
O trabalho do cineasta britânico Asif Kapadia é pouco conhecido no Brasil e no resto do mundo. Premiado com o British Academy of Film and Television Arts, é um documentarista experiente, que não hesitou em aproveitar a chance que lhe deram ao dirigir Senna, filme que conta a história do piloto de Fórmula 1 da melhor forma possível: com suas próprias palavras.
Kapadia tinha um desafio grande à sua frente. Dirigir uma produção internacional (parceria entre a Universal Pictures, Working Title Films, Paramount do Brasil, entre outras) sobre um piloto brasileiro cujos fãs ainda são muitos em todo o mundo. Falecido há apenas 16 anos, Ayrton Senna ainda está na memória coletiva dos torcedores. O diretor optou, então, por uma decisão corajosa: usar apenas imagens de arquivo.
Ele usa somente filmagens de baixa qualidade, antigas, feitas para a TV, se arriscando a perder o espectador mais exigente. Também foi corajosa sua opção porque havia uma abundância de material existente e o risco de não se selecionar aquilo que era o melhor de acordo com a perspectiva dos fãs era muito grande. Além disso, o fato de não ter sido o diretor quem as filmou exigiu dele e do roteirista Manish Pandey paciência para serem os construtores de um quebra-cabeça: estabelecer uma linha narrativa em cima tanto do que havia disponível quanto da história conhecida do piloto. Tarefa difícil, mas que ambos conseguiram cumprir com sucesso.
A obra se inicia em 1984, com o início da carreira. Há pouco foco na infância e adolescência do protagonista. A vida pessoal dele claramente não é aquilo que interessa ao filme. São poucas as passagens nas quais são discutidas questões como sua vontade de ajudar crianças carentes e sua fé. São discutidas com mais ênfase sua passagem pelas equipes, as dificuldades e problemas enfrentados, seu talento em ser veloz, sua carreira meteórica.
Com depoimentos e narração acompanhando as imagens, Senna deixa o espaço livre para que seu protagonista conte a própria história, algo bem raro de se ver em documentários. Não ver os rostos de quem está falando é algo bem incomum, já que a própria dinâmica dessa categoria de filme já pressupõe a “costura” de imagens dos personagens, ainda mais numa obra cujos registros são todos de baixa qualidade. Ainda assim, a decisão parece reforçar a intenção do cineasta, de que houvesse pouca interferência sobre aquelas imagens às quais todos os fãs já estavam acostumados.
Isso é enriquecido por filmagens feitas pela família e registros de bastidores feitos na época pela TV da Fórmula 1, material inédito com os qual os admiradores do piloto ficarão bastante satisfeitos. O conjunto de imagens ganha unidade através da montagem, extremamente bem feita, de forma circular. A trilha sonora também é muito boa, mesclando música brasileira com estrangeira e instrumental. Não poderia ser diferente já que o excepcional compositor Antônio Pinto, filho do cartunista Ziraldo, foi o responsável. Dentre outros trabalhos, destaque para indicação em 2007 ao prêmio Globo de Ouro de melhor canção original por "Despedida", escrita com Shakira para a trilha-sonora do filme O Amor nos Tempos do Cólera. A trilha feita por ele tem misturas inusitadas, que vão deste a mescla de bateria com violino (que intensificam os momentos dramáticos do filme) até uma versão da música Bob, do Otto, num arranjo quase irreconhecível e que ficou muito bonito.
Senna tem o mérito de não fazer julgamentos, apenas nos mostra os fatos e nos leva a tirar por conta própria as nossas conclusões. Foi a chance que Asif Kapadia aproveitou de ter maior renome internacionalmente, algo que certamente irá acontecer após esse filme circular nas salas de cinema de todo o mundo. Não haverá quem não se emocione com a trajetória daquele que foi um dos maiores esportistas que o mundo já teve. Com suas próprias palavras ele nos prova que foi único e percebemos que as marcas que deixou na Fórmula 1 poderão ser sentidas ainda por muitas gerações futuras.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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