
André Klotzel é um nome pouco conhecido no Brasil, como boa parte dos diretores independentes. Desde 2002 tem sua produtora, a Bras Filmes, e é, como boa parte de nossos cineastas, responsável, junto com sua equipe, pelo trabalho "de formiguinha" que envolve a produção de um longa-metragem brasileiro: trabalhar o roteiro, buscar fontes de financiamento, captar o dinheiro, filmar, pós produzir. O processo todo dura, em média, cinco anos. Só que, no caso dele, a diferença está na forma como encarou o principal gargalo da produção nacional: a distribuição. Inúmeros filmes ficam prontos e engavetados, devido à falta de espaço nas salas brasileiras e à falta de distribuidoras dispostas a fazê-los circular pelo país. André decidiu que isso não iria acontecer com Reflexões de Um Liquidificador, seu novo trabalho.
Ele aposta no boca-a-boca sobre a obra para levar as pessoas ao cinema. Coloca a obra num cinema só da cidade onde ela passa a estar em cartaz, mas por mais tempo, para que as pessoas tenham tempo de saber sobre Reflexões e ir vê-lo. A estratégia tem dado certo. E em algumas sessões, o público pode ver, antes do filme, uma sessão de stand up com um comediante local e um curta-metragem de algum produtor da região. A ideia tem atraído os curiosos e há de fazer muitos donos de salas de cinema reverem seus conceitos. É uma sacada muito boa: aliar cinema de qualidade a entretenimento e, de quebra, ainda divulgar os talentos locais, muitas vezes pouco conhecidos de seus conterrâneos. Na data desta crítica, o filme estava em cartaz em São Paulo e Belo Horizonte. Mas até o final do ano deve ir para, pelo menos, mais cinco cidades.
Mas vamos à história do filme. Reflexões de Um Liquidificador já se inicia na cozinha, com um plano do protagonista, um liquidificador velho, modelo fora de linha. Ele contará ao público a história de sua dona, Elvira (Ana Lúcia Torre), com a qual compartilha inúmeros momentos. O inusitado da história toda é que o liquidificador fala com ela, o que pode levar o público ou a achar o enredo idiota ou a acreditar que a personagem está louca. Bom, cuidado para não cair em nenhuma destas armadilhas e pré-julgar erroneamente a obra. Selton Mello faz a voz do liquidificador. E a faz de forma muito bem feita, quase nos fazendo acreditar que o aparelho está realmente falando.
Importante destacar que o som direto é um aspecto fundamental do filme, já que pequenos barulhos como o pingo da torneira da pia ou o despertador tocando são essenciais para retratar o estado de espírito de Elvira e nos contextualizam da realidade doméstica na qual ela vive. A trilha sonora é bem suave e o liquidificador chega a assoviar lindamente, dando o clima certo de humor negro à história, já que, em certas cenas, a tranquilidade que a música passa contrasta totalmente com o que vemos na tela. Funciona bastante, o que é incrível. É um aspecto bastante peculiar da obra.
É bastante reflexivo, de ritmo contemplativo, bem como diz o seu título. Seu humor negro é intercalado por pontuações sobre a vida feitas pelo liquidificador, que oscilam entre divertidas e intrigantes. Mais ao final da obra, ele diz: "pensar é um vício" e, ainda, "a paixão me fascina". São frases sem importância, na maior parte das vezes. Mas, ao mesmo tempo, são coisas das quais ficamos nos lembrando depois, raciocinando, refletindo mesmo.
Toda a ação é escancarada e há poucas surpresas. A intenção, na verdade, não é surpreender ninguém e os mais espertos captam o enredo aos cinco minutos de projeção. Ainda assim, ficamos curiosos para entender como se dá o desenrolar da história, o que mantém todo mundo bastante atento. A atuação de Ana Lúcia também é bastante cativante, o que contribui para que nos identifiquemos com ela. Interessante observar que o fato dela ser taxidermista é uma referência inconsciente do roteirista José Antônio de Souza a outro grande personagem do Cinema, com trajetória levemente semelhante à de Elvira. A diferença é que por ela conseguimos sentir simpatia enquanto o outro foi concebido para ter o efeito totalmente oposto no público. Seria interessante se a atuação dela também marcasse a história do Cinema Brasileiro. Na minha opinião, o cenário é totalmente favorável a isso.
André Guerreiro Lopes também está excelente como o inspetor xereta. Na verdade, de todo o elenco, foi o único ator pensado para interpretar o papel. E realmente cai como uma luva para ele. Divertido e, ao mesmo tempo, irritante. A combinação certa para esse policial, disposto a descobrir a verdade.
Duas cenas merecem destaque: a primeira é a do quarto, na qual a calma de andar de Elvira e a luz da porta entreaberta sobre Onofre (Germano Haiut) constróem um momento de tensão da forma certa, deixando a todos apreensivos, mesmo que saibamos o que está por vir. Numa outra cena, a mais nojenta do filme, fica nítida a influência, mesmo que inconsciente, de José Mojica, o Zé do Caixão, com o qual o diretor trabalhou brevemente em sua juventude. A sequência na qual estão inseridos os dois momentos é, no seu todo, o ápice da ação do filme e vale, por si só, assistir a obra inteira. É uma mescla de bizarro, horror e diversão. A gente não sabe se vomita, se fica atônito ou se dá gargalhadas.
Reflexões de Um Liquidificador mostra que André Klotzel ainda tem muito a contribuir com o cinema nacional. Nos dá esperanças de futuras produções mais refinadas, mais com a "cara" do nosso país, com uma identidade. Temos de ter fé que nem todas as obras precisam do modus operandi que a Globo Filmes está institucionalizando. Da mesma forma, é coerente acreditar que o público, em certo ponto, vai enjoar de assistir a apenas esse tipo de produção. Aguardemos.
Reflexões de Um Liquidificador
Dirigido por André Klotzel (1h 20 min)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.