
Darren Aronofsky não é, nem de longe, um cineasta convencional. Seus filmes de início de carreira são para ser encarados como desafio psicológico, mais do que qualquer coisa. Quem aí teve paciência para assistir à sua estreia, Pi, de 1998? Fora os matemáticos, alguém mais entendeu alguma coisa? E quanto a Réquiem Para um Sonho? É uma das obras mais perturbadoras do ano 2000, talvez a que melhor retrate a questão do vício em drogas, com um realismo que chega a doer na gente. Não é, definitivamente, um filme digerível ou para a família. Talvez por isso o hiato de seis anos até Fonte da Vida, obra igualmente complexa, mas interessante. Mudaria da água pro vinho com O Lutador, filme que ressuscitou Mickey Rourke e que o popularizaria como diretor. E agora experimenta um pouco de cada faceta que tem em Cisne Negro, popular mas nem tanto.
Se o leitor conhece balé a fundo, me perdoe, mas eu não. Pesquisando descobri que Tchaikovsky escreveu O Lago dos Cisnes de forma bem diferente da que Aronofsky adaptou para o filme e da que o personagem de Cassel conta aos bailarinos e ao público numa cena em que os dançarinos ensaiam. Fato é que muita gente não deve conhecer a história original, porque, ao longo dos anos, ela foi muito "mexida", adaptada diversas vezes pra filmes, desenhos, seriados e etc. Nesse caso, o diretor escolheu um enredo que fizesse com que a trajetória da protagonista se "encaixasse", digamos assim. De qualquer forma, não faz diferença alguma, mas se você conhecia O Lago dos Cisnes em uma versão diferente, saiba que é por causa disso. Eu, por minha vez, me senti um pouco enganada quando descobri isso mas, ao mesmo tempo, admirei o diretor por sua inventividade e ousadia.
No enredo, Nina (Natalie Portman no papel que lhe dará o Oscar 2011 de Melhor Atriz) é uma dançarina dedicada, tecnicamente perfeita, subestimada pelo dono da companhia de balé (Vincent Cassel) e controlada de perto pela mãe solitária (Barbara Hershey). Quando Beth (Winona Ryder, pequena ponta no filme que foi o suficiente para marcá-la como "come back" do ano. Apesar dela nunca ter parado de trabalhar, mas sempre em pequenas produções) se aposenta, surge a oportunidade dela interpretar a Rainha Cisne em Lago dos Cisnes, um papel com o qual toda bailarina sonha. O problema está no Cisne Negro, ato da peça que é o mais difícil.
Já na primeira cena o filme mostra a que veio. É bom assistir a projeção toda de sobreaviso, preparado para muitos sustos. Inúmeras vezes o sangue inunda a tela, em sequências que não são nada agradáveis de assistir. Tem que ter estômago pra não cuspir a pipoca. É bastante visceral. Nesse sentido, destaque para a cena do dedo no banheiro, medonha demais e à qual ninguém fica indiferente. De se contorcer na cadeira.
Acompanhamos Natalie muito de perto, a câmera está sempre fechada nela, quase em excesso. Aronofsky não tem dó de esfregar na nossa cara tudo o que a protagonista enfrenta. Além disso, a câmera gira muito com ela enquanto dança, balança muito. Tudo sendo visto pelo público tão de perto, com tantos detalhes, faz com que, inveitavelmente, nos identifiquemos e sintamos junto com ela suas dores, seus sonhos, suas emoções mais intensas. Tudo milimetricamente estudado para que, no desfecho, não sejamos em nada surpreendidos. Mas, ao mesmo tempo, consigamos captar a genialidade da coisa.
Portman domina a tela caracterizando-se com perfeição como a "menina meiga", de voz doce e cara de sonsa, controlada e com medo de crescer. A caracterização tanto dela quanto da mãe são propositadamente clichês, o que irritou algumas bailarinas de verdade, entrevistadas pelo The Guardian numa matéria bem interessante. Ainda assim, a evolução de seu personagem é assustadora, com os efeitos especiais se encaixando perfeitamente a serviço da história. A trilha também funciona como uma perfeita peça do quebra cabeças além de ser extremamente bonita, com passagens instrumentais em piano mescladas com trechos mais sombrios que indicam o que vai acontecer. De qualquer forma, injustamente não concorrerá ao Oscar, porque tem como base Tchaikovsky, não foi composta especialmente para a obra.
Mila Kunis também está soberba e aproveita a oportunidade para mostrar todo o seu potencial. Até então era uma atriz de papéis pequenos, mais conhecida pelo seriado That's 70's Show. Contracenou com Denzel Washington em O Livro de Eli. Sua marcante participação nesse filme lhe rendeu justa indicação a Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro desse ano. Atuações de Barbara Hershey e Vincent Cassel também não passam em branco. Me encantou, particularmente, o enquadramento dele no espelho, dividido em dois, justamente quando seu diálogo se referia ao fato de serem dois os cisnes. Um detalhe pequeno, mas que deve agradar os mais atentos. A cena que mostra os pés "se preparando pro balé" também é muito boa. Mas a minha preferida é a da pista de dança, na boate, que é quase uma obra prima de tão bem montada.
No geral, Cisne Negro é assustadoramente genial e funciona, deixando durante dias uma intoxicante e perigosa mistura de Tchaikovsky, Natalie Portman e sangue na nossa cabeça. Sua sequência final é das mais bem elaboradas e, ao mesmo tempo, simples já produzida pelo Cinema, com todas as peças se encaixando exatamente onde deveriam estar. Uma engrenagem complexa, que esmaga a todos nós, perplexos e maravilhados. E não é assim que Aronofsky gosta?

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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