
David Fincher faz filmes de tirar o fôlego. Clube da Luta talvez tenha sido o mais pesado e memorável deles. Quem aí não se lembra da célebre pergunta "E se Deus não gostar de você?". Seven - Os Sete Crimes Capitais também não fica atrás, sendo uma obra densa, pesada, com um antagonista cuja agressividade estava toda no olhar. Assustador até hoje. De toda a sua filmografia, excluindo os trabalhos com artistas da música pop, talvez o mais palatável deles seja O Curioso Caso de Benjamin Button, no qual o protagonista rejuvenece ao invés de envelhecer. Ainda assim, é um filme que tem características comuns aos outros: poucas cores; fotografia mais escura; personagens tensos, quase cisudos; linhas narrativas bem trabalhadas. A Rede Social é seu novo trabalho, tem particularidades próprias, mas não é "uma maçã que cai muito longe da árvore" se olharmos seus filmes como um todo.
A principal particularidade é o fato de que o longa trata da biografia de um personagem ainda vivo e que em nada participou do processo de confecção do filme. A Rede Social é inspirado no livro de Ben Mezrich, Bilionários Por Acaso, e conta todo o embróglio formado em torno da criação do Facebook, que resultou em processos judiciais e natural desgaste da imagem de seu idealizador, Mark Zuckerberg. De fato, o único que teve a oportunidade de conhecer seu personagem na vida real foi Justin Timberlake, que interpreta Sean Parker. Ou seja, boa parte do difícil trabalho de recriação dessa tensa atmosfera recaiu mesmo sobre o talento dos atores e do roteirista Aaron Sorkin, que fez a sua parte belissimamente bem.
O filme já começa de um jeito rápido, vibrante e interessante. Uma cena muito bem orquestrada, que levou 99 takes para ficar pronta. O protagonista já é apresentado de cara da forma como o veremos durante boa parte do filme. A partir daí, a obra te 'engole' e nem te dá chance de respirar. Outra característica dos trabalhos de Fincher. Se você piscar, perde alguma coisa. A narrativa bem construída por Sorkin mostra várias ações acontecendo ao mesmo tempo, "costurando" tudo numa teia que nos aproxima bastante da compreensão o mais global possível dos fatos.
Jesse Eisenberg dá a cara 'geek' necessária ao personagem, imprimindo-lhe uma personalidade própria muito importante para que o filme funcione. Sua atuação merecia ao menos uma indicação ao Oscar 2011 de Melhor Ator, vejamos o que acontece. Eu acredito bastante no potencial dele. Em muitas das cenas, tudo depende do ator e para alguém com poucos trabalhos de maior peso no currículo, ele se sai bastante bem. Andrew Garfield, que também está começando, interage bem e ambos protagonizam situações bastante difícies com competência. Mas o realmente surpreendente é ver Justin Timberlake em seu primeiro trabalho consistente no Cinema, mostrando bastante desenvolvura em seu papel, com o qual nos conquista completamente. Já não lembra em nada o cantor de boyband de outrora.
A música do filme foi criada em parceria pelo compositor Atticus Ross e o vocalista do Nine Inch Nails Trent Reznor, que já trabalhou com Fincher em Seven. É uma ótima trilha porque se mostra essencial em mais de um momento para que a ação funcione. Nesse sentido, merece destaque a cena da disputa de remo, extremamente bem feita e orquestrada. As faixas mesclam trilhas conhecidas que vão desde Beatles (Baby, I'm a Rich Man!) até sinistras melodias compostas especialmente pro filme, soturnas na medida exata, certamente por influência de Reznor.
A Rede Social é um épico e, assim como aconteceu com o próprio Facebook, é uma obra de vida e dinâmica próprias. Independente de ser a história de um grupo de jovens, tem tudo para, da mesma forma que os outros filmes de Fincher, passar a fazer parte do nosso imaginário cinematográfico, da nossa bagagem cultural. É um trabalho atemporal porque lida com temas que sempre serão universais: ganância, inveja, mesquinhez, orgulho. Tem tudo para marcar época e ser lembrado no futuro.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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