
Já ouviu falar de alguma coisa que o diretor Burr Steers tenha feito? Eu já. Infelizmente. Esse cara, sobrinho de Jacqueline Kennedy, fez um personagem em Cães de Aluguel e em 2002 dirigiu A Estranha Família de Igby, que tive o desprazer de assistir. Protagonizado por Kieran Culkin (isso mesmo, irmão de Macaulin e que vimos retomar a carreira recentemente em Scott Pilgrim), essa obra está na minha lista de piores de todos os tempos. Tão bom o filme era que o cara só voltou a dirigir pra cinema em 2009, com 17 Outra Vez, um desses filmes já batidos que mostra pessoas adultas voltando a ser adolescentes. Por ser protagonizado por Zac Efron, deu ao cineasta alguma visibilidade. E agora ele retorna pra detrás das câmeras com A Morte e Vida de Charlie.
Em defesa do filme só posso dizer que poderia ser ainda pior. É previsível, bobo, romanceado demais, mas tem os seus momentos. Não seria exagero dizer que é uma espécie de Chico Xavier gringo direcionado às adolescentes que adoram sonhar com abdômens definidos. Substitua o espiritismo pelo catolicismo e um idoso que psicografa por um jovem que joga beisebol com o irmão morto e aí está! Bem parecidos mesmo. No entanto, Zac Efron não interpretou um personagem verídico. O livro homônimo no qual o filme se inspira, escrito por Ben Sherwood, é uma ficção. Taí a diferença, que deixa a produção brasileira ainda pior.
Mas vamos ao enredo! Como diz a sinopse, Charlie perdeu o irmão e, para manter seu laço com ele, decide se tornar coveiro no cemitério onde o garoto foi enterrado. E é isso aí. Não posso contar mais, para não estragar as 'surpresas'. A má notícia é que, bem, se você prestar um pouco de atenção, não há surpresas! A não ser que você considere a tentativa de Steers em ser um Shyamalan de quinta categoria como algo inusitado. O que, de fato, não é. O que posso dizer a favor do argumento da obra é que, apesar de envolver religião, consegue manter o interesse do público disposto a se envolver com a história e se sensibilizar com a atitude 'sou-infeliz-e-incompreendido-mas-sou-bonitão-me-amem' do protagonista. E, porque não dizer, de Zac Efron.
Zac se consagrou ídolo pela Disney, tanto nas séries de TV desta quanto nos filmes da série High School Musical. Está mais velho agora e é natural que tenha interesse em manter as fãs que o acompanharam desde jovem, além de querer arrebanhar novas com seus olhos verdes. Fato é que estão investindo na sua carreira de ator e, talvez por causa disso, lhe deram esse papel, no qual o sucesso do filme depende basicamente de sua atuação. Talvez desse um bom Super Man, com seus olhares melancólicos cheios de pose. Nem mesmo quando chora ou está desesperado consegue se despir de sua máscara de perfeição, o que é uma merda. Todo bom ator sabe que é às vezes é preciso incorporar o pior de nós para interpretar, ainda mais algo tão dolorido como a morte de um irmão. Bom, nem mesmo o roteiro o ajuda a se esforçar nesse sentido, com mulheres babando por ele o tempo todo e ele sendo obrigado a tirar a camisa teatralmente pra entrar numa água geladíssima, que o mataria se ele fosse uma "pessoa comum". Ele está surpreendentemente sério, isso é fato. Mas mais pro final do filme fica difícil continuar acreditando nele e tudo despenca impiedosamente. Essa obrigação de ser protagonista, galã e herói acabam com o personagem.
A culpa é do roteiro também, que não sabe estabelecer os seus pontos-de-virada. Para quem não sabe, ponto-de-virada é quando a trajetória do personagem sobre uma alteração, que o levará por outros caminhos na trama. Nos roteiros para Hollywood, existem pelo menos dois: um aos primeiros 30 minutos de filme e o segundo aos 30 últimos. Bem, o verdadeiro ponto-de-virada, na minha opinião, acontece em torno de uma hora de filme. E o segundo logo em seguida! Fica tudo confuso, mal feito e previsível. E não, eu não considero a morte do irmão o primeiro ponto-de-virada. Ela está na sinopse, poxa! Que merda é essa? Para quem está assistindo, é quase como se o protagonista estivesse seguindo o seu curso normal! Não vejo sentido algum nisso, sinceramente.
Participações de Ray Liota e Kim Bassinger apenas despertam o interesse da gente e não chegam a ser marcantes. Ver Liota, que é a alma de Os Bons Companheiros, reduzido a um velhinho devoto de São Judas Tadeu chega a ser sofrível. Mas todo mundo tem que comer, não é mesmo? Não os condeno. Como acontece com 99% das estrelas, Hollywood cospe no prato que come. E aí a pessoa se vê obrigada a esse tipo de coisa.
A Morte e Vida de Charlie mostra que Efron talvez tenha algum potencial se, como aconteceu com Di Caprio, passar a trabalhar com as pessoas certas. Mas acho isso complicado de acontecer. Talvez ele tenha de se despir de sua marca registrada de galã e interpretar um vilão impiedoso, um psicopata ou um louco. Acho mais fácil ele fazer uma ponta na saga Crepúsculo e depois ser descartado, como já aconteceu com tantos meninos-prodígios, engolidos pela grande indústria. Veremos qual caminho escolherá.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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