
Pablo Trapero é um produtor e diretor argentino que iniciou sua carreira na década de 90. Pouco conhecido no Brasil, seu trabalho mais relevante entre nós foi Leonera (2008), a história de uma universitária que vai presa grávida, vivida pela atriz Martina Gusman. A relevância do trabalho para a mídia brasuca se deve a dois fatos: primeiro, Rodrigo Santoro está no filme, em mais um longa que confirma a solidez de sua carreira internacional; segundo, a obra foi indicada à Palma de Ouro em Cannes, um reconhecimento global de peso do diretor, até então com boa parte de suas premiações obtidas em festivais latino-americanos.
Abutres é o primeiro longa que o cineasta filmou desde então. Estrelado por Ricardo Darín, foi exibido na mostra Un Certain Regard em Cannes nesse ano. O protagonista é um dos atores sobre o qual mais se tem falado atualmente. Darín estrelou O Segredo dos Seus Olhos, o premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010 que fez a proeza de tirar um prêmio quase certo das mãos de Michael Haneke. O que não foi pouco. O ator repudia Hollywood, o que o faz ser ainda mais centro de atenções e especulações. Sequer foi à cerimônia do Oscar. Rechaça qualquer ideia de fazer um filme na grande indústria. Prato cheio para a mídia.
E, para completar, é um ator como poucos. Em seu rosto está toda a história dos personagens que interpreta. Apenas focalizando-o a câmera consegue nos passar tudo o que se passa na mente de seu protagonista. Não é uma coisa fácil para nenhum ator fazer. Somente a câmera e ele. Não é preciso mais nada. Em Abutres, Darín é Sosa, um advogado que se aproveita de um peculiar contexto argentino: nesse país, acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre jovens abaixo dos 35 anos. É quase um problema de saúde pública. O que movimenta uma grande indústria, a das indenizações. O advogado está "trabalhando" em mais um acidente quando a paramédica Luján (novamente Martina Gusman trabalha com o diretor) cruza seu caminho. Desse momento em diante a vida de ambos nunca mais será a mesma.
De cara já somos apresentados à realidade do protagonista e ficamos com a tendência de não gostar dele. Algo totalmente intencional por parte do diretor, claro. Aos poucos vamos entendendo o panorama como um todo. É um filme de ritmo mais lento, com um timing mais pausado. Os personagens pensam. E você os vê pensando. Não tenha pressa. Nenhum deles tem.
Os movimentos de câmera são fascinantes porque Trapero escolhe ângulos irregulares e incomuns, que tornam tudo mais interessante. Como na cena em que os protagonistas estão num café e olham pelo vidro para a rua. A câmera está do lado de fora e os coloca no extremo do campo direito, tirando o local onde estão do foco e forçando o espectador a olhar para um lado no qual normalmente cenas em geral não concentram suas ações. Chega a ser incômodo para quem assiste! Mas porque não explorar isso? Também há um pequeno plano sequência no qual a câmera segue a jovem médica, para pra que ela possa diálogar e depois continua seguindo-a, mas de frente.
O uso do primeiríssimo plano em momentos de sofrimento e união, sem hesitar em mostrar tudo, dá bastante força às principais cenas e, por consequência, à obra como um todo. Isso somado à fotografia escura cria uma atmosfera de desolação e solidão, sombria mesmo, especialmente nas muitas sequências filmadas à noite. E há dois momentos em particular em que o espectador sente, literalmente, o impacto desse desespero, novamente criado pela forma que o diretor opta em filmar, num ápice sensacional.
A trilha sonora começa bem, com um rock progressivo, e aos poucos vai se diluindo no som ambiente do filme, numa música num bar ou numa balada triste, meio lenta, com violino, que contrasta com o ritmo da cena na qual é tocada. No geral, não tem nada de mais e talvez por isso seja tão boa, deixa os atores à vontade para serem eles mesmos a alma da história. Não chama a atenção nem se destaca. É uma obra no qual o sucesso depende muito de como os atores darão vida aos personagens, é um drama muito humano, cuja comoção na plateia exige muito do elenco. Acredito que, nesses casos, a trilha mais modesta funcionou perfeitamente.
Abutres é um filme argentino que dialoga com o povo desse país, mas também com pessoas de outras partes do mundo por tratar de questões universais, especialmente a ganância. A forma como é concebido nos faz pensar, nos incomoda, nos leva a refletir. Sombrio e, ao mesmo tempo, encantador. Uma obra complexa, assim como são os relacionamentos humanos.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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