
Escrito e dirigido por Lisa Cholodenko, realizadora que tem mais experiência à frente de seriados norte-americanos do que no Cinema, Minhas Mães e Meu Pai tem um toque autobiográfico. A cineasta, assim como o casal protagonista do filme, é lésbica e, casada com a música Wendy Melvoin, teve um filho, também da mesma forma que as duas: através de um doador anônimo de esperma. Na obra, coloca em prática um exercício imaginativo: como seria se a criança decidisse descobrir quem é o seu pai biológico? A situação tem uma série de desdobramentos, todos tratados com muita leveza e humor na história.
Tecnicamente falando, o filme não tem nada de mais, com movimentos de câmera até bastante tradicionais. Sob esse ponto de vista, não justifica todo o burburinho construído em torno dele, com rumores inclusive de indicações ao Oscar 2011. O que faz diferença é a naturalidade na forma como as cenas são feitas, com as lentes desprovidas de qualquer tipo de julgamento a respeito dos personagens, que transforma até mesmo as situações mais surreais em verossímeis para o espectador. Em boa parte delas a câmera está parada, com os ângulos e closes sendo os responsáveis por dar movimento às sequências. A dinâmica entre os personagens também torna tudo mais interessante, com o elenco todo estando bem afinado, num ritmo de narrativa muito bom.
Annette Bening e Julianne Moore merecem destaque por suas atuações sincronizadas, interpretando um casal comum, com problemas comuns, com os quais qualquer pessoa que esteja num relacionamento estável conseguirá facilmente se identificar. Estão naturais e engraçadas. Conseguem ir dos momentos cômicos aos dramáticos juntas com bastante competência. Mia Wasikowska consegue desfazer a impressão negativa deixada pelo desastroso Alice no País das Maravilhas de Burton. Josh Hutcherson nos passa a real impressão de ser um adolescente descompromissado com tudo. E Ruffalo dá grande vivacidade ao seu papel, valorizando o personagem de tal forma que ele cresce e deixa de ser coadjuvante em muitas cenas.
Destaque para o momento logo no início do filme no qual os personagens de Mia e Hutcherson se encontram com o de Ruffalo pela primeira vez, uma situação de extremo desconforto para os três. A estranheza desse contato é quase palpável, de tão evidenciada que fica na tela. Eles conseguem passar isso pro público de forma muito competente. Somando-se à atuação, temos a contribuição da trilha sonora, que agrega sensibilidade não só a esse, mas a todos os momentos mais delicados da história que, apesar de serem representados de uma forma extremamente leve, não são poucos.
Com enredo simples e executado de uma forma muito peculiar, o que é o grande segredo do filme, Minhas mães e meu pai tem em sua sensibilidade os ingredientes que o tornam um ótimo candidato a algumas categorias do próximo Oscar, especialmente ao prêmio de Melhor Atriz. Fugindo dos clichês comuns a filmes com temática LGBT, a obra vai muito além de ser apenas a história de um casal de mulheres, como não deve ficar erroneamente estereotipada. É um enredo que aborda as dificuldades inerentes ao relacionamento humano em todas as suas nuances, um desafio que todos nós, indepentente de orientação sexual, enfrentamos diariamente.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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