
Anton Corbijn tem carreira consistente como diretor de videoclipes musicais. Quem aí não se lembra do histórico Heart Shaped Box, que consagrou o Nirvana quando esta banda estava no auge de seu sucesso? U2. R.E.M e Depeche Mode também são bandas para as quais já dirigiu vídeos e até mesmo longas-metragens, normalmente registros ao vivo de suas turnês. Em 2007, dirigiu sua primeira ficção, Control, na qual contava a história de Ian Curtis, falecido vocalista do Joy Division. Saindo da temática ligada à música e demonstrando ser um cineasta de sensibilidade, o neozelandês nos presenteia agora com Um Homem Misterioso, inspirado em novela do autor britânico Martin Booth.
No filme, Jack (George Clooney) é um homem em fuga pela Itália. Em ótima interpretação, o ator encarna um protagonista diferenciado dos que normalmente faz, deixando para trás o típico bom-humor e incorporando com perfeição uma alma atormentada pelo seu passado, triste, melancólica. No seu semblante de preocupação está o segredo para que o filme funcione e é importantíssimo para que possamos acompanhar a trajetória do personagem.
Os ângulos amplos, que valorizam as inúmeras paisagens do filme e sua belíssima fotografia, também dão o dimensionamento exato do isolamento no qual o protagonista se encontra, dando ao público uma ideia de opressão, reforçada por inúmeros closes no semblante preocupado de Clooney ao longo do filme. A trilha sonora instrumental reforça ainda mais a agonia do fugitivo, que se torna a nossa, por consequência.
Vale destacar o quanto a música valoriza o filme, trabalho do compositor alemão Herbert Grönemeyer, de uma sensibilidade embasbacante. Grönemeyer é grande amigo do diretor, foi ator em apenas uma produção nos anos 80 e decidiu dedicar-se à carreira musical. O resultado foi fantástico: dois de seus discos figuram entre os mais vendidos de todos os tempos na Alemanha. Pena que Hollywood ainda não tenha descoberto o seu talento.
Levemente melancólica e bastante harmônica, com valorização especialmente do piano, a trilha instrumental é em grande parte responsável por dar o clima certo à produção, gerando tensão, juntamente com o trabalho de Clooney, nos momentos em que ela é mais necessária.
Interessante reparar também em como Corbijn faz duas singelas homenagens ao cinema italiano, já que a história tem como cenário o interior deste país. Filippo Timi, um dos grandes atores italianos da atualidade, que fez Mussolini de forma impecável em Vencer, aparece rapidamente como um mecânico, num papel que obviamente subestima suas habilidades mas que não deixa de ser, ao mesmo tempo, uma forma de valorizar essa nova e profícua recente safra de filmes italianos, que ele representa. Quando Clooney entra em um restaurante, outra homenagem, mas aí ao que este cinema já representou no passado para a sétima arte mundial, com a exibição de Era Uma Vez no Oeste, de Sérgio Leone, na TV do estabelecimento. Quanto à importância do filme e do cineasta, desnecessário comentar, não é verdade?
Um Homem Misterioso faz jus ao seu título, pela forma como é construído. Símbolos e questões em aberto são colocados para o espectador, que fica encarregado de montar o quebra-cabeça. Enquanto isso, Corbijn vai se consolidando, ao longo da uma hora e 40 de filme, como um diretor competente também na ficção. Ainda que se apoiar na trilha musical prossiga sendo uma necessidade sua como realizador.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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