
Já ouviu falar do cineasta romeno Radu Mihaileanu? Apesar de já ter sido indicado, em 2001, ao prêmio da Academia Brasileira de Cinema por Trem da Vida (1998), na categoria Melhor Filme Estrangeiro, esse diretor é desconhecido por aqui. Seu novo trabalho, O Concerto, estreia impulsionado por um enredo regional, mas interessante. É um filme russo que optou por apresentar características que só dialogam com seu público de origem, especificamente.
Exemplo disso é o seu enredo e a forma como foi escolhido abordá-lo. O maestro Andrey (Aleksey Guskov) esteve, durante a Segunda Guerra, à frente da Orquestra do Bolshoi, uma das melhores do mundo, mas foi destituído devido a problemas políticos e se torna o faxineiro da companhia. Quando descobre uma viagem da companhia a Paris, vê nela oportunidade de se vingar. Com a ajuda do amigo Sasha (Dmitri Nazarov) reúne antigos colegas, para um último concerto, esse do título.
A obra, que foi indicada ao Globo de Ouro desse ano na categoria Melhor Filme Estrangeiro, retrata com bom humor uma série de particularidades de uma Rússia que enfrentou um duro regime, mas, ao mesmo tempo, tenta se modernizar perante a globalização mundial, tarefa complicada quando se tratam de pessoas que pararam no tempo, como os membros da orquestra e o líder de um agora enfraquecido Partido Comunista, interpretado por Valeriy Barinov. Uma série de referências é feita, como as estátuas de Lênin sobre a mesa desse personagem e menções à caça aos judeus feita pelo Nazismo. Também o fato de salários estarem defasados, certos hábitos profissionais não terem sido incorporados pelos músicos, entre outros pequenos detalhes, vão dando um certo ar desorganizado a esse Bolshoi, o que torna o enredo inverossímel, no final das contas. Ainda assim, é uma história interessante e esta orquestra que tenta se reconstruir pode perfeitamente servir de metáfora para o seu próprio país, já que ambos se veem obrigados a entrar no século XXI.
É um filme que tem seus momentos engraçados, apesar de ser um pouco tosco no resultado. Bem executado, o enredo traz atuações sérias e comedidas, mas apaixonantes. Pelo menos no começo. Da metade pro final, à medida que todas as questões pontuadas ao longo da projeção precisam se resolver, a impressão que temos é que há um certo ar de desespero e o elenco todo parece perdido, com todos os conflitos sendo solucionados "à toque de caixa". Faltou um ritmo mais ponderado, que pudesse dar à história o tempo necessário para que ela se resolvesse por si mesma, o que valorizaria o tão esperado desfecho.
Destaque para a sequência de busca pelos músicos, com direito a dublagem para filmes pornôs e até mesmo dança cigana, englobando situações bizarras que são inevitavelmente cômicas. A atriz Mélanie Laurent (a Shosanna de Tarantino em Bastardos Inglórios) também é um ponto a ser ressaltado no filme, já que desempenha bem o seu papel, apesar de um tanto afetada, mas nada que o próprio roteiro não esteja exigindo dela.
O Concerto é uma obra leve, bastante palatável, que deve agradar ao público, apesar de não ter nada de mais. Ainda assim, todos gostam quando a música de Tchaikovsky toma a cena pra si e torna todo o resto um mínimo detalhe. Para amantes de música clássica, o enredo serve para entendermos um pouco a respeito do funcionamento de uma orquestra: trabalho coletivo no qual é indispensável a união dos talentos individuais.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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