
José e Pilar é o quarto filme que Miguel Gonçalves Mendes dirige, sendo o segundo documentário. Porém, devido à sua qualidade, este é, com certeza, um filme que marcará sua carreira. Produção em conjunto da O2 Filmes, Jumpcut (produtora portuguesa) e El Deseo, (produtora espanhola) a obra foi premiada na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, como Melhor Documentário, escolhido pelo voto dos espectadores. A premiação, obviamente, não foi à toa.
Com bastante humor e, ao mesmo tempo, fiel ao que foi o cotidiano do escritor entre os anos de 2006 e 2008, José e Pilar traz um retrato emotivo e cativante da rotina de um escritor polêmico, por nunca ter perdido tempo medindo suas palavras ou disfarçando suas opiniões, o que dispertou a ira de muitos. Ainda assim, o filme é cheio de doçura e afeto, tanto para a mulher Pilar quanto para o próprio público, espectador privilegiado de flagrantes que variam do tedioso ao inacreditável. Conhecemos um lado de Saramago que era acessível a poucos. Isso graças a uma câmera muito discreta e, ao mesmo tempo, quase onipresente. Em alguns instantes do filme, o público chega a se esquecer de que está assistindo. A impressão é de que o protagonista conversa conosco. Tudo graças à forma como foi registrado, roteirizado e montado, com o objetivo de se aproveitar os melhores momentos capturados no cotidiano de Saramago, em seu lar.
Destaque também para a ótima trilha sonora (com músicas compostas e interpretadas por brasileiros, portugueses e espanhóis, entre outros), o uso de montagens com falas do escritor e sua esposa, intercaladas com algumas imagens granuladas; e interessantes elipses, a exemplo daquela que mostra a "viagem do elefante", um brinquedo simpático. Também há dois momentos bastante emocionantes do filme que não podem deixar de ser ressaltados. O primeiro é quando Pilar explica veementemente o porquê do uso da palavra Presidenta (e aqui está o motivo pelo qual o filme é indispensável aos brasileiros, especialmente nesse momento em que o voto está fresco na mente). Nessa hora fica mais do que óbvio o porquê de ser ela a esposa de Saramago e o quanto é uma mulher de brilho e méritos próprios. O segundo registro é já bastante conhecido, mas ainda assim indispensável: quando acaba a projeção de Ensaio sobre a Cegueira e o autor está em prantos, maravilhado com a realização de Meirelles de seu livro. A reação tanto deste quanto a conversa que tem com o cineasta também enchem de lágrimas os olhos do público.
Para admiradores ou não da obra do mais sincero escritor da língua portuguesa, José e Pilar é, acima de tudo, a imortalização de uma grande história de amor, em diversas nuances. É uma paixão que abrange mais do que apenas um homem e uma mulher. São alegrias, tristezas, dúvidas, obstáculos e sonhos, tudo construído junto, de uma forma que qualquer pessoa consegue facilmente se identificar com a trajetória.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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