
Como diretora-assistente, cargo secundário na produção de Cinema, Julie Bertucelli tem mais experiência do que como cineasta, em produções como A Liberdade é Azul e A Isca, ambas da década de 90. A Árvore é o terceiro filme que dirige, a primeira produção internacional, feita através da parceria Austrália-França. Os outros dois eram filmes de menos recursos, sendo que o primeiro foi um documentário pra televisão.
Independente da relativa inexperiência atrás das câmeras, ela foi a escolhida para adaptar para filme pela primeira vez o livro de 2002 Our Father Who Art in the Tree, da escritora australiana Judy Pascoe. A obra já foi interpretada no teatro e atualmente se encontra fora de impressão na Grã Bretanha. O livro está disponível em diversas línguas, mas ainda não foi lançado no Brasil.
Para aqueles que por ventura já o tenham lido, a principal diferença para o filme é o ponto de vista do qual a história é contada. Simone (Morgana Davies) é a narradora, uma garotinha que acredita que o espírito do pai esteja na árvore do jardim de sua casa. O filme, que foi exibido em 2010 fora das mostras competitivas em Cannes, "dilui" essa ideia do narrador, sem colocar voz em off nem nada, optando pela sábia perspectiva onipresente. Ou seja, vemos tudo o que acontece por nós mesmos, ninguém nos conta. Observamos tudo, inclusive os pensamentos e anseios dos personagens. Dessa forma, o filme, que já trata de um tema difícil e truncado por natureza, flui melhor.
Reforço: não é uma obra fácil de assistir. O ritmo é lento, o tema é difícil. Uma família que se recusa a seguir com a vida depois de perder de forma inesperada e trágica o patriarca. Uma mulher que sofre o luto pelo único amor de sua vida. Filhos que precisam cuidar de si mesmos. Uma garota jovem demais para absorver o que é perder um pai.
Charlotte Gainsbourg é Dawn, a mulher que precisa enfrentar o mundo e a dor da perda. Esse é o segundo filme que assisto com a atriz e cantora, o primeiro foi Anticristo, pelo qual ela foi premiada em Cannes em 2009 como Melhor Atriz. Ela é tão competente cantando quanto interpretando. Ao que tudo indica herdou tanto o talento do pai Serge quanto da mãe Jane Birkin. Mas em ambos os papeis está visceral, sem maquiagem, expressiva, melancólica, como os personagens demandam. Seria interessante vê-la numa comédia romântica ou algo do tipo. A seriedade de seu semblante deverá ser desafiadora em papéis diferentes desses dois últimos. De qualquer forma, a tristeza, a dor e a vontade de seguir em frente apesar de tudo são sentimentos retratados por ela no filme, que acaba por representar um desafio com o qual todos nós temos de lidar um dia: seguir em frente mesmo depois de perder quem amamos.
Merece destaque também a atuação da jovem Morgana Davies, que chega a nos irritar com sua persistência quase doentia em acreditar que o espírito do pai se encontra na árvore do jardim de sua casa. Muitas jovens mães se sentirão com ganas de esganar a menina, por causa da relação que esta cria com a árvore, que vai muito além de um "luto saudável", se é que tal coisa existe. É admirável a forma como Gainsbourg interpreta uma mãe que consegue, apesar de tudo, respeitar os sentimentos da filha e a força da relação que esta mantinha com o pai, chegando a duvidar de suas próprias convicções ante a fé inabalável da garotinha.
O roteiro é relativamente previsível e a forma como a história nos é apresentada é um bocado irritante mas não menos interessante. Não é difícil para qualquer um de nós se identificar com o enredo, de uma forma que será inevitavelmente dolorosa para alguns. A trilha sonora instrumental de Grégoire Hetzel é belíssima, com destaque para a faixa "To Build a Home", que rola durante os créditos finais. Muito triste, mas muito poético, A Árvore não deixa de ser uma grande metáfora da vida. Mesmo que nos recusemos, sempre somos forçados a recomeçar, apesar de tudo.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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