
Nas mãos de Michael J. Bassett, diretor praticamente estreante, foi colocada a responsabilidade de adaptar para o cinema Solomon Kane, cujo protagonista foi inspirado em personagem de Robert E. Howard, escritor de Pulp Fiction mais conhecido por criar Conan, o Bárbaro. Para um inexperiente, ele até se saiu bem. Não fez um grande sucesso de bilheteria nem um filme cativante, mas teve a competência de não estragar o personagem, o que já deve deixar os fãs satisfeitos.
No filme, que tem os mesmos produtores da trilogia Resident Evil, somos apresentados a Kane, que, apesar de ter um irmão mais célebre, é praticamente desconhecido de boa parte dos brasileiros. Interpretado por James Purefoy, o personagem é um amaldiçoado que se arrepende de seus pecados e busca redenção. No seu caminho, muitas lutas, sangue e violência exarcebada. Milagrosamente, há certa veracidade nas cenas de batalha, o suficiente para acreditarmos estar vendo, de fato, pessoas sendo esfaqueadas por meio de mil e um ângulos diferentes. E os efeitos especiais têm seu uso relativamente equilibrado, outro ponto bastante positivo da obra.
O roteiro tem alguns buracos, como na cena em que Kane se lava no rio, colocada claramente no roteiro com o propósito de que a mocinha Meredith (Rachel Hurd-Wood) veja a tatuagem nas costas do protagonista. Em pleno século XVI quem diria "estar sujo" e "precisar se lavar" na Inglaterra? Ainda mais um personagem "durão" como este Solomon Kane que nos é mostrado? Pouco crível, mas não havia, pelo menos para o diretor/roteirista, outra solução. Os furos são todos basicamente compostos por situações semelhantes, criadas para "forçar" o enredo a seguir o caminho devido.
Há também momentos dramáticos desnecessários, um pouco forçados, com um desfecho dos mais exagerados, mas que funciona dentro do contexto fantasioso do filme. O desenvolvimento da história tem algumas reviravoltas mas, no geral, é bem previsível. Interessante observar, no entanto, as crises de fé manifestadas por Solomon Kane em breves diálogos durante sua jornada, que são bastante instigantes e provocativas. Nos levam a refletir por alguns momentos. Mas não dura muito. Logo o personagem volta à pancadaria.
Destaque para a sequência da igreja abandonada: muito boa, de dar medo e tirar o fôlego de quase qualquer um que assistir! Ponto para o staff de Efeitos Especiais do filme, que criou seres realmente assustadores especialmente para essa parte, que lembram perigosamente os antagonistas de Will Smith em Eu Sou A Lenda. Muito peculiar essa semelhança. Na trilha sonora, Klaus Badelt acerta novamente com música instrumental orquestrada grandiosa, que dá bastante "corpo" a muitas cenas.
Prestem atenção em como James Purefoy interpreta Kane. Ele é um ator mais conhecido por seus papéis em seriados norte-americanos, pouco famliar ao grande público, especialmente aquele fora dos Estados Unidos. Sua atuação é boa, mas não deu o peso suficiente que o protagonista merecia. Ainda assim, fez um bom trabalho, comedido, sem exageros, contrastando com todo o resto, com a seriedade exigida pelo papel.
Solomon Kane é, no geral, um filme bem feito, que vale a pena ser assistido apesar dos exageros, mas não vá com altas expectativas ou irá se frustrar. Isso porque Michael J. Bassett ainda está apenas começando. Tem uma longa estrada pela frente para provar seu valor para nós e para Hollywood. Vejamos como se sai essa sua adaptação nas bilheterias, o que nos poderá dar uma boa noção se ele terá novas chances de blockbusters no futuro.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
A Mondo BHZ é uma revista de crítica cultural direcionada ao público de Belo Horizonte. Aqui, voce encontra:
Aproveite para nos seguir no Twitter, acompanhar atualizaçoes pelo canal RSS ou enviar-nos email com sugestoes, dicas, críticas. Para anunciar, voce também pode utilizar nosso canal de contato.