
Nunca ri tanto na minha vida numa pré-estreia. E a culpa é toda do cineasta André Klotzel, que encontrou uma fórmula diferente e extremamente inteligente de colocar em cartaz seu novo filme, Reflexões de Um Liquidificador. A combinação entretenimento mais obra de qualidade foi perfeita naquela noite de sexta, tão cheia de dissabores. Antes da "sessão tripla", que contou com a exibição do excepcional curta-metragem de Gilberto Scarpa Os Filmes Que Não Fiz e Stand Up de Geraldo Magela (o Ceguinho), conversei com o realizador paulista, que estreou na direção de longas-metragens com A Marvada Carne, em 1986, selecionado, entre outros festivais, para a Semana da Crítica do Festival de Cannes, além de ter ganho inúmeros prêmios ao longo de sua carreira.
Reflexões de Um Liquidifcador é o quarto longa-metragem realizado por ele. Em entrevista ao Mondo BHZ, o diretor falou brevemente sobre diversos assuntos, dentre eles o fato de Lula - o Filho do Brasil ter sido escolhido como representante brasileiro para as prévias do Oscar e sobre a experiência de trabalhar com José Mojica Marins, o Zé do Caixão, no início da carreira.
Opperaa - De onde surgiu a ideia de um liquidificador falante?
André Klotzel - O roteirista José Antônio de Souza, que também é dramaturgo, escreveu e me mandou o roteiro e eu gostei na hora, algo raro de acontecer quando eu leio o argumento de um filme. Um bom roteiro precisa ter química comigo e esse teve, imediatamente. Fiquei convicto de seguir adiante e buscar viabilizar o filme. Tinha certeza que estava à frente de um bom projeto.
OP - "Reflexões" estava entre os 23 pré-selecionados pelo MinC como possíveis representantes brasileiros às prévias do Oscar. O que você achou do resultado? Acreditava que tinha chances de ter sido escolhido?
A.K. - Me surpreendi com a escolha de Lula, o Filho do Brasil. Imaginei que fosse ser o filme do Jabor (A Suprema Felicidade) ou outro no mesmo estilo. Quanto a "Reflexões", não o achava favorito, teria sido uma zebra se o escolhessem. Os critérios de escolha dos jurados brasileiros para o Oscar são norteados pelo que eles acham que os americanos irão gostar. Devem ter escolhido Lula tendo como base a boa imagem internacional do presidente. E acreditam que isso o fará estar entre os cinco concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
OP - Você trabalhou com José Mojica no início da carreira. Como foi a experiência? Isso te influenciou como cineasta?
A.K. - Quando trabalhei com o Mojica eu era estudante da USP, era assistente de produção dele no segundo longa que ele fez. Para mim foi uma experiência deslumbrante, uma aventura. Entrar naquele mundo me abriu novos horizontes, aprendi muito. Tudo era exótico, folclórico e muito rico. Foi um desafio conciliar a faculdade com a Boca do Lixo.
O.P. - Você sente muita diferença do cinema brasileiro feito naquela época e do feito nos dias de hoje?
A.K. - A principal diferença de lá pra cá está na distribuição. Marvada Carne eu lancei ainda pela Embrafilme. Ela era mais eficaz para distribuir os filmes brasileiros por todo o país. Agora todo o processo depende direta ou indiretamente da TV Globo. E ainda há um agravante: o mercado para filmes de duração média ou pequena se extingiu. Onde se exibir um curta-metragem? E um filme de 50 minutos? Há muita dificuldade. Ou você se alia à grande mídia ou faz lançamentos modestos. Com "Reflexões", estou buscando uma solução alternativa para isso. Faço acordo com poucas salas em cada cidade, nas quais o filme possa ficar mais tempo. Conto mais com o boca-a-boca do que com a divulgação maciça. A rotatividade dos lançamentos nas salas é grande e se as pessoas assistem e comentam, estando mais semanas em cartaz, o filme terá tempo hábil para conquistar esses espectadores que forem lá conferir o que os amigos contaram. Em São Paulo e no Pará, onde ele já estreou, está indo muito bem de bilheteria, pois o lancei dessa forma, uma sala em cada capital. E a pessoa ainda tem a oportunidade de ver um curta-metragem e a apresentação de um comediante local, o que ajuda a divulgar o trabalho de outros também em dificuldade de encontrar seu espaço.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.