
Florian Henckel von Donnersmarck é praticamente desconhecido do público em geral apesar de seu primeiro grande trabalho, em 2006, ter ganho o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro daquele ano. A Vida dos Outros é um filme alemão maravilhoso, que lembro de ter assistido no cinema e ficado extasiada à época, mal conseguindo pronunciar palavra após a sessão, de tão bestificada que fiquei. A obra é de grande sensibilidade e toca o coração da gente. Realmente recomendo. Lembra um pouco A Conversação, de Coppola, mas com contexto e enredo bem diferentes, com apenas alguns pontos em comum, mas os suficientes para um paralelo ser feito.
Sendo assim, parece muito estranho pra mim, tendo esse filme como base, que o mesmo diretor tenha feito O Turista, indicado três vezes ao Globo de Ouro desse ano (injustamente) e esnobado pelo Oscar (com razão). Mas infelizmente é verdade. No enredo, Angelina Jolie é Elise, uma mulher vigiada pela polícia visto que eles acreditam que o marido, fugitivo, possa tentar entrar em contato com ela, o que de fato acontece. As ordens dele são claras: ela deve encontrar um homem no trem e usá-lo como isca, fingindo que ele seria o marido, mas com o rosto modificado. O "sortudo" escolhido é Frank, um professor de matemática, interpretado por Johnny Depp.
Veneza é linda, Angelina também. Ambas parecem fazer parte da história apenas como adorno. Enquanto da cidade italiana vemos suas belas paisagens, de Angelina somos obrigados a aturar muitos closes na bunda, algo pra mim terrível, uma "objetificação" de uma grande atriz que já provou ser muito mais do que apenas um pedaço de carne. Os diálogos são bem fracos e os dois personagens nos são apresentados como pessoas "comuns", o que faz com que as cenas de ação tenham de ser "simplificadas", algo um pouco frustrante pra quem vai esperando um filme com mais ação. E também não se deve ter altas expectativas quanto ao romance entre os dois já que as cenas do casal protagonista são bastante insossas. Para quem já assistiu Sr. e Sra. Smith, reparem a diferença gritante entre a cena da dança dos dois filmes. Dela com Pitt e depois com Depp. É um abismo. Claro que posteriormente ela viria a se casar com o primeiro. Mas isso não vem ao caso.
Não é uma obra de todo ruim. O começo tem até alguma tensão, Angelina está bem, domina a cena. Os desdobramentos de seu personagem posteriormente explicam melhor suas atitudes e não chegam a ser surpreendentes, mas tornam as coisas um pouco mais interessantes. O climax é bom. O desfecho, porém, fica aquém daquilo que é potencializado durante todo o filme. No todo, é pouco crível, tendo em vista as situações mostradas e os atores escolhidos para viver tais papéis. No caso de Depp, por exemplo, esse é um personagem muito diferente dos quais costuma fazer, seus protagonistas são sempre figuras muito peculiares. Mas até que, apesar dos pesares, o longa consegue entreter, pelo menos até certo ponto da narrativa. Depois acaba aborrecendo.
O Turista talvez funcionasse com elenco diferente. Brangelina (como Hollywood chama o casal Brad Pitt - Angelina Jolie) seria uma boa opção. Um outro roteiro também não faria mal a ninguém. Desejo melhor sorte a von Donnersmarck no próximo longa, espero que seja um trabalho mais autoral, que reflita melhor o talento que sei que tem.
O Turista
Dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck (1h 43min)
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Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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