
O que dizer de Karate Kid? Começemos pelo básico. Dirigido por Harald Zwart, um holandês pouco conhecido em Hollywood, cujo trabalho mais recente foi A Pantera Cor de Rosa 2, com Steve Martin como Clouseau. Protagonizado pelo filho de Will Smith, Jaden Smith, que tem apenas 12 anos e está no seu terceiro filme e primeiro como ator principal. Contracena com o chinês Jackie Chan, este experiente ator, com mais de cem filmes no currículo, boa parte deles dedicados às artes marciais.
Expostas estas informações preliminares, podemos agora falar do filme, vendido espertamente pelo marketing da Sony Pictures como sendo um remake da obra de 1984, coisa que não o é. Isso porque um remake possui uma série de referências ao filme anterior enquanto este Karate Kid, embora possua semelhanças (os fãs do primeiro saberão identificar os pontos comuns no segundo, devidamente adaptados para um garoto de 12 anos), faz de tudo para ser o contrário; uma história totalmente independente, apesar de usar o mesmo argumento: jovem deseja aprender artes marciais e recorre a mestre não convencional, que lhe ensina muito sobre kung fu e sobre a vida. Mas o uso do mesmo argumento não é o suficiente para termos um remake, ou filmes como "Menina de Ouro" também poderiam entrar nessa categoria. E ao longo da obra contemporânea vamos compreendendo que esta também não é a intenção do roteirista.
Mas as pessoas pagam ingressos para ver um remake, tem esse tipo de curiosidade, por isso o marketing não está errado. O nome de Kung Fu Kid ou algo parecido jamais teria o mesmo apelo comercial. E o elenco foi bem escolhido: Jaden Smith cativou muitas pessoas em À Procura da Felicidade, contracenando com seu pai; Jackie Chan tem inúmeros fãs ao redor do mundo. E é o tipo de filme que já vem com uma fórmula pronta, como uma receita de bolo. O diretor já sabe de antemão o que fazer. O público já vai ao cinema sabendo o que esperar. E quer ter as suas expectativas satisfeitas. A presença de clichês se faz necessária. E vários deles estão presentes como, por exemplo, na cor dos quimonos dos competidores. Mas, como eu já disse em críticas anteriores, clichês podem sim ser usados sem ofender o espectador. Como é o caso de Karate Kid.
O filme começa mal, com uma sequência inicial desastrosa, que tenta comover e cativar, mas já é bastante batida em longas do gênero. De cara já pensamos, "oh, estou assistindo Sessão da Tarde". Tudo é bem previsível e até os angulos das câmeras são manjados. Mas a obra vai melhorando, com grande ajuda do roteiro. Podemos dizer mesmo que Christopher Murphey (roteirista inexperiente) e Robert Mark Kamen (responsável pelo argumento, famoso por ter escrito o roteiro de Gladiador) salvam o filme, somados à "mão leve" do diretor e a ótima direção dos atores, especialmente Jaden Smith, muito inexperiente mas que até se sai bem, demonstrando ter tido bom preparo e muita ajuda em seu desempenho. O fato de interagir bem com Chan também deve ter sido determinante para que a história funcionasse. Este último tem a oportunidade de exercitar mais seu lado dramático como o Sr. Han, o cara da manutenção, que faz as vezes de Sr. Miyagi. Consegue nos comover. Já sabemos de antemão exatamente como vai ser o desenvolvimento de seu personagem e como será a relação dele com o jovem aprendiz. Mas ainda assim somos conquistados por seu carisma.
Destaque negativo para a trilha sonora, com faixas contemporâneas mescladas a música instrumental e algumas clássicas executadas ao violino, além de melodias chinesas típicas. Uma salada que faz apelo emocional e ao público jovem. Mas, na minha opinião, uma salada com açúcar demais. Falta equilíbrio. Não chega a comprometer o desenvolvimento da história. Mas é por pouco.
Duas sequências interessantes de Karate Kid e que salvam nosso interesse inicial pelo filme são a da corrida desenfreada do protagonista, uma perseguição, e a luta que se segue, com a devida interferência de Chan no momento certo. Elas quebram um pouco do "tédio" da primeira hora de filme. Também merece menção o passeio turístico que o público faz "de tabela" pela China assistindo o longa, apesar de que mostrar as comidas típicas e os costumes do povo é quase obrigação de qualquer filme desse tipo. E a China nem é tão novidade assim, afinal as olimpíadas em Pequim aconteceram apenas a dois anos. Ainda assim, pra quem não conhece, é uma boa oportunidade.
Karate Kid não traz nenhuma novidade, mas já consegue muito ao não se apoiar totalmente na ideia de remake, o que teria resultado em inevitável fracasso. Acredito que, apesar da previsibilidade, o filme funciona exatamente por não se apresentar como uma "versão atualizada" do anterior, propondo questões diferentes, como a do bullying. Será cativamente para os jovens e, apesar da violência, consegue atingir o patamar de "filme para toda a família". Não chega a ser um formador de público nem conquistará a simpatia daqueles fãs ardorosos de Ralph Macchio e Pat Morita. Mas é um longa que saberá agradar a aqueles que querem assistí-lo por ser o que é: um blockbuster. E, apesar de tudo, mantendo certa qualidade, algo peculiar e cada vez mais raro.

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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