quando compramos o ingresso do filme. De repente a narrativa adquire uma velocidade tal que nos 90 minutos anteriores não teve e a gente quase levanta da cadeira porque somos pegos de surpresa, especialmente se assistimos sem ter ideia do que vai acontecer (não vejam o primeiro filme nem leiam o livro que a coisa ganha mais graça). A sequência chamada de 'confronto final', até onde sei, é a grande atração do filme de Hathaway (você acha no youtube) e perde um pouco de sua força original com Bridges, apesar da execução de ambas serem parecidíssimas, até mesmo na movimentação das câmeras, o diálogo dos atores, tudo. Na obra mais recente, o que é realmente forte é o que acontece depois, com destaque para o encerramento, mais "seco" e que nos dá o conhecimento completo da protagonista, da mesma forma como acontece no livro. Acredito que, do ponto de vista do enredo de Portis, isso seja o mais correto. E a valorização disso pelos Coen é um reflexo dos nossos tempos, no qual a visão de mundo da mulher ganha importância a cada dia, coisa que ainda não acontecia em 69.
A trilha instrumental é bem pontual, aparece mais em momentos importantes ou tensos, evidente principalmente no final com grande uso de piano, violino e flauta. Achei-a bem fraca, para dizer a verdade, e se perdeu uma boa oportunidade usar Johnny Cash em boa parte das cenas. Uma das principais vozes country dos Estados Unidos aparece em um dos trailers de forma bem inteligente, mas não dá 'as caras' no filme, o que é bem desapontador. As músicas executadas, quase todas, fazem referência a aspectos católicos, em referência ao fato de que a garota é cristã. Leaning On The Everlasting Arms é bonita, mas... digamos que as músicas são um reflexo do quanto é seco o filme.
Bravura Indômita é bem executado e diversão garantida, boas risadas pelo menos. Mas não é tão extraordinário quanto estão tentando vender. De qualquer forma, não é uma perda de tempo, o que já é bastante. A ótima estreia de Hailee Steinfeld é algo que vale a pena ver. Tem tudo pra ter um futuro brilhante essa menina. Se Portis a viu dando vida à personagem deve ter ficado comovido. Ele é um cara recluso, difícil de achar e que gosta de viajar pro México. Não lança nada desde a década de 90.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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