
Como explicar o fato de O Vencedor ter sete indicações ao Oscar desse ano? Fica realmente difícil dizer. Não que seja um filme ruim, pelo contrário, é bem interessante. Mas não tem, nem de longe, o perfil de uma obra premiada pela Academia. Talvez por causa disso tenha sido apelidado carinhosamente como o "Um Sonho Possível" desse ano. Expressão essa que equivale a "azarão". Para quem não sabe, Um Sonho Possível foi o filme que deu a Sandra Bullock o até hoje bastante discutível Oscar de Melhor Atriz no ano passado. E lembra bastante O Vencedor: personagens fortes, drama pessoal, superação, forte ligação familiar, interpretações de levar parte do público às lágrimas. Ambos bons filmes. Mas nem por isso merecedores de tanta atenção.
Comecemos pelo fato de que David O. Russell está inexplicavelmente indicado a Melhor Diretor, sendo que em seu currículo ele não tem nada de mais relevante. Three Kings e Huckabees - A Vida é Uma Comédia talvez sejam seus trabalhos mais conhecidos. Contando inclusive os curtas-metragens são 8 produções ao todo. Curiosamente, nos dois já havia trabalhado com Mark Wahlberg, que é o protagonista de O Vencedor, além de produtor do filme (inclusive abriu mão do próprio salário). O que se percebe claramente é que Russell ainda não tem uma carreira sólida o suficiente para ter ganho essa indicação.
Quanto às categorias de Melhor Roteiro, Melhor Montagem e Melhor Filme do Ano não há nem muito o que argumentar. Os diálogos são muito bons e há ótimas sequências, mas isso não justifica a indicação a roteiro. Quanto à montagem, não tem nada de mais. E Melhor Filme do Ano? Bem, exagero pouco é bobagem. A coisa começa a ficar séria é quando falamos dos atores, visto que o elenco é muito bom. A real chance do filme e o provável motivo pelo qual ele ganhou todo esse destaque estão na indicação a Melhor Ator Coadjuvante, na figura de um dos atores que experimenta seu mais profícuo momento em Hollywood: Christian Bale. Ele está insuperável. Não tem pra ninguém. Seu Oscar esse ano é coisa certa. Definitivamente uma das interpretações mais memoráveis de toda a sua carreira.
Seu personagem é Dicky Eklund, lutador que teve chance de fazer uma grande carreira dentro do boxe mas sucumbiu à tentação do crack. Mesmo fora de forma ele permanece conhecendo os mistérios do esporte e treinando o irmão mais novo, Micky Ward, interpretado por Wahlberg. A história é sobre este último e como ele conseguiu se superar para dar prosseguimento ao treinamento, o que o levaria a ter uma carreira profícua dentro do esporte. Mas a impressão que temos é que, na verdade, Bale é que é o protagonista, porque ele rouba a cena de tal forma que é embasbacante. A forma como o britânico retrata o relacionamento com seu irmão mais novo e a interação entre os dois atores é de amolecer qualquer coração de pedra. Conforme nos informa o IMDb, Matt Damon e Brad Pitt fizeram testes para o papel e não conseguiram. Ou seja, não teve realmente pra mais ninguém.
Amy Adams não está tão bem assim a ponto de merecer uma indicação a Melhor Atriz Coadjuvante. Já Melissa Leo foi indicada na mesma categoria mais por ter perdido em 2008 com Rio Congelado do que qualquer outra coisa. Sim, é mais um provável prêmio de consolação tardio que a Academia dará. No filme, ela interpreta muito bem a possessiva mãe de Ward e sua empresária, obcecada pelo bem estar dos dois filhos. Curiosamente não tem idade para ser mãe de nenhum dos dois. Mas a maquiagem e a atitude lhe deram bastante verossimilhança e não é tão difícil assim sentirmos antipatia e, ao mesmo tempo, identificação com sua personagem.
Merece destaque o fato de que Darren Aronofsky é o produtor executivo do filme e que desistiu de dirigí-lo para poder dedicar-se justamente a Cisne Negro, com o qual também concorre ao Oscar desse ano. Não me espantaria se me dissessem que foi palpite dele a decisão de filmar no ringue usando a mesma câmera que normalmente faz as coberturas de boxe pelas emissoras norte-americanas. Isso é um pequeno toque de gênio que dá um realismo impressionante aos acontecimentos e uma perspectiva documental das lutas que fica muito bonita na tela e perfeita dentro do contexto construído pelo filme. Ainda não tive a oportunidade de assistir a O Lutador, mas não me surpreenderia se tiver sido feito da mesma forma.
A trilha sonora é composta basicamente por rock 'n' roll com músicas do Led Zeppelin, Aerosmith, Red Hot Chilli Peppers, Rolling Stones, Whitesnake, entre outros. Strip My Mind, do Red Hot, é uma faixa usada de forma muito harmônica num momento particularmente importante para o protagonista, em que ele decide algo importante. No geral as músicas são usadas para pontuar momentos da trama com bastante naturalidade. Nada muito chamativo ou de destaque.
Como podem perceber, O Vencedor é uma obra interessante, mas que sairia no Brasil direto em DVD não fosse tamanho o barulho que a interpretação de Bale causou. Ward foi um grande boxeador, mas a sua biografia gira em torno principalmente do drama familiar que viveu, o que explica o porquê do filme tocar tanto as pessoas. Interessante constatar que um valor tão fundamental quanto a família ainda não saiu de moda numa sociedade tão individualista quanto a norte-americana. É para se refletir.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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