
Extremamente diferente e superior ao filme que o antecedeu, Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro caminha para ser uma das bilheterias mais bem sucedidas da história do Cinema Brasileiro. Não é à toa. A sequência da saga de Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, pode muito bem ser chamada de o "Zona Verde" do Rio de Janeiro tendo em comum com o filme de Paul Greengrass o conteúdo polêmico e duras críticas à política e à corrupção. José Padilha não poupa ninguém e, da mesma forma que o diretor britânico, constrói um enredo ficcional, mas tão costurado à realidade que fica difícil discernir a linha tênue que separa as duas.
No enredo, Nascimento agora é Coronel, não conseguiu deixar o Bope como pretendia. O resultado são problemas constantes com a ex-esposa Rosane (Maria Ribeiro) e ausência na vida do filho Rafael (Pedro Van-Held). Em Bangu I, tem de lidar com uma situação cujo desfecho é inesperado. As consequências dessa ação mudam sua vida e a das pessoas a seu redor, além de modificar a percepção dele sobre a Polícia Militar do Rio de Janeiro daquele momento em diante para sempre.
No geral, Tropa de Elite 2 é um filme de cenas muito fortes e impactantes. São inúmeras as suas sequências marcantes. É a saga do Rio de Janeiro, do Bope, mas principalmente de um homem, que acredita estar fazendo o que é certo sob o seu ponto de vista. O público é convidado a ser sua testemunha ocular, não a julgá-lo. Daí talvez a necessidade da narração constante, um pouco cansativa em alguns momentos, mas necessária para que consigamos compreender o que move o protagonista. Estamos dentro de sua mente, de suas lembranças. Ao mesmo tempo, paralelamente, acompanhamos como a corrupção, aos poucos, se entranha em tudo, contaminando até aqueles que imaginávamos intocáveis. Perdemos nossas ilusões e temos os nossos olhos abertos, da mesma forma que acontece com o personagem.
Quanto aos aspectos técnicos, Padilha é sofisticado em seus movimentos de câmera de uma forma como poucos cineastas brasileiros o foram até hoje. Seus cinegrafistas andam bastante com a câmera na mão. A imagem treme e a câmera acompanha os atores nas cenas em seus mais bruscos movimentos. Os planos são bastante fechados, com foco no rosto dos personagens. Destaque para uma discussão particularmente tensa que Nascimento tem com a ex-esposa, na qual a imagem está bastante fechada sobre ele, com a câmera se deslocando para ela e de volta para ele a medida que cada um fala. Quando ele discute com Matias, temos um enquadramento parecido, mas a diferença está no foco sobre a imagem do Coronel no espelho ao final da cena, um toque genial, que mostra a presença de espírito de Lula Carvalho e faz toda a diferença pro desenrolar do enredo. Da mesma forma, o travelling sobre a cidade de Brasília ao final da projeção faz toda a diferença na percepção do público sobre a cidade onde os nossos destinos são decididos diariamente.
O som direto também é muito importante no filme e é feito com excelência por Leandro Lima. Em muitas cenas, os tiros parecem recochetear por todo o cinema. Destaque para a equipe de peso que ficou responsável pelos efeitos especiais, nomes bastante conhecidos em Hollywood, como Bruno Van Zeebroeck (Transformers), Keith Woulard (O Curioso Caso de Benjamin Button, Independence Day e Forrest Gump) e William Boggs (Homem-Aranha). A trilha sonora também é grandiosa, mesclando música incidental com arranjos instrumentais. A música é de Pedro Bromfman, que também fez a trilha para o primeiro filme. Particularmente a faixa de encerramento, O Calibre, dos Paralamas do Sucesso, é a escolha mais feliz do filme, sendo o toque final perfeito, a pincelada final na saga do personagem. E combina bastante com a trajetória presenciada pelo público durante os 118 minutos da projeção.
Os atores estão todos excelentes, o que deve ser creditado não apenas aos seus (óbvios) talentos individuais, mas também à preparação de elenco feita por Fátima Toledo. Ela esteve à frente, entre outros, do elenco de Cidade de Deus, constituído na sua maior parte por crianças. Conhecida por seu método, que tem foco nas emoções ao invés de nos personagens a serem interpretados, ela deu a esse filme uma série de cenas inesquecíveis, por meio das interpretações de Seu Jorge, André Ramiro, André Mattos, Irandhir Santos e principalmente Wagner Moura, sendo este último atualmente o maior ator que o Cinema Brasileiro tem. A cena em que Ramiro, preso, é confrontado por Moura é tensa e tocante, de uma força impressionante, presente apenas no olhar dos dois atores. Seu Jorge também está muito bem como o traficante Beirada, extremamente convincente. E nem há o que comentar diante da interpretação que Mattos faz de um polêmico e famoso apresentador, numa paródia estudada e bem construída para ir muito além do humor.
De todas e tantas sequências memoráveis de Tropa de Elite 2, filme bem produzido, planejado, roteirizado e executado, aquela que mais chamou minha atenção é uma que parece "inofensiva" a muitos, sem despertar grandes emoções. É aquela na qual Nascimento entra num restaurante lotado e é aplaudido por todos que estão lá. Interessante observar Rodrigo Pimentel, um dos roteiristas e ex-capitão do Bope, levantar-se para aplaudir o protagonista. A princípio, muitas pessoas acharam que Pimentel havia criado Nascimento inspirado em si mesmo. Mas na verdade o personagem surgiu como uma compilação de experiências que ele e amigos enfrentaram enquanto no Bope. Me pergunto o porquê dele ter querido estar lá, aplaudindo o protagonista que criou. É estranho e, ao mesmo tempo, tem certa lógica. Porém, ainda não consegui captar a mensagem que quis deixar através desse seu gesto. Pode significar inúmeras coisas. Ou talvez seja algo simples demais e eu esteja exagerando.
Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro é uma obra que me deixa orgulhosa em ser brasileira. Sim, temos uma produção cinematográfica de qualidade aqui. Mesmo que esse Cinema não chegue até o Oscar, nos dá ânimo de prosseguir acreditando que uma nova produção nacional é possível. Com um algo a mais: a desilução que este filme traz é, no final das contas, extremamente benéfica e obrigatória em período eleitoral. Sintam-se convocados a ir até o cinema mais próximo assistir. E abram seus olhos e ouvidos.
Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro
Dirigido por José Padilha (2 hs)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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