
Com mais de 40 roteiros escritos para Cinema e TV, um deles premiado com o Oscar, Paul Haggis é um experiente roteirista e sempre teve em Hollywood uma carreira muito mais consistente nesse sentido. Fez sua primeira experiência como diretor em 1993, com o filme Red Hot, sobre uma banda de rock na Rússia, que não deu lá em grande coisa. Depois disso, dirigiu séries de TV e filmes para a televisão, com destaque para a série Family Law. Mais de dez anos depois, nova tentativa como cineasta e seria justamente com Crash - No Limite, premiado com o já citado Oscar de Melhor Roteiro e também com o de Melhor Diretor, o que o consagraria na nova função. O filme que dirigiu em seguida, No Vale das Sombras, teve Tommy Lee Jones indicado ao Oscar de Melhor Ator e isso, de certa forma, serviu para confirmar o seu talento.
Por isso, foi colocado para dirigir 72 Horas, refilmagem do francês Pour Elle, tendo Russell Crowe como protagonista e um orçamento de US$ 35 milhões para dar vida à história de um homem que, inconformado com a prisão injusta da esposa, prepara a fuga dela da prisão. Professor universitário, ele não sabe nada sobre o assunto e busca os conselhos de um ex-fugitivo (Liam Neeson), que encontra ao fazer buscas pela internet. A partir daí, começa um minucioso planejamento e estuda passo a passo quais serão as suas ações.
Você deve estar imaginando que este é mais um blockbuster de ação e, se isso passou pela sua cabeça, está certo. Talvez por causa disso, dessa fórmula que já está um tanto desgastada, o filme tenha ido tão mal nas bilheterias norte-americanas (fez pouco mais de US$ 20 milhões, ou seja, não chegou a se pagar). Fato é que o enredo é bastante convidativo à reflexão e talvez fosse mais interessante se a história seguisse por outros caminhos, ao invés de optar pelo mais fácil. Também é preciso observar que poucas produções tratam a sério os temas que ele aborda, especialmente a rotina de ter um parceiro preso, o que tornaria tudo ainda mais interessante caso a obra seguisse por rumos inesperados e um pouco mais profundos. Mas isso não funcionaria em Hollywood. E talvez também não funcionasse com Crowe. O que torna a produção um simples desperdício de dinheiro.
O filme não tem bom ritmo, te deixa ansioso e desejando que acabe logo. Você não se diverte assistindo, apenas quer que termine, o que é ainda pior do que ficar entediado. Os protagonistas não são cativantes, são dúbios, mas não de um jeito inteligente e sim de uma forma que te "tira" do universo construído pelo filme. O diretor fica o tempo todo "brincando" com o espectador, colocando em dúvida a inocência da mulher (Elizabeth Banks, de Pagando Bem Que Mal Tem? e W.) e usando a música instrumental orquestrada para imprimir tensão nas cenas, de uma tal forma que a trilha acaba se tornando um zumbido de fundo muitas vezes insuportável. Os últimos 30 minutos de filme são de muita ação, mas, ao invés de momentos inesquecíveis, temos todas as peças do enredo se encaixando de forma estranha e inverossímel. A emoção proporcionada não é mérito de atuação ou roteiro, mas basicamente de logística sendo que a montagem, com cortes rápidos e secos, ajuda bastante.
Brian Dennehy, o ator que faz o pai de Crowe, é bom, aparece pouco, mas tem presença marcante. Seu personagem e o do protagonista ensaiam algum conflito a ser trabalhado na obra, insinuação essa que acaba sendo "desperdiçada". Isso porque acredito que mais interação entre ambos poderia ter resultado melhor para o enredo.
No final das contas, 72 Horas é um filme mediano, principalmente porque tem um argumento muito fraco. Ideia boa, meio clichê mas interessante, porém mal executada. E, na minha opinião, ainda deturpa de forma imperdoável a ideia por detrás de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, de uma forma tão fraca e injustificada que aquilo que o protagonista usa do livro para "desculpar" suas ações pode ser usado igualmente para torná-las absurdas.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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