
Tony Scott pode não ter um nome tão famoso entre os brasileiros quanto o do irmão, Ridley Scott, mas ainda assim não é nenhum iniciante. Dirige desde a década de 70 e é responsável por clássicos como Top Gun - Ases Indomáveis, Fome de Viver, Um Tira da Pesada II e Dias de Trovão. Seus novo filme, Incontrolável, apresenta certa semelhança com a obra anterior, O Sequestro do Metrô 123, de 2009. Ambos tem enredo que giram em torno da velocidade sobre os trilhos.
As duas produções também tem em comum o fato de serem protagonizadas por uma dupla, sendo que um dos atores dessa dupla, nos dois filmes, é o mesmo: Denzel Washington. Ele é um dos dois favoritos do diretor (o outro é Christopher Walken), que sempre escala um ou outro quando tem chance. Nesse caso, tem contado com Denzel para fazer a figura chave heróica, algo no qual ele é bastante experiente. Na produção de 2009, o ator é membro da companhia férrea que administra o metrô e negocia com o sequestrador pela libertação de reféns. Em Incontrolável, Washington faz uma espécie de figura paterna, mais experiente, que com sua sabedoria saberá agir na hora certa. Quando o vemos contracenar com o jovem Chris Pine (o Kirk do recente Star Trek), um condutor novato, isso é ainda mais reforçado.
Antes de falar sobre o filme, cabe abrir um parênteses quanto ao enredo. A história é "inspirada em fatos reais", sendo estes o que os norte-americanos chamaram de "CSX 8888 incident", quando um trem de carga da companhia CSX atravessou o estado de Ohio desgovernado em 2001 carregado de fenol líquido. Isso de fato aconteceu. Mas há evidente exagero na forma como a história foi retratada na obra, por um motivo bem simples: a empresa não autorizou o uso de detalhes da história como nomes dos funcionários ou detalhes sobre o acontecimento. Na verdade, o público só ficou sabendo do fato através de um relatório que a própria empresa emitiu, resumindo bem superficialmente tudo. E nem foi nada de mais. O que Scott e o roteirista Mark Bomback fizeram foi pegar um argumento bem simples e criar em cima, com uma razoável fidelidade ao que ocorreu, bem amarrada em ficção de qualidade. Não há nenhum demérito nisso e está longe de ser a primeira vez que fazem isso.
Até porque a obra consegue tirar de um enredo batido uma aventura bem emocionante e eletrizante, com bom ritmo, uma espécie de Velocidade Máxima melhorado, com direito a uma excursão de crianças em perigo de bater de frente contra o trem desgovernado. Washington, como já disse, é um experiente maquinista, que divide a cabine com o novato Will (Chris Pine) e tem um trabalho a fazer, levar uma carga de uma cidade a outra. A rotina de ambos é interrompida pela notícia do trem desgovernado, que, conforme o título, está incontrolável à toda velocidade, sem maquinista e sem freios.
Além de exagerado na medida certa para um filme de ação, o enredo também está romanceado, com direito a mocinhos e bandidos. As atuações da dupla central estão razoáveis, nada memoráveis, mas também não comprometem. Na verdade, não há muito tempo para que comprometam. A força das imagens mostradas e a câmera girando por quase todo o filme em 120 e 360 graus são os grandes responsáveis pelo emocionante desenrolar da trama, com direito a trilha sonora instrumental bem característica de aventura e, em alguns momentos, de filmes de terror, com aqueles teclados que de tão agudos parecem perfurar a gente. As câmeras não param um minuto, registrando tudo o que acontece dentro e fora dos trens, com cortes rápidos e secos.
A impressão que temos é de que também estamos em alta velocidade, vamos junto com o trem desgovernado. Na verdade, o desenrolar da trilha parece seguir o próprio ritmo de um trem: no começo, slow motion mostrando os vagões, em claro contraste com o que será o resto do filme. Depois, um despertador que toca e o acordar da cidade de Stanton sincronizado com o do condutor. Bem lentamente vamos conhecendo os protagonistas. E aí o ritmo começa a aumentar gradualmente, até quase o descontrole total, deles e nosso.
Incontrolável tem o mérito de ser um filme de enredo simples e batido bem executado e que nos dá elementos suficientes para quase uma hora e quarenta de entretenimento puro, sem nos entediar ou aborrecer. Pode até ser um pouco exagerado, mas é tudo em nome da diversão. Creio que Tony Scott acredite que um pouco de velocidade não faz mal a ninguém. E eu diria que ele está certo.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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