
O Brasil não está concorrendo a nenhum prêmio no Oscar 2011. Pelo menos teoricamente não. Nosso representante, Lula, O Filho do Brasil, não está entre os cinco finalistas na categoria Melhor Filme Estrangeiro. E não há produções brasileiras competindo em outras categorias. Pelo menos não oficialmente.
Digo isso porque muitas pessoas estão confundindo tudo e dizendo que Lixo Extraordinário representará nosso país no Oscar desse ano. Bem, sim e não. Sim porque é um filme feito no Brasil, com brasileiros, com muitas falas em português e retratando a nossa realidade além de explorar a biografia de um artista nosso, Vik Muniz. Mas, ao mesmo tempo, não, porque é uma co-produção Brasil - Inglaterra, falada também em inglês, e é, para todos os efeitos, um filme deste último país. É o que consta dos créditos oficiais. A diretora Lucy Walker é inglesa. Não é uma obra que pertence a nós. O que é realmente uma pena. Ou seja, se o filme for premiado na categoria Melhor Documentário, pela qual está concorrendo, a estatueta não virá pra cá.
Que bagunça, não? A verdade é que os direitos do filme pertencerem a esse ou aquele país é algo muito complicado, que envolve diversas nuances, principalmente o quanto cada um investiu em dinheiro. No caso de Lixo Extraordinário é mais confuso ainda porque Walker (seus trabalhos mais conhecidos são a série infantil Pistas de Blue e o documentário Blindsight, sobre seis adolescentes tibetanos cegos que escalam um dos lados do Monte Everest) não esteve presente em todo o processo de filmagem e por isso a obra é co-dirigida por Karen Harley (editora de Viajo porque preciso, Volto porque te amo; A Festa da Menina Morta; Baixio das Bestas, entre outros) e João Jardim (dirigiu quatro episódios da série Por Toda a Minha Vida, incluindo os de Elis Regina e Raul Seixas). Nos créditos do filme percebemos a presença de vários brasileiros na equipe técnica, sendo que Fernando Meirelles é um dos produtores executivos. A obra é mestiça, filha de ingleses e brasileiros. O triste é não termos a guarda da criança.
Mas vamos ao enredo, que é muito mais interessante que essa discussão. Vik Muniz é um artista reconhecido internacionalmente e cujos quadros valem muito, por causa da criatividade com a qual os executa. Ele transforma materiais em arte: acúçar, macarrão, xarope de chocolate, arame. Para sua nova mostra, decide iniciar uma experiência diferente, que conciliará a arte plástica com um trabalho social junto a catadores de material reciclável. O artista decide ir a Jardim Gramacho, o maior aterro do mundo em volume recebido, para conhecer os catadores e estimular parte deles a participar do projeto. O documentário acompanha a saga dele rumo a esse seu objetivo.
Uma coisa interessante que o filme revela é que o próprio Muniz já foi lixeiro em lanchonetes fast food nos Estados Unidos, quando lá chegou sem um tostão no bolso. Isso não o impede de ter algumas preocupações um pouco preconceituosas antes de chegar ao aterro, o que logo é superado quando vê tudo de perto. O cenário é caótico e desolador e as pessoas trabalham sem nenhuma proteção. Mas, ao mesmo tempo, são seres humanos sensacionais, organizados em torno da Associação de Catadores da Área Metropolitana de Jardim Gramacho (ACAMJG) e que cumprem uma função muito importante com o seu trabalho: retiram do aterro cerca de 200 toneladas por dia de lixo reciclável, aumentando a vida útil do local. São catadores que tem consciência e orgulho do que fazem, a percepção deles a respeito da vida impressiona, sem contar o fato de que são, ao contrário do que muitos podem pensar, de uma cultura muito rica. Eles são as verdadeiras estrelas do filme e aqueles que dão alma tanto ao documentário quanto aos quadros que o artista cria a partir do que é vivenciado ali.
O processo de transformação do lixo em arte acaba provocando também uma drástica mudança na vida daquelas pessoas, o que gera uma série de conflitos e questionamentos interessantes. Nesse sentido, a sequência da venda do quadro de Tião é muito emocionante, especialmente quando ele desaba a chorar e Vik o consola dizendo "foi você quem fez isso!". Quando todos os participantes tem a oportunidade de verem seus retratos no Museu também é um momento emblemático, ao qual nenhum espectador, por mais cético que seja, consegue ficar indiferente.
Contribui para o ritmo e a emoção do documentário a trilha sonora instrumental original concebida com muita competência pelo músico norte-americano Moby, num trabalho excepcional. No seu conjunto, é um filme muito bem realizado em todos os seus aspectos, que mexe com os nossos valores mais fundamentais como a família, a amizade e o companheirismo. A ligação que se cria entre aquele grupo e o artista acaba se sobrepondo a qualquer barreira: classe social, dinheiro, fama, egocentricidade. Vik abre mão da criação solitária em prol de colher os frutos coletivos, o que enriquece a ele e a nós de uma forma imensurável. Lixo Extraordinário é, acima de tudo, uma experiência grupal, da qual somos participantes privilegiados.
Lixo Extraordinário
Dirigido por Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim (1h 39 min)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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