
Doze indicações ao Oscar 2011. Incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante. Nada mal, hein? Para quem não tem praticamente nada no currículo, Tom Hooper se saiu bem com O Discurso do Rei, não acham? Não são muitos os filmes que conseguem impressionar a Academia nesse nível. E esse em particular é um caso extremamente peculiar.
Primeiro porque é um filme britânico desde a sua origem, passando pelo enredo, o elenco e inclusive o diretor. Quantos norte-americanos vocês acham que já haviam ouvido falar no rei George VI? E brasileiros então? Digo isso porque ele não é exatamente uma atração nas aulas de história, né? Não mandava cortar as cabeças das esposas pra poder se divorciar. Fazer um filme sobre uma questão tão pessoal dele então, que era a sua desordem de fluência da fala, era algo impensável pra uma Hollywood cada vez mais quebrada, por blockbusters que tem faturado cada vez menos. Ainda assim, com um modesto orçamento de 15 milhões de dólares, o drama apostou naquilo que lhe daria toda a qualidade que tem: os atores. Tudo na trama favorece para que eles brilhem e essa foi a decisão mais feliz que o diretor poderia ter tomado. Ele sabia o elenco que tinha nas mãos.
Sim porque um filme com esse perfil jamais funcionaria sem Colin Firth e Geofrey Rush. Por dois motivos bem simples. O primeiro é óbvio: os dois são espetaculares. Firth está sendo indicado pela segunda vez em seguida ao Oscar e não só pelo seu bom desempenho como o rei, mas também por ter perdido ano passado com Direito de Amar, o que foi uma injustiça, mas cometida em prol de Jeff Bridges, outro injustiçado. Então esse ano eles vão fazer justiça ao injustiçado da vez. E que tem bastante mérito, ninguém pode discutir. Rush, por sua vez, está na sua quarta indicação, já tendo sido contemplado em 1996 por Shine - Brilhante num papel que fez o desconhecido ator australiano se tornar uma verdadeira sensação ao redor do mundo. Interpretando Lionel Logue ele conseguiu mais uma vez a simpatia do público e da crítica, numa performance ousada e muito marcante, que poucos atores teriam tido a competência e a desenvoltura de desempenhar como ele. Acho que o Oscar de Coadjuvante também será certamente dele.
O segundo motivo é inerente à própria história. Ao longo do processo de seu tratamento, George VI e Logue desenvolveram uma relação peculiar, que pouquíssimos monarcas permitiram a seus súditos. Isso é de uma importância enorme, mas só percebemos isso porque o filme potencializa a força dessa relação. A interação entre os dois atores é tão boa que nos faz perceber o quanto as vidas daquelas duas pessoas acabaram se costurando, até porque Hooper não hesita em despir a monarquia de todos os seus encantos. Acho que se os dois atores não fossem tão bons, os diálogos não fossem tão marcantes e a dupla não tivesse tido um relacionamento tão saudável no set dificilmente o filme emocionaria e teria a repercussão que tem tido.
Helena está bem diferente dos seus papéis usuais (A Noiva Cadáver, Sweeney Todd, Harry Potter, Alice no País das Maravilhas... sacaram?), se transformou totalmente para interpretar a rainha Elizabeth na sua juventude, mãe da atual rainha Elizabeth II. Está bem e indicada pela segunda vez mas não deve ter chance contra as duas atrizes de O Vencedor, que são as favoritas. Em seu papel, ela é uma calma e centrada esposa que apoia o marido em seus momentos difíceis e acredita nele mesmo quando o próprio não o faz. Um pouco clichê, mas necessário e com certeza bem verdadeiro.
Destaque para dois papéis pequenos, mais muito interessantes. Primeiramente Timothy Spall em sua 'polêmica' e breve aparição como Churchill, que viria a ser primeiro-ministro da Inglaterra duas vezes (1940-45 e 1951-55) e ajudaria o país durante a Segunda Guerra de maneira fundamental. Uma parte da polêmica está no fato de que ele é mostrado no período anterior ao de quando seria eleito e acredito que boa parte do público ficou ansiosa por vê-lo com mais destaque dentro do filme. Até porque a importância dele para a Grã-Bretanha só começa a ser explicada. A outra parte é o fato de que o ator ainda interpreta Peter Pettigrew na inacabada saga Harry Potter, um papel marcante negativamente, o que poderia soar como uma crítica velada ao personagem histórico por parte do diretor. A meu ver uma ideia totalmente descabida. O outro papel marcante é o do rei George V, interpretado por Michael Gambon (o atual Dubledore em Harry Potter) com bastante personalidade, o que nos dá uma boa ideia, mesmo que superficial, de como o avô de Elizabeth II deve ter sido.
A trilha sonora é uma atração a parte, encabeçada pelo versátil e talentoso Alexandre Desplat, indicado ao seu quarto Oscar. Novamente ele consegue pegar o espírito da monarquia britânica e traduzir em canções, da mesma forma que fez em A Rainha, em 2007, quando também foi indicado. Sua trilha para O Discurso do Rei abusa da variedade de instrumentos, com muito violino e piano, sem faltar a boa e velha orquestra nos melhores momentos. Uma pequena obra prima. Mas não deve ganhar de novo. Está concorrendo contra nomes que são verdadeiras instituições em Hollywood como Hans Zimmer e John Powell, sem mencionar a dupla vencedora do Globo de Ouro Trent Reznor e Atticus Ross. Páreo duro, o que é uma pena.
O Discurso do Rei é uma obra simples, mas de qualidade; peculiar, mas inteligente; pessoal e passional. O elenco é britânico mas acaba com o mito de que estes não se emocionam ou não se descontrolam. Com um enredo que remete à nobreza, mas mostrando-a pelo seu viés mais humano, a história conquistou o público e a Academia. De uma forma surpreendente e inesperada. Se fizermos um retrospecto dos últimos cinco anos, é fato: o reinado dos blockbusters dentro das premiações está chegando ao fim. Agora é a hora dos filmes independentes e de orçamentos modestos.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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