
Giuseppe Tornatore volta a fazer singela homenagem ao Cinema em seu mais recente filme, Baaria - A Porta do Vento. A história se passa na cidade de Bagheria, que fica próxima a Palermo, na Sicília. É uma obra em parte autobiográfica, que mostra 3 gerações de uma família italiana, dos anos 30 aos 70, e as mudanças pelas quais a sociedade passou nesse período. O protagonista em boa parte do filme Peppino Torrenuova, um jovem de gênio difícil e idealista. Curiosamente, Bagheria foi a cidade onde o diretor nasceu e um dos seus apelidos é Peppuccio, mas, ao contrário do que se pode deduzir apressadamente, o filme não é, em sua integralidade, a história da vida dele. Podemos identificar na obra elementos comuns aos filmes de Tornatore, sendo possível inclusive fazer paralelos com seu maior sucesso até hoje, Cinema Paradiso.
Comecemos pelo mais óbvio: a cena em que o jovem Peppino segura negativos de filmes contra a luz e começa a citar, a partir das cenas que vê, o nome dos filmes aos quais correspondem cada pedaço de película. É uma referência explícita a Totó, o garoto de Cinema Paradiso que colecionava pedaços de filmes que eram cortados durante as projeções. Menos escancarada está, durante toda a projeção de Baaria, o retrato que o diretor faz das várias fases do cinema e sua evolução: primeiro mudo, com narrador e pianista, depois dublado com o som da língua italiana e, por fim, culminando na chegada da televisão na casa das pessoas. Sutilmente o cinema muda, junto com as vidas dos protagonistas.
Outro ponto em comum, aí já mais difícil de identificar, é a importância que o diretor dá, nos dois filmes, às figuras coadjuvantes na história, que acabam por marcar as obras com suas peculiaridades. Da mesma forma que o cotidiano de Cinema Paradiso é marcado pelo louco que perambula pela praça da cidade dizendo "A praça é minha!", em Baaria temos um vendedor, que fica também numa praça, gritando todos os dias "Compro dólares!". A medida que os anos avançam, o grito muda. Passa a ser "Comprem caneta Bic!". A decadência, o progresso, a passagem do tempo, tudo se reflete nas rugas do vendedor e na mudança de sua frase. Os dois personagens são marcas de suas épocas nos dois filmes.
A princípio o público tem a impressão de que não há ordem cronológica em Baaria. Esta vai se estabelecendo aos poucos, mesmo que de maneira um pouco confusa, mas suficiente para que o espectador entenda. Há pitadas de surrealismo por todo o filme, sendo recorrente a temática do sonho, que lembra um pouco Buñuel. Predominam os fade outs (escurecimento da tela para passar de uma cena a outra), travellings e elipses interessantes, pouco sutis, mas que funcionam. As paisagens são apresentadas em ângulos abertos e médios. A montagem neste filme adquire uma importância enorme porque é ela quem dita o ritmo e determina o entendimento da história mas, acima de tudo, é ela que faz da obra uma sucessão de lembranças confusas, num fluxo em profusão que lembra bastante o próprio processo humano de memória. Não podem deixar de ser mencionados, nessa perspectiva, os créditos finais, que são ilustrados com imagens de arquivo de infância do diretor.
O fascismo é retratado no cotidiano dos italianos, com inúmeras sátiras contra Mussolini, como já era de se esperar. Também há uma crítica sutil à Política e como é impossível para aqueles que chegam ao poder manterem seus ideais como gostariam. A cena da alfaiataria, em particular, é o ponto alto dessas "ilusões perdidas" e um perfeito retrato de como o idealismo da juventude se converte, inevitavelmente, na desilusão da velhice.
A trilha sonora de Ennio Morricone é, como sempre, belíssima e comovente, e para mim permanece inexplicável o fato de que ele, sendo uma verdadeira referência na arte da música para Cinema, ainda não tenha ganho um Oscar. Nenhum filme passa despercebido tendo uma trilha composta por ele. Um talento excepcional, que está passando da hora de receber o devido reconhecimento.
Talvez por seu experimentalismo em várias cenas, Baaria - A Porta do Vento passou despercebido pra muita gente, incluindo a Academia. Obviamente não é tão emocionante quanto Cinema Paradiso. Mas um diretor não pode nem deve ficar restrito apenas a um sucesso. Com esse filme, Tornatore volta à sua terra natal, da mesma forma que o personagem Salvatore Di Vita o fez um dia. E vale a pena fazermos essa viagem de volta a Baaria com o cineasta.
Baaria - A Porta do Vento
Dirigido por Giuseppe Tornatore (2h 30 min)
Em cartaz no Usiminas Belas Artes a partir da próxima sexta-feira, 24 de dezembro

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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