
Quentin Tarantino dispensa apresentações. Seu 'novo' filme, À Prova de Morte, foi realizado em 2007, mas apenas agora chega ao Brasil. Foi feito dentro do projeto Grindhouse, no qual ele e Robert Rodriguez prestaram homenagem aos filmes 'alternativos' norte-americanos: violentos, divertidos e cheios de cenas sensuais. Enquanto Planeta Terror, o filme de Rodriguez, estreou logo quando foi lançado, o de Tarantino ficou um pouco mais de tempo na geladeira. Bastardos Inglórios, seu filme mais recente, chegou a estrear antes deste.
Apesar de ser um filme referencial ao Cinema da década de 30, predominam as influências que já fazem parte do repertório do realizador, que faz um Cinema de Autor extremamente característico. Desde os primeiros segundos de projeção se sabe que é um filme de Tarantino. Já nos créditos iniciais, percebemos isso. E as referências pululam por toda parte, também com bastante ênfase à produção musical das décadas de 60 e 70. As falas dos personagens são como se fossem o próprio diretor falando. Um saudosista. Que só coloca as músicas que gosta, menciona filmes que são de sua preferência, etc. E isso acontece em boa parte de suas produções. Destaque para o uso de gírias típicas de personagens clássicos do diretor (nigga, bitch, motherfucker), feito numa sequência desenfreada e inesquecível por uma das dublês.
Mas as homenagens aos filmes 'antigos' vão além dos diálogos, estão na própria parte técnica do filme, o que inclui imagens "arranhadas", com montagem "mal feita" de propósito, para remeter a filmagens antigas, em película. Alguns cortes são ruins propositalmente, como quando o carro das protagonistas some da imagem, sendo substituído por outro. Durante um diálogo, nos assustamos com um movimento repentino em zoom out e zoom in da câmera, que nos tira o foco do diálogo de uma das personagens, quase como se o diretor nos falasse 'Isto é um filme'. E do nada o filme fica em preto e branco. E repentinamente volta a ser colorido.
Ainda dentro do Cinema dos anos 60 e 70, temos o uso de vários ângulos para mostrar golpes, inclusive usando slow motion, técnica típica dos filmes de ação dessa época. São feitas referências a antigos shows de TV e atores 'old school', além de mencionados uma série de filmes antigos sem CGI, com um propósito bem claro, reservado a quem assiste o filme. Merece destaque a menção que duas das personagens fazem ao filme Corrida contra o Destino, de 1971, e ao seu protagonista Kowalski (interpretado por Barry Newman), um entregador de carros que deve levar um Dodge Challenger 1970 de Colorado a São Francisco. A referência renderá a principal sequência de À Prova de Morte, uma perseguição de carros fenomenal, totalmente anos 70, até mesmo na trilha sonora.
Mas vamos ao enredo. Um grupo de garotas, liderado por Arlene (Vanessa Ferlito) vai a um bar, no qual encontra o barman Warren (o próprio Tarantino) e se diverte a noite toda tomando algumas bebidas. O estranho Dublê Mike (Kurt Russell) interrompe essa alegre noite, buscando interagir com a moça. Mais adiante, o dublê de riscos, que faz cenas de ação, se encontrará com outras duas dublês, o que torna as coisas mais interessantes. O ritmo dos diálogos exige atenção para acompanhar a história. É bom observar que o fato do antagonista ser um dublê é mais uma referência ao Cinema, das bilhares que há pipocando por todo o filme (chega a haver uma batida em um letreiro de filme!). E ironicamente há dublês para os dublês em algumas cenas. E isso fica perceptível.
Tarantino faz mais algumas pequeninas proezas técnicas: repete pelo menos três vezes uma forte cena, apenas para mostrar em detalhes o que acontece a todos os personagens. Faz o personagem de Russel explicar como se filma de dentro de um carro para, três cenas seguintes depois, filmar da forma como ele havia dito que ela possível. Coloca a câmera para girar em volta de um grupo, para registrar cada ponto do diálogo que está ocorrendo. E finaliza com créditos divertidos.
Destaque para a trilha sonora, excelente como sempre, sendo a jukebox do bar de Warren a melhor que eu já vi. Todas as músicas tem seu uso bem planejado pelo diretor. Até mesmo o piano meio 'emotivo' na hora de Jungle Julia enviar uma mensagem de texto, mais um dos mecanismos que ele usa para que o público se apegue emocionalmente às garotas e torça por elas.
À Prova de Morte é um filme que mostra todo o talento e desenvoltura de Tarantino, realizador como poucos, plenamente consciente do que quer alcançar com seus filmes e de como fazer isso. É uma obra divertida, que nos faz rir, apesar da dose de violência de sempre. Exige certo estômago em alguns momentos. Mas este é um esforço prazeroso de se fazer.
À Prova de Morte
Dirigido por Quentin Tarantino (1h 54 min)
Em cartaz no Belas Artes a partir de 20 de agosto

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Fez o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica com Pablo Villaça, criador do Cinema em Cena. Contacte-a pelo seu email priscila.armani@mondobhz.com.br ou siga-a no Twitter.
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